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5 listening bars do Japão que valorizam a mídia física, do vinil à fita cassete


Por:

Julia Harumi Morita

Fotos: Julia Harumi; @_yas2u9, Guinza Music Bar (Divulgação)

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Pode não parecer, mas a cultura dos listening bars completa 100 anos em 2026. Tudo começou no lendário Cafe Lion, em 1926 — nós contamos essa história com detalhes aqui. Desde então, o fenômeno japonês teve uma expansão consistente desde 2010, trazendo releituras diversas em capitais ao redor do mundo.

Minha família ainda morava no Japão, com chances de uma parte estar em Tóquio, quando o Cafe Lion foi inaugurado. Um século depois, sem planejar, viajei para Tóquio pela primeira vez e aproveitei para visitar cinco listening bars e cafés. Queria ver de perto como a nova leva de salas de audição se adaptou aos novos tempos. O que posso adiantar é que o Japão ainda tem um reduto forte para a mídia física em épocas de consumo acelerado e plataformas de streaming — e que conheci lugares realmente legais e muito diferentes entre si. Veja só:

Casse

Em uma tarde quentíssima de verão em Shibuya, entrei no Casse, um café tematizado de fitas cassete. O sol iluminava o ambiente decorado com móveis retrô através de uma grande vidraça, que dava uma vista muito agradável da rua, para os clientes olharem enquanto escutavam música. O consumo de bebida era obrigatório, junto com uma taxa de serviço.

Pedi um Ginger Ale e uma fatia de bolo que vinha dentro de uma embalagem simulando uma fita cassete. Também fui obrigada a assistir a um vídeo de como manusear as fitas e o tocador sem danificá-los. 

Ao fim do tutorial, a funcionária me entregou uma ecobag com um tocador de fitas, um fone de ouvido característico dos 1990, com arco fininho e espuma laranja nas laterais, e um manual de instruções em diversas línguas, para garantir a preservação dos dispositivos. O acervo tinha cerca de 150 fitas, divididas em três seções: músicas internacionais, k-pop/música asiática e música japonesa. Escutei (What's the Story) Morning Glory? (1995), do Oasis, olhando a rua ensolarada.

Os fones não tinham isolamento acústico, mas o ambiente estava silencioso, com apenas duas jovens adultas sentadas em um sofá a poucos metros de mim que, vez ou outra, trocavam algumas palavras.

O Casse abriu em dezembro de 2025 e, segundo Izumi (a barista que me atendeu), muitos estabelecimentos neste estilo que abriram recentemente em Tóquio, especialmente em Shibuya, buscam incorporar tendências populares na Coreia. 

Recoco 

Saí do Casse e só atravessei a rua para chegar no Recoco, um dos queridinhos dos criadores de conteúdo. A dinâmica de atendimento é parecida: fazer o pedido; assistir a um vídeo de instruções (este vinha com um aviso: se o cliente não prestar atenção, ele será reproduzido novamente do início) e sentar na mesa com um manual de uso para consulta. 

Só que, no lugar das fitas, eles disponibilizam discos de vinil. As mesas eram equipadas com uma vitrola individual e dois headphones com isolamento acústico.

Metade café, metade bar, o Recoco tem dois ambientes: o andar de entrada era parecido com a do Casse, com um salão iluminado, uma parede com LPs expostos e um balcão, onde os pedidos são preparados. 

Eu já estava escolhendo minha mesa quando a atendente perguntou (com muito esforço e poucas palavras em inglês) se eu não queria ficar no salão debaixo. Eu aceitei e desci as escadas laterais, entrando em um ambiente totalmente fechado com iluminação indireta e móveis de madeira escura, que lembravam um escritório antigo. Uma estante com pelo menos 300 álbuns trazia uma curadoria pop mais genérica: tinha Michael Jackson, Lana Del Rey, Perry Como, a trilha sonora de Pulp Fiction (1994). 

Escolhi o recém-lançado disco da Olivia Rodrigo, you seem pretty sad for a girl so in love (2026), que foi idealizado para ser um disco de vinil. O lado A contém as músicas com a temática “girl so in love” e o lado B, “you seem pretty sad”. Tomei uma cerveja e comi uma porção de azeitonas trufadas ouvindo Olivia entoar os versos mais maduros de sua carreira. 

Ao meu redor, ninguém aparentava ter mais de 30 anos e os pares conversavam discretamente, mantendo um ar de quietude mesmo quando meus fones estavam em altíssimo volume, inibindo minha vontade de dançar e cantar em voz alta. É como escutar música no metrô numa sexta-feira depois do fim do expediente. 

Bar Record Ginza 

A rota musical continuou de noite, no bairro de Ginza, em um pequeno bar localizado em um prédio. O letreiro neon do lado de fora anunciava que não havia taxa de serviço nem consumação mínima. Acima, brilhava a frase: “Wanna get drunk with music or a bitch?” (a mesma frase estava na parede de dentro do bar, trocando “bitch” por “fuck boy”). A sala era estreita e escura, com algumas luminárias de teto e espaço para no máximo quinze pessoas sentadas. 

Me acomodei em uma das banquetas, fiz meu pedido e, como se o bar soubesse que eu estava entrando ali, o jazz que estava tocando nas caixas de som de madeira, embutidas na prateleira de LPs que revestia a parede atrás do balcão, foi substituído por “Trem Azul”, do disco Clube da Esquina (1972). 

Olhei rapidamente para o pedestal que mostrava o disco e ali estava a clássica fotografia dos dois meninos sentados em um chão de terra. “Coisas que ficaram muito tempo por dizer / Na canção do vento não se cansam de voar” ecoava entre as conversas dos outros ouvintes, que não estavam preocupados com o volume da própria voz. 

Quebrei meu disfarce como local e contei ao curador de discos que era brasileira. Com dificuldade, ele respondeu que os japoneses gostam muito de bossa nova. A conversa ficou suspensa no ar conforme ele se dividia entre colocar o próximo álbum na vitrola, atender pedidos e acomodar novos clientes. Eu ainda tinha mais perguntas a fazer e estava tentando achar uma brecha para chamar sua atenção. 

A estranha interação foi retomada com ele me entregando um disco com capa branca e uma ilustração editorial vintage de uma mulher de chapéu e pernas à mostra tocando violão. Era a coletânea Spiced With Brazil Audio Speciality Series (1974), de Sonia Rosa e Yuji Ohno, com as faixas “Garô Ta De Ipanema”, “Atraz da Porta” e “Chove Lá Fora”.

Fiquei curiosa para escutar o LP completo, mas ali as coisas funcionam de outro jeito. O curador contratado pelo dono escolhia os discos sem um critério prévio e tocava apenas uma música de cada um, como uma playlist analógica. 

Ginza Music Bar 

Não muito longe dali, ficava o Ginza Music Bar, no quarto andar de um prédio comercial. Ocupando um salão com balcão, bancadas e mesas, o lugar me lembrou o Blue Note, na Avenida Paulista. Um ambiente moderno e intimista ideal para turistas que buscam uma experiência musical. Fui levada para uma mesa à luz de velas e banco de veludo azul.

Sem opção de escolher o assento, os clientes eram acomodados a menos de um metro uns dos outros. Os garçons serviam as bebidas e comidas, cujos cheiros preenchiam o ambiente tanto quanto a música. Aliás, o som estava alto e claro, mas as conversas, nas mais diversas línguas, também.

Mais uma vez como se a cidade estivesse acompanhando meu tour musical, me deparei com música brasileira tocando nas caixas de som. “Os Grilos (Crickets Sing For Ana Maria)”, de Marcos Valle, estava na vitrola. Dessa vez, a curadoria não era terceirizada e quem escolhia o que tocava era o dono. Um senhor de cabelos brancos reveza entre a vitrola, a mesa de som e a biblioteca com mais de três mil discos. Em cima do balcão, um aviso diz: “Desculpa, sem pedidos”.

Record Bar Yamada 

Vendo a cena de listening bars de Tóquio, fiquei curiosa para conhecer os ambientes de audição em outras regiões do país. Então, adicionei mais uma parada no meu roteiro: o Record Bar Yamada, em Kyoto. Um local discreto, que encontrei por acaso em uma rua escura perto do hotel no qual estava hospedada. Eu e minha irmã éramos as únicas clientes, então conseguimos escutar a música em completo silêncio. A DJ, vestida de kimono, carregava uma mala de discos e pulava de gênero musical a cada faixa. 

O único atendente, Kazu, disse que o bar foi inaugurado há um ano e atrai mais a atenção de turistas europeus e norte-americanos pela localização. Ele ficou interessado na minha pesquisa local e ficou surpreso ao descobrir que os listening bars japoneses inspiraram estabelecimentos do outro lado do mundo. 

“Os bares de audição japoneses têm uma história rica”, escreveu Kazu em um aplicativo de tradução. “Aqui você encontrará frequentadores de longa data que testemunharam a história dos bares de discos. Dizem que a cultura de ouvir música soul e funk em bares dedicados a essa experiência — em vez de casas noturnas — surgiu na região de Kansai e em Tóquio, lá atrás". 

Minha irmã, que tem mais conhecimento de música asiática do que eu, mencionou que gostava de J-rock, particularmente do cantor Fujii Kaze. Animado, Kazu foi até o acervo e trouxe o álbum HELP EVER HURT NEVER (2020), o debut do artista. Os dois trocaram suas impressões sobre as obras e eu observava atentamente o local.

Parecia um bar comum com decoração urbana e jovial, com cartazes e adesivos colados nas paredes, cardápios presos em pranchetas e uma vitrola vermelha brilhante. Kazu lamentou quando dissemos que não conseguimos ficar muito tempo ali, por ter que voltar ao nosso itinerário turístico em família, mas fez questão de nos convidar para visitar o bar mais uma vez antes de voltarmos ao Brasil.

A escuta atenta como diferencial

Estes cinco bares e cafés de audição deixam nítido que a devoção total à escuta e à reprodução dos álbuns na íntegra não é mais uma característica essencial dos listening bars e se tornou uma particularidade dos ongaku kissa tradicionais. A estética intimista e nostálgica parece quase mandatória, mas ainda assim, não comoditizada (talvez os avisos para evitar tirar fotos de funcionários e clientes sem permissão ajudem a preservar o espaço para quem quer ouvir música e não apenas postar fotos com discos nas redes sociais). 

A recepção atenciosa é a característica mais conservada. Os atendentes não buscavam apenas oferecer o melhor serviço e realmente estavam interessados em conversar sobre música. A sensação é que os salões de audição continuam sendo locais de troca cultural, agora com espaço para estas trocas serem verbalizadas durante a reprodução das faixas.

Em 100 anos de existência, a cultura dos listening bars foi passada de geração em geração sem se tornar obsoleta. Seu público principal ainda é formado por jovens que valorizam a experiência de escutar música coletivamente, mesmo que uma faixa por disco. 

As plataformas de streaming possuem catálogos praticamente inesgotáveis, mas não substituem a curadoria humana, um sistema hi-fi cuidadosamente adaptado às faixas reproduzidas ou o sentimento de pertencimento proporcionado pelo ato de escutar música ao lado de outras pessoas interessadas nos mesmos gêneros e artistas. Dentro e fora do Japão, os novos ongaku kissa acrescentam camadas a essa cultura, fazendo uma tradição centenária continuar viva ao encontrar novas formas de praticá-la.

Por:

Julia Harumi Morita

Fotos: Julia Harumi; @_yas2u9, Guinza Music Bar (Divulgação)

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