Marcelo Camelo

março 12, 2010 by Fernando Corrêa  
Filed under Era uma vez, destaque

Esta entrevista com Marcelo Camelo foi publicada na NOIZE #18, de outubro de 2008, na época do lançamento de Sou, primeiro disco solo do cara. A capa, que trazia a cara de Camelo livre de recursos de Photoshop, teve uma repercussão tão legal, que o próprio hermano brincou com ela em vídeos e fotos com que ilustramos a entrevista que segue.


Não tente compreender Marcelo Camelo—ele é o infinito. Não se trata de prepotência, de maneira alguma; você também é o infinito para ele. Em meio a tanta infinidade, conversamos com o homem que compôs Sou, um disco de uma simplicidade que só as poesias mais belas possuem. Mas não espere de uma entrevista com Camelo explicações de sua obra; em vez disso, ouça e veja com sua própria alma o show que o “los hermano” apresenta no próximo dia 16 de outubro.

Tua música está mais baixinha, tem momentos de silêncio, especialmente nas mais dedilhadas. Qual a importância de ficar em silêncio para ti?

Ah, eu gosto, como eu mexo com música, com som, é uma contraposição importante na parada e aparece constantemente no diálogo. Não sei se do silêncio irrompem as mais belas melodias, a frase é bonita, pode ser.

Agora começou a correria dos shows, mas como foi o clima de composição e gravação do sou?

Cara, foi tudo tranqüilo, no maior sossego. Não teve nenhum atrito, foi totalmente pacífico. O disco tem umas músicas meio antigas, tipo “Liberdade” e “Santa Chuva”, mas boa parte do disco foi composta nesse período de recesso.

Teve alguma canção do CD que saiu de uma vez só?

Um pouco, “Saudade”, “Copacabana”, tem umas que vêm meio de rompante. “Liberdade” não, “Liberdade” demorou um pouco…

Canções como “Passeando” se aproximam do erudito. Como um cara que não gosta de disciplina compõe essas músicas?

Buscando o som, tateando. E por influência muito de Guiomar Novaes [brasileira, uma das principais pianistas do século XX], pensando no piano que eu tenho ouvido muito. É a tentativa de fazer parecido e curtir um som parecido. Vou tocando e as coisas vão abraçando umas às outras. É só não pensar muito, é difícil teorizar sobre isso. Se tentar descrever, a parada se esvai. Tem que estar distraído para a coisa.

Quando tu pega o violão, é para compor?

É, o violão pra mim é meio que uma extensão do corpo, como se o corpo tivesse necessidade de emitir sons. Aí passa pelo violão e fica aquele “blemblemblem”, e você fica soprando esse “blemblem” até virar uma música. É uma relação intrínseca e natural mesmo.

E as letras, quando tu compõe, cantarola e faz as letras depois?

Bem isso, eu vou cantando um negócio… tem acontecido mais desse jeito, de as palavras entrarem mais pelo som delas do que por o que eu estou pensando ou querendo.

Tu acha que tuas letras retratam o sentimento que originou a melodia?

As coisas não são para se encerrar, o objetivo é que esses sinais, códigos e palavras apontem para um infinito de significados. Não é para representar o que eu estava sentindo, ou conjugar exatamente com a música. É para que música e letra apontem para o infinito, rodem uma em volta da outra, e o infinito é o máximo de compreensões. Que cada um veja de um jeito.

E a história de que tu é a desgraça das rodinhas de violão?

É verdade, mas eu aprendi que eu sou bom em tirar as músicas enquanto toco. É uma habilidade que eu não sabia que tinha e estou começando a exercer.Tem funcionado em algumas, em outras eu pago mico. As letras também, eu lembro de algumas, mas não sou virtuoso.

O Los Hermanos acompanhou teu fascínio cada vez maior pela música brasileira. O que tem nela que te encanta?

Não sei, cara, mas tem alguma coisa. Acho que é a maneira que ela faz a mistura de harmonia com melodia e com ritmo. Mas pega Claudinho e Buchecha, MC Leozinho, tem algumas coisas que são tipicamente brasileiras e que ao mesmo tempo se aproximam de um negócio… um amigo meu me falou uma coisa que eu achei lindo, que o Sean Kingson, sabe [canta pedaço de “Beautiful Girls”], é o Claudinho e Buchecha. Não é demais essa comparação? É a mesma onda, mesma cara, mesmo jeito, é lindo para caramba. Não sei se é a música brasileira, necessariamente. Eu adoro Claudinho e Buchecha, adoro Sean Kingson, mas acho que tem alguma coisa com o Brasil que é diferente mesmo.

A música para ti é uma coisa espiritual, expressa coisas tuas?

Não, não tenho um lado espiritual… mas talvez a minha espiritualidade esteja toda na música mesmo.Acho que a própria música é um tipo de explicação.

E de que maneira tocar resolve teus sentimentos? De alguma forma, o título sou reflete tu te voltando para a tua música?

Eu acho que é uma tentativa de me aproximar cada vez mais da música. O negócio de tocar com uma banda de rock, tocando alto, exige uma transformação. Exige que você saia do seu estado de espírito tranqüilo. Quem cobra uma música mais agitada deveria entrar na estrada e fazer 30 shows por mês com esse espírito para ver o preço que isso cobra, do ser humano ter que se transformar no porta-voz da alegria desmedida toda noite. A minha busca, até inconsciente, e me aproximar de mim, aproximar minha música de quem eu sou em casa, nos meus momentos mais relaxados, que é quando eu componho—na verdade, quando estou mais distraído de mim mesmo e em contato com o todo.Tentei aproximar a minha música disso para que o ritual de fazer um show seja compartilhado dessa sensação, e não da transformação. Esse é o momento em que eu estou agora.

É leviano interpretar o poema da capa como o momento que você vive sendo o oposto do que você vivia com o Los Hermanos?

Não, cara, o disco é um pouco sobre o poema. Nenhuma forma de interpretação sua seria leviana, fique à vontade para interpretar como você quiser. Mas o disco é sobre o poema, o Rodrigo é meu amigo, o disco é sobre as participações também, é sobre tudo que está acontecendo em torno dele. Não é o símbolo de uma outra coisa, é mais subjetivo do que isso. O poema me impulsionou a várias coisas, eu me voltei ao poema. O poema sugere um monte de coisas, e acho que o mais bonito é o movimento de rotação que ele sugere.

Tu cita o filósofo Albert Anton Wilson e a Lógica do Talvez como importantes nesse momento em que tu compôs sou. Ele diz que a crença é a morte do saber… não devemos acreditar em nada?

Hahaha. Não, quem me apresentou o Albert Anton Wilson foi o Nilsão, um amigo meu que não fala em inglês. Eu mostrei para ele um poema meu que dizia “repórteres trabalham em nome de ter certeza/ a certeza trabalha em nome de ter sentido/ só que sentido é só apontar para outra coisa/ e o outro, por sua vez, é o infinito/ se duas coisas dão as mãos,/ não precisa ser verdade/ só bonito”, que é uma parada de um outro filósofo que eu gosto, Emanuel Lévinas, que tem um conceito de alteridade, de que o outro é o infinito. Eu tinha ouvido na época que a percepção da outra pessoa sobre o mundo é o infinito. Aí o Nilson falou “pô, é totalmente Albert Anton Wilson”.Talvez esse negócio da crença que ele fala não seja a crença nos seus próprios mecanismos, não é a crença que você constrói. Muito pelo contrário, a própria Lógica do Talvez tem o exercício de usar a língua sem usar o verbo “ser”, e… até esqueci o que eu ia falar, mas tem muito da coisa de apontar a compreensão para um lugar maior do que a palavra.

Aproveitando que tu falou em repórteres, que jornalista tu pretendia ser na faculdade? Tu voltaria a estudar jornalismo hoje?

Eu fazia jornalismo para ser zineiro, cara, eu fazia muito zine. Acho que eu provavelmente estudaria outra coisa, já estudei de jornalismo o que me interessava estudar. Eu acho que o papel da universidade é em muita parte cumprido por ela, mas eu tenho dúvida com a idade que se faz a faculdade. Eu mesmo, com 18 anos, acho que foi meio cedo para estudar Marshal McLuhan [importante teórico da comunicação]. Eu não estava muito interessado, estava em outra. Os assuntos foram me interessar agora.Tira carteira, tem namorada, tem muita coisa do coração, da liberdade. O primeiro movimento de expansão para fora de casa. Uma pessoa que gosta de banda, na escola tem dois ou três amigos que também gostam. Na faculdade de comunicação, todo mundo gostava de música. A experiência que você leva de dentro de um campus é 80, 90% de experiências emocionais e afetivas, e 10% é conteúdo acadêmico. É a lei da gostosura, uma coisa é muito mais gostosa que a outra.

Mas o quanto tu achas que o jornalismo tem como se aproximar da arte de uma forma saudável?

Essa discussão é eterna, se a crítica tem um papel ou não. Tem frases históricas engraçadas de tudo que é lado. Como banda eu promovo uma coisa, mas como espectador consumo todas as coisas. Às vezes leio coisas ótimas, que me aguçam a curiosidade e me tomam a atenção pra algo que eu não tinha notado, ou um artista que eu não conhecia, através de associações ou de um elogio muito efusivo. O que eu acho é que com a internet fica cada vez mais claro, as pessoas vão saber ler isso melhor, todo mundo está se educando. Os bons escritores de críticas vão saltar aos olhos. Meu irmão, por exemplo, escreveu o release do disco, e é um crítico de arte impecável. Ele se aproxima do que está observando de um jeito que dá muito orgulho. Então é possível escrever um texto de arte interessante, legal. Assim como tem filmes incríveis sobre bandas, making ofs, jeitos bonitos de se observar uma coisa que vão sempre existir. O cara que senta e faz uma poesia sobre a parada. Agora, isso é talento, dedicação, trabalhar com o coração, não é pra qualquer um. Alguns têm, outros não têm. Outros têm o ego pequeno, precisam inflá-lo. Tem gente que só procura defeito, tem pra tudo que é gosto. Se todo mundo só elogiasse… acho que vai melhorar com o tempo. É difícil ser amparado como são os blogueiros, o cara escreve por que ama aquilo, ninguém tá pagando uma grana, não tem jabá. Eles têm senso ético com a informação.

Tu faz a música pensando em ti, e não num ouvinte final, e por isso as pessoas se identificam?

O ouvinte final sou eu também, não é que eu não pense. Eu penso para caralho no ouvinte, eu toco a música para me deliciar com ela. Não toco para me deliciar tocando, toco para me deliciar ouvindo. Não acredito que ninguém faça uma música comercial, para vender.Todo mundo tenta fazer o seu melhor…

A preocupação de o artista perder o que tinha para vender com a internet foi solucionada com iniciativas como o Sonora?

O artista tem muita coisa para vender, né, sua alma hahahaha. Não, tô brincando. O disco continua vendendo, eu não quero atrasar o progresso, acho que a gente tem que se lambuzar com a internet e aproveitá-la com sua máxima potencialidade, usar de todos os jeitos que pode usar, acelerar o processo de difusão e divulgação de imagem, som, filme. Vai depurando, melhorando, o consumo da informação melhora.

Foto: Camila Mazzini

E como foi a experiência de produzir o disco?

Foi bem tranqüilo, eu já tinha produzido o disco do meu tio Bebeto, tinha uma relação tranqüila com engenheiro de som e de gosto das coisas mesmo, de imaginar uma coisa e partir para gravar, essa parte prática também já não era muito difícil, de marcar um estúdio.

Tu fala bastante em respeitar a natureza das canções. Que tipo de coisas tu fez em momentos mais afoitos que não fez agora?

Talvez esse termo seja meio forte. Eu tentei fazer tudo com o mínimo de força possível. Usei toda a minha energia para resolver coisas práticas e deixei as coisas desse outro campo caminharem pela distração total. E foi bem fácil me guiar, tocava as músicas no violão e pensava “poxa, aqui podia ser assim”; não fiz força de raciocínio para transformar as músicas em algo melhor do que elas são.

As texturas que o Hurtmold imprimiu no disco resultaram diferentes do que tu esperaria?

Não, pelo contrário. Eu nunca tive uma expectativa da música, sempre tive essa percepção de deixar ela livre. Cada vez que você tocar com uma pessoa diferente, a música sai diferente, muda uma tecla do jogo que é a música.As experiências se somam, se acumulam, se expandem.

A melodia de “Janta” é especialmente bonita, como foi a parceria com a Mallu Magalhães? Ela vem tocar em Porto Alegre?

Não, a composição fui só eu, inclusive a parte em inglês.Acho que ela não vai tocar aí. Seria ótimo poder levá-la, mas ela tem uma carreira. Sou muito fã da Mallu, apostaria todas as fichas nela.

Tu tem muitas parcerias com meninas mais novas. O que isso traz para o teu trabalho?

Cara, agora vou cantar no DVD da Ivete. Acho esse negócio de idade meio confuso. Eu me sinto parado no tempo desde que nasci, acho que vou morrer no mesmo lugar que eu estou vendo as coisas. Eu encontro a Clara Sverner, que é uma senhora, encontro a Mallu e pra mim não há nada que nos separe. Não considero essa entidade com a qual nego negocia. Quando existe consonância de vontade, não tem nenhuma distinção para mim. Acho inclusive que eu sinto meu coração mais tocado pelos idosos e jovens, mais do que adultos. Mas essa parada de idade é maior caô.Você encontra cara de 10 que fala como um velho, e cara de 10 que fala como um senhor de 80, bondoso, paciente. Uma pessoa em começo de carreira oferece uma visão distinta da sua, coloca você em outra perspectiva, mas o ponto chave, a luz interior que a pessoa já está ali e vai brilhar assim para sempre.

Saquem o Camelo brincando com a revista:

Sobre a seção

Era uma vez é a seção que resgata matérias publicadas em edições passadas da NOIZE, as atualiza, na medida do possível, e publica o resultado no site para quem ainda não leu e para que quer reler.

NOIZE #31 está na web!

março 11, 2010 by Fernando Corrêa  
Filed under News, destaque

Está no ar a NOIZE #31. A primeira edição de 2010 abre o ano com projeto gráfico renovado e inaugura seções que só vêm completar e diversificar ainda mais o conteúdo musical da revista de música gratuita do Brasil. O conteúdo, aliás, continua primando pelo bom e pelo inovador de hoje, amanhã e sempre.

Nesta edição: entrevistas com a galera que ajudou a colocar Is This It, dos Strokes, no mundo; matéria animal dissecando a cultura faça você mesmo dos zines musicais e seu pioneirismo como mídia democrática; um bate-papo com James LaBrie, do Dream Theater, que passa pelo Brasil em março; entrevistas e fotos com o baiano Lucas Santtana, dono de um dos melhores discos nacionais de 2009, e com os gaúchos barulhentos da Walverdes. E o melhor: a revista está aí embaixo, só não lê e vê quem não quer.

As seções novas são atrativos à parte: além do Move That Jukebox, que já nos acompanha desde 2009, mais três blogs passaram a ter páginas exclusivas dentro da NOIZE: rraurl, Scream & Yell e Fora do Eixo. São mais três universos que enriquecem a revista e nos deixam honrados pela sua parceria

Nossa seção de News também foi atualizada para uma nova abordagem, muito mais interessante e “bloguística”, e o novo projeto gráfico deixou a leitura muito mais prazerosa.

Passe a informação adiante: http://bit.ly/noize31

Quer baixar a revista? Vai aqui: http://sharesend.com/bow70

Até o fim da semana, a edição impressa está nas ruas – mas se fôssemos você, não deixaríamos pra depois.

Lucas Santtana

março 11, 2010 by Fernando Corrêa  
Filed under Na Íntegra, destaque

Entrevistas completas, sessões de fotos completas, áudios, vídeos, depoimentos dos repórteres e fotógrafos… Enfim, tudo que a gente quis muito colocar na revista impressa e não teve como vem NA ÍNTEGRA para o site da NOIZE.

Essa semana, Lucas Santanna: as fotos que não entraram na revista e a entrevista completa com o cantor, que apareceu na NOIZE

Sem nostalgia nem contradição, o baiano-quase-carioca-com-pé-em-recife Lucas Santtana chega aos 10 anos de carreira como sempre fez: olhando para trás ao seguir em frente. Seu último álbum, Sem Nostalgia, desconstrói um dos maiores ícones da música brasileira – a voz e o violão – a partir de samples de Baden Powell, Caymmi e Jorge Ben e canções. Belas canções.

Dono de uma das mais importantes discografias da recente música brasileira, Lucas conta a NOIZE como insetos e ficar brincando com equalizador ao ouvir João Gilberto podem influenciar um disco e fala também daquilo que o circunda: a internet, sua geração e, sim, a música brasileira.

Queria que você começasse falando como foi seu primeiro contato com música e quando você começou a ter vontade de fazer música?

Meu pai trabalhou em gravadora por muitos anos e minha mãe trabalhava com dança. Tem a ver com música, mas indiretamente. Com 13 anos foi quando eu descobri a música: minha mãe me levou aos primeiros shows e tal. Perto do trabalho dela tinha um cara que passava vendendo vinil e ela sempre comprava para mim discos de jazz, de música clássica, de música popular. Eu pirava com aqueles discos, ficava ouvindo o dia todo, foi nesse momento que acabei me apaixonando por música mesmo.

Com 13 anos também meu pai me deu uma flauta doce, depois uma transversal e eu comecei a estudar música. Aí, com 18, eu já estava trabalhando com música, tocando flauta. Fui fazer faculdade na Escola de Música da Universidade, que eu abandonei para tocar com o Gil. Aí ele me chamou para tocar no “Unplugged” (disco de 94), aí fiquei três anos tocando com ele. Nesse tempo eu comecei a compor e sai da banda para gravar o primeiro disco (“Eletro Bem Dodo”, lançado em 2000 pela Natasha Records/Universal).

Como que surgiu a ideia do “Sem Nostalgia”? Ou melhor, o que surgiu primeiro, a ideia do disco ou as faixas em si?

A ideia, na real, se divide em duas.

A primeira ideia que eu tive, na verdade, não era um disco. Foi quando em 94 eu fui tocar com os Doces Bárbaros, em Londres, num show no Royal Albert Hall. Atrás do Royal Albert tem o Museu de História Natural de Londres e uma das salas, a sala dos insetos, que era toda feita para criança, tinha umas máquinas como se fossem displays em que você botava o fone, visualizava os insetos e ao clicar neles, ia ouvindo os sons que eles faziam, descobria de que país eles eram. Quando eu ouvi aquilo, pensei que tinha tudo a ver com sintetizadores, porque era “de mentira”, sabe? Tinha a ver com música eletrônica e o lance da ambiência, como aqueles sons se misturavam ao ambiente e tal. Aí eu pensei que, “porra, podia usar os insetos como instrumentos, como ambiência”.

Daí passou um tempo, quando eu tava em São Paulo na casa de um amigo ouvindo um disco do João Gilberto, eu comecei a aumentar os graves, mexer nas freqüências das caixas de som. Quando puxava o “gravão” do disco, o baixo do violão mudava muito, sabe? Então eu pensei que poderia fazer um disco “voz e violão” que mexesse com essa parada da tradição, que eu pudesse avançar e me divertir com isso de várias formas. Aí eu decidi: “porra, quero fazer um disco voz e violão”. E fiquei com isso na cabeça por muitos anos.

Finalmente em 2008, “tá na hora, vou fazer esse disco porque ta há muito tempo na minha cabeça”. Precisava dar uma esvaziada, poder pensar em outras coisas, sabe? Aí eu comecei a compor o disco e pensar de que maneira eu poderia fugir do esquema de dois canais, só voz e violão. Começou a surgir essa ideia dos samples, comecei a samplear vários discos do Caymmi, do Baden, só os trechos com os caras tocando violão. Comecei a sacar que eu poderia fazer uma faixa no Jardim Botânico, de noite, e pegar o ambiente. Comecei então a ter várias ideias de como extrapolar aquilo, como fazer o “voz e violão” soar diferente.

Como foram as gravações? Você trabalhou com vários produtores diferentes e com vários músicos diferentes. Lendo a ficha técnica, eu fiquei até meio assustado, vendo que você colocou dois bateristas fodas, como o Curumin e o Marcelo Callado (Do Amor e banda Cê, do Caetano), para tocar bateria no violão. Como foi escolher cada músico e produtor para cada faixa?

Quando eu pensei no disco, eu chamei vários produtores e vários músicos, porque eu pensava que como era um disco que já tinha uma amarração, só podia ser voz e violão, quanto mais gente eu chamar para produzir junto comigo, gravar em estúdios diferentes, mais vai enriquecer uma coisa que é uma só, voz e violão. E daí eu comecei a chamar a galera que eu já trampo há algum tempo. Como o Curumin, que eu já tinha feito faixa do disco dele, o João Brasil que já tinha feito coisa junto, o Chico Neves, o Do Amor, que já tocavam comigo. Daí cada faixa eu fui chamando quem tinha a ver. Uma faixa que era samba-rock como “Um Amor Em Jacumã”, então eu chamava alguém com uma pegada samba-rock legal, como o Curumin. No “Who Can Say Which Way”, que era uma parada meio rock, chamava o Do Amor, que é uma banda rock, mas não é tão rock assim. No “Recado A Pio Lobato”, eu gravei a faixa toda com o Régis (Damasceno, guitarrista do Cidadão Instigado e faz-tudo do Mr. Spaceman) e joguei todo resto na mão do Rica Amabis, que é um cara que saca muito de plugins e tal. Enfim, eu chamava quem tinha a ver com a faixa, que pudesse catalisar o que a faixa estava pedindo.

Qual é sua relação com o violão em si, como instrumento?

A primeira referência é a de ouvir mesmo. Ouvi muito João Gilberto quando era adolescente, ouvi disco do Caymmi voz e violão de 59 (“Caymmi e Seu Violão”, EMI/Odeon), que é clássico, ouvi discos do João Bosco, do Jorge Ben. A segunda relação foi com o próprio instrumento, quando comecei a compor em quarto de hotel, quando ainda tocava com Gil, o violão era tipo meu companheiro, sabe? Foi ali que eu comecei a compor, que eu aprendi a fazer música. A terceira, então, eu posso dizer que foi fazendo o disco, que foi essa história de desconstruir essas duas referências que eu tinha.

Esses seus 10 anos de carreira foram os 10 anos que a indústria fonográfica ruiu. Mesmo sendo um artista muito bem adaptado a internet, você às vezes sente algo que, talvez não seja nostalgia, mas talvez uma vontade de ter vivido numa outra época? Você acha que teria sido mais fácil ter aparecido como artista em outros anos?

Não, eu realmente sou um cara que não tem essa parada nostálgica, sabe? Eu acho que a época que a gente está vivendo é a época mais legal, mais democrática. É uma época, sim, muito difícil, porque todo mundo faz música, a concorrência é grande.

Tem um lado muito legal que é esse de eu e toda essa galera da minha geração estar se inventando. A gente não está só fazendo música, a gente tá inventando um jeito de fazer música, um jeito de viver de música, um jeito de empreender música. Não é que a gente não tenha gravadora, a gente nunca teve. Nunca teve gravadora, nunca teve jabá pra tocar em rádio. Então, a internet vira nossa única aliada.

Por exemplo, em Recife, depois do show no Rec Beat, eu saí na rua e uma um monte de gente veio me parar para dizer “pô, eu tenho um blog, coloquei teu disco para baixar lá”, sabe? Então, é muito boa essa coisa do boca-a-boca, do blog, de colocar aquele disco para 100 amigos seus que acessam aquilo lá. E pensar que isso é multiplicado por milhares de blogs.

Acho muito legal viver esse tempo em que a gente está vivendo, mas não só isso, acho legal pensar sobre ele, não só do ponto de vista artístico, mas do ponto de vista do negócio da música mesmo.

Falando em relação a essa história de blogs, de repercussão na internet, como é para você essa ideia de ser meio que descoberto ou redescoberto a cada disco? Você já falou em outras entrevistas que muita gente acha que o “Sem Nostalgia” ou “3 Sessions In A Greenhouse” são seus primeiros discos.

Cara, isso é bem um sintoma do que eu estava falando. O “3 Sessions…” foi o primeiro disco que eu disponibilizei de graça na rede, então para uma galera que é aquela que chega nos discos através da internet, através dos sites para baixar, é mais fácil chegar nele ou no “Sem Nostalgia”. Eu sei que os outros dois existem nos sites para baixar, mas não da maneira que eu coloquei, com a possibilidade da galera remixar e tal.

É louco isso. Acontece muito de eu chegar nos lugares e ver uma galera conversando e numa hora alguém falando de música, fala desses discos, conhece esses discos, mas não me conhece. Conhece o som, mas não conhece o Lucas. É muito louco isso de na internet às vezes o som chegar antes da imagem.

De uns 3, 4 anos para cá, de certa forma dá para falar que estamos vivendo uma espécie de renascimento da “canção brasileira”, algo que tem tanto a ver com a tropicália, a bossa nova e com Roberto e jovem guarda, algo que seria talvez o que hoje o Marcelo Jeneci, o Romulo Fróes e vários outros fazem. Essa história de haver um tipo de canção é especialmente brasileira, algo que não é exatamente samba, não é bossa nova, mas você nunca vai ouvir um americano fazendo, por exemplo. Como você vê o “Sem Nostalgia” no meio dessa ideia, sendo ele um disco que, de certa forma, tenta descontruir e reconstruir essas canções?

O “Sem Nostalgia” é um disco muito de canção, apesar dos experimentalismos que tem. E são canções bem brasileiras, mesmo que algumas sejam cantadas em inglês. Eu acho que realmente essa coisa da canção está voltando, porque essa coisa de groove, de você soltar uma batida e construir uma música em cima dela cansou um pouco, ficou nos anos 90. E a coisa da canção que se defende sozinha, independente de ter uma sonoridade atrás, isso voltou. E ao mesmo tempo, na minha geração, gente como o Curumin, a Céu, tem muito essa história das texturas musicais, que é o meu barato. Apesar de fazermos canções, temos uma preocupação muito grande para que na hora que aquelas canções forem gravadas, que aquilo não seja feito num arranjo tradicionalista. Ao contrário, a gente vai tentar colocar um arranjo com maior número de timbragens possível, para que aquilo seja tão interessante quanto a canção. Eu canso de ouvir canções bonitas, mas que quando são gravadas, isso é feito de uma maneira tão careta que a canção fica feia, que me fazem perder o interesse. Então, se não tiver som abraçando a canção, é uma coisa que eu não curto tanto. Tanto é que eu acho a MPB hoje uma coisa muito careta, na sonoridade.

De uns três, quatro anos pra cá, vem aparecendo com mais força no Brasil uma geração de artistas incríveis, tanto compositores, produtores, instrumentistas…

Sim, tanto é que você falou do (Marcelo) Jeneci, que eu pude acompanhar um ensaio umas semanas atrás, porque o Régis Damasceno que toca comigo, toca com ele também. Eu vi o ensaio e falei para ele “cara, parabéns, essas canções são lindas!” e ele: “valeu, agora eu estou trabalhando para fazer o som delas”, que é bem isso que estava falando. Não importa só ter canção bonita, tem que chegar com um som próprio, isso é muito importante para essa geração. A coisa do autoral não está ligado só a canção, ao jeito de fazer melodia, ao que você diz na letra, mas também ao tipo de som que você vai chegar. Se você chega com uma canção bonita, mas com um som parecido com o do Romulo Fróes, você vai ser o “sub-Romulo”, entendeu? Todo mundo está preocupado em chegar com um som próprio, não é só a canção.

Apesar de guardarem semelhanças, seus quatro discos têm ideias completamente diferentes. O que você acha que seria então seu som? O que te define?

Meu som sempre foi textura musical. Canção com textura musical. Desde o primeiro disco meu barato sempre foi achar sonoridade, sabe? Achar sonoridade do instrumento, achar sonoridade da guitarra, do baixo e achar principalmente a sonoridade da faixa, que é tudo isso junto, que se forma e dá vida a um som só. Em todos os discos, se você ouvir, essa ideia é bem presente. Se você tirar a voz, o som que tem atrás é muito uma coisa de tapeçaria musical, de culinária, pode chamar do que você quiser. É muito uma ideia de ir temperando até a faixa ter um sabor próprio.

De onde veio o título do álbum?

Na verdade eu estava sem título, aí conversando com um amigo meu, o Bruno Natal (jornalista, editor do URBe), ele falou “nunca mais tiveram discos em que os títulos foram tirados de um pedaço da letra da canção”. Nem sei se isso é verdade, mas quando ele falou isso, eu que tava doidão, “porra, vou fazer isso”. Aí eu peguei as letras do disco e parei na canção “Cá Pra Nós”, que diz “Sem ilusão / sem nostalgia / só o querer que acende”. Aí eu achei que essa frase tinha tudo a ver, porque “sem ilusão” é uma característica muito da minha geração, em que o foco foi sempre na música, nunca no glamour, ninguém acha que vai estourar. Tinha tudo a ver com o que o disco queria ser.

Você acha que o título “Sem Nostalgia” talvez seja um resumo de como você conduz sua carreira?

É um resumo no sentido de que eu nunca quis muito reproduzir a música popular que veio antes de mim. E quando eu falo isso, não quer dizer que eu não goste, porque no “Sem Nostalgia” tem samples do Jorge Ben, do Caymmi, do Baden, do Gil, eu gosto muito de tudo isso, mas nunca achei que teria sentido se eu fosse fazer “uma nova MPB”, sabe? Sempre achei essa ideia muito caída, tentar fazer o que já foi feito. Sempre achei que era mais arriscado e e me daria mais tesão se eu fosse fazer coisas que nunca foram feitas.

Como surgiu a ideia de fazer o Trio Ghettotech?

Rolou um edital do governo da Bahia que iria apoiar 10 trios independentes, sem cordão de isolamento, para o folião mesmo na rua. Aí eu pensei que tinha tudo a ver fazer um trio Ghettotech lá, porque a cidade (Salvador) tem muita influência de música negra, seja do Caribe, seja da América do Sul, dos EUA, da Jamaica. Aí chamei o Chico Dub e o Pedro Sieler (DJs da festa carioca Dancing Cheetah) com que eu toco aqui no Rio, só que eles não iam poder. Aí eu chamei o El Roque, que é de um soundsystem lá de Brasília, o Confronto, um amigão meu que toca esse tipo de som também. Então fui com essa ideia de levar soca digital (ritmo dançante de Trinidad e Tobago), esses de estilos de Global Ghettotech para lá. E foi do caralho porque o povão na rua na entendeu. Entendia no corpo, né? Quando rolaram as músicas, a galera entedia na hora, dançava para caralho. E fez muito sentido, porque todos esses estilos de Global Ghettotech que rolam, por exemplo a cumbia na Argetina, o dancehall na Jamaica, a soca em Trinidad e Tobago, em todos esses lugares as músicas são produzidas para sistema de som, para caixa, e o trio elétrico nada mais é que um soundsystem ambulante. Foi perfeito o casamento da parada!

Você pretende fazer mais vezes ou em outros lugares?

Ano que vem eu estou pensando em fazer de novo lá, porque deu muito certo.

Você já sabe o que quer fazer num próximo disco?

Não. Tem várias ideias, mas o “Sem Nostalgia” tem tão pouco tempo, nem um ano. Eu até tenho muita vontade de fazer outro disco, mas vou segurar, amadurecer as ideias.

O restante da sessão de fotos com Lucas Santtana pode ser conferido no Flickr da NOIZE: http://www.flickr.com/photos/revistanoize/sets/72157623593684880/

As fotos são de Pedro Cupertino

O texto é de Livio Vilela

Maurel & Sonny Wilson

março 10, 2010 by Fernando Corrêa  
Filed under Você Nunca Ouviu

Maurel e seu dog uivante Sonny Wilson, da praia da Ferrugem, SC.

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