
O mercado de séries voltadas ao público adolescente está aquecido, revisitando experiências universais — ou, às vezes, nem tanto. De romances que nascem de uma amizade a verdadeiros thrillers de suspense, passando pela sempre temida mudança de escola, produções como Off Campus, Ellen: Legalmente Loira e a brasileira Amor da Minha Vida têm conquistado diferentes gerações de espectadores.
Aí está a beleza das trilhas sonoras dessas produções contemporâneas: além de ajudar a construir personagens, a música também pode devolver antigos hits à cena e apresentá-los a uma nova geração. É o que acontece com algumas das séries adolescentes que vêm ganhando espaço nos últimos tempos.
Nesta lista, mergulhamos nas trilhas de algumas dessas produções para entender os estilos, artistas e músicas que ajudam a dar tom a esses sucessos. E há um detalhe interessante: algumas delas se passam nos anos 1980 ou 1990, o que acrescenta uma camada extra de nostalgia à seleção musical. Confira.
Amor da Minha Vida (2024/2026)
A representante brasileira da lista, Amor da Minha Vida, vai ganhar uma nova temporada em outubro. A série acompanha Bia (Bruna Marquezine) e Victor (Sérgio Malheiros), melhores amigos que atravessam relacionamentos, desilusões e outras experiências enquanto a relação entre os dois se transforma.
Na primeira temporada, a trilha musical trouxe nomes como Pabllo Vittar, Péricles e Bemti. As músicas abraçam os personagens e, como nas outras produções citadas, passam a fazer parte ativa da série. A canção “Amor Maior”, de Jota Quest, sucesso nos anos 2000, é usada com destaque em uma cena sensual e engraçada entre os protagonistas.
No último episódio da série, na cena final, “Please Be Patient With Me”, de Wilco, lançada em 2007, embala a passagem em que Bruna Marquezine dá um show de atuação ao chorar por cerca de quatro minutos seguidos, sem cortes. A escolha é certeira: a música é melancólica tanto na letra quanto na melodia. A canção traduz, de forma nítida, a trajetória de Bia, com a voz de Jeff Tweedy embalando o sofrimento da protagonista no momento em que tudo parece dar errado e estar fora do tom.
Além dessas obras, a primeira temporada tem 13 faixas originais. O destaque fica para “Balada de Fausto e Silvio”, interpretada pela própria Bruna. Na ficção, a música é uma composição da protagonista sobre sua história com Victor. Meio falada, meio brincalhona, a música consegue emocionar justamente por parecer nascer da intimidade do casal.
Mas também há novidades na trilha. Em agosto de 2026, foi lançada “Pode Ser”, composta por Lucas Silveira, da banda Fresno, e Matheus Souza, e interpretada por Ludmilla. Criada exclusivamente para a segunda temporada, a faixa mantém essa relação entre som e narrativa: a canção foi pensada para acompanhar o novo momento vivido pelos personagens e amplia, para fora das cenas, o universo musical construído pela série.
O trailer da temporada que chega em outubro e tem como fundo a música “Idiota”, de Jão. Apesar de ser um lançamento de 2021, a letra casa perfeitamente com o que conhecemos da narrativa até agora e, também, com o que o trailer promete.
Elle: Legalmente Loira (2026)
Prelúdio de Legalmente Loira (2001), a série Elle: Legalmente Loira, dirigida por Jason Moore, volta a 1995 para acompanhar Elle Woods (Lexi Minetree) durante a adolescência. Antes de Harvard, a personagem deixa Bel-Air e se muda para Seattle, onde precisa lidar com um ambiente completamente diferente daquele que conhecia. A trilha musical acompanha esse deslocamento, explorando os sons que marcaram a década e o contraste entre os dois mundos.
Essa mudança aparece já no primeiro episódio. A história começa com “Fantasy”, de Mariah Carey, durante a festa de 16 anos de Elle, traduzindo o universo pop, colorido e otimista da personagem. No fim do episódio, porém, “Creep”, do Radiohead, assume a cena e estabelece uma atmosfera completamente diferente. Entre uma música e outra, a trilha acompanha a transformação de Elle e o choque com a cena grunge da cidade.
Ao longo da temporada, nomes como The Cranberries, Pearl Jam, L7, Queen e Tori Amos dividem espaço com sucessos como “Walking on Broken Glass”, de Annie Lennox, e “Roam”, do The B-52’s. “Only Happy When It Rains”, do Garbage, lançada em 1995, também se torna tema da série e resume a mistura entre melancolia e otimismo que atravessa a protagonista. O score original de Elle: Legalmente Loira, composto por Tom Howe, ajuda a construir essa atmosfera adolescente.
Estilhaços (2026)
Outra série que traz uma carga de nostalgia: ambientada em Los Angeles na década de 1980, Estilhaços, dirigida por Ryan Murphy, acompanha um grupo de amigos enquanto a cidade é atravessada pela presença de um serial killer, que transforma a atmosfera de liberdade em um cenário também marcado pelo medo e pela desconfiança.
A trilha musical segue esse clima e se organiza em três frentes: os grandes sucessos da década, as composições originais de Troye Sivan, algumas delas em parceria com outros artistas, e o score instrumental de David Klotz e Morgan Kibby. Apesar das produções contemporâneas, toda a trilha recupera as sonoridades características dos anos 1980, equilibrando a libertação e a sensualidade da época com o mistério e o medo que atravessam a história.
Essa mistura aparece em grandes clássicos da década de 80, como “Don’t Stand So Close to Me”, do The Police, banda britânica que ajudou a definir o rock da década a partir de influências do pós-punk e do jazz. E também em canções de Peter Gabriel, New Order e Lionel Richie, entre outros.
Mais do que funcionar como ambientação, as músicas são incorporadas organicamente às cenas. No primeiro episódio, “Bad Boys Get Spanked”, do The Pretenders, acompanha um racha entre o protagonista, Bret (Igby Rigney), e o recém-chegado estudante Robert (Homer Gere). O som dos pneus é sincronizado com a música e com os cortes da sequência, fazendo da faixa parte efetiva da construção da cena.
As composições originais também entram nesse jogo ao recriarem, sob uma perspectiva contemporânea, a atmosfera musical dos anos 1980. “LA Wants Me Dead”, assinada por Troye Sivan, é um dos destaques: a faixa combina uma batida quase brincalhona, sintetizadores marcantes e vocais provocantes para traduzir as contradições de viver em Los Angeles naquele período. Entre referências nostálgicas e criações próprias, a trilha encontra uma identidade sonora capaz de transitar entre a euforia e a tensão.
Off Campus: Amores Improváveis (2026)
A trilha musical da série Off Campus é outro exemplo da retomada de clássicos como “The Bitch Is Back”, de Elton John (1974), “Cherry Pie”, de Warrant (1990), e “Baby Now That I’ve Found You”, do The Foundations (1967). A série, dirigida por Silver Tree e Sam Bailey, acompanha, na primeira temporada, Hannah (Ella Bright) e Graham (Belmont Cameli), casal protagonista que, em meio a desafios pessoais, acaba se apaixonando.
Na trama, Hannah é compositora e cantora, o que dá à série uma forte ênfase na música. A trilha, além de passear por grandes clássicos, também explora artistas contemporâneos como The Beaches, The Kid LAROI e sombr, além de contar com uma vasta composição original. A música “Girl That I Am”, composta exclusivamente para a série e apresentada no último episódio, funciona como um panorama dramático da jornada da protagonista.
Não por acaso, mesmo depois do lançamento da série, as regravações da trilha continuam. Suki Waterhouse lançou sua própria versão de “Girl That I Am”, com um arranjo menos pop, mais indie e suave, e convidou Ella Bright para interpretar a música em um show, em agosto desse ano.
Além disso, “Baby Now That I’ve Found You”, música-tema do casal protagonista, ganhou uma nova versão com Ella e Niall Horan, cantor e ex-integrante do One Direction. Depois de muitos pedidos do público, Ella também lançou gravações, com novos arranjos, de alguns dos clássicos que permeiam a série, como “The Bitch Is Back”.
A Blood Records anunciou, inclusive, o lançamento de um vinil de sete polegadas com as regravações de Ella das canções “The Bitch Is Back” e “Cherry Pie”. O disco chega em 6 de novembro, mas as vendas já estão esgotadas.
A trilha musical de Off Campus transita entre o rock, o pop e o indie, criando uma atmosfera divertida e bastante nostálgica. Em Off Campus, a trilha, definitivamente, ultrapassou os limites da própria narrativa: tornou-se parte da experiência dos fãs, que passaram a consumir, pedir e ressignificar essas músicas para além das cenas apresentadas.
Sterling Point (2026)
Sterling Point, dirigida por Megan Park, conquistou as redes sociais com uma narrativa que acompanha Annie (Ella Rubin) em uma mudança drástica de vida, marcada pela descoberta de segredos familiares e pela formação de novas relações. Típica dramédia adolescente, a série encontra na música o equilíbrio entre o drama, a leveza e a descoberta que atravessam a jornada da protagonista.
A identidade sonora se constrói pelo encontro entre um score original intimista, assinado por Jaco Caraco e Tyler Hilton, músicas contemporâneas e também referências de outras décadas. As 25 faixas originais acompanham os personagens e, em alguns casos, carregam seus próprios nomes. O casal que conquistou a internet, Oona (Bo Bragason) e Ramona (Amélie Hoeferle), tem em “Almost a First Kiss” o fio condutor de um dos momentos mais importantes de sua história.
Ao lado das composições autorais, nomes como Olivia Rodrigo, H.E.R., Suki Waterhouse, Laufey e Djo aparecem na seleção, enquanto clássicos como “Building a Mystery”, “One of Us” e “Send in the Clowns” ampliam a dimensão nostálgica da trilha. Toda essa construção sonora acompanha a estética cinematográfica da série: o amarelo do fim de tarde, o drama da adolescência e a liberdade de ainda estar se descobrindo.
É uma trilha dramática, mas também dançante e divertida. Na mesma data de lançamento da série, um EP com quatro covers ganhou versões produzidas especialmente para a série, sob orientação de Megan Park. Entre elas, “Rowing Song”, interpretada por Lennon Stella e originalmente composta por Patty Griffin, se destaca pela relação com a jornada de Annie. O arranjo suave e a voz da intérprete reforçam a sensação de deslocamento, transportando o espectador para a ilha onde a história se passa.









