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Afrekassia relembra carreira de DJ e fala sobre desafios de ser independente


Por:

Giulia Cardoso

Fotos: Vinicius Marques

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Ao lançar a segunda parte do EP 50% Cacau (2026), Afreekassia encerra um processo de transição pessoal e profissional. Se em trabalhos anteriores — como o EP Sou Mais Eu (2023) — ela olhava para pautas mais coletivas, o volume 1 de 50% Cacau (2025) foi uma ferramenta de cura pessoal e um espelho sem filtros. Ali, a persona dá espaço para Cássia Sabino, a pessoa física, em sua forma humana e vulnerável, abraçando dores, mágoas e sensibilidades que antes ficavam guardadas.

A mudança também passa pela carreira. Aos 18 anos, Afreekassia começou a atuar como DJ em Santos, com sets voltados à produção de mulheres negras. Anos depois, conforme sua própria música ganhou espaço, percebeu que a discotecagem já não ocupava o mesmo lugar em sua trajetória e decidiu concentrar sua energia na carreira de cantora.

Hoje, contando com parceiros estratégicos e sem abrir mão do controle de sua obra, a cantora se prepara para desdobrar esse universo sensorial nos palcos. Em um bate-papo sincero, a artista reflete sobre o peso e o bônus do mercado independente, a transição definitiva da carreira de DJ para a de cantora e a construção estética dessa nova fase — que o público pode ver nos shows do Sesc Paulista nos dias 28 e 29 de agosto, com participação de Amanda Sarmento [saiba mais abaixo].

Na caminhada como artista independente, existe um esforço operacional grande, mas também a posse total da sua narrativa. Onde você sente que essa autonomia criativa grita no seu trabalho atual?

Afrekassia: Acho que a carreira inteira é o ponto, não tem um momento específico.

A autonomia de decidir sobre o que vai ser o projeto e quando vou lançar é algo que eu não trocaria por nada. Não consigo me imaginar recebendo ordens de cima para baixo. Minha criatividade só funciona de acordo com o momento da minha vida. 

Nesse projeto, eu estava pensando em dores, sofrimentos e questões emocionais. Naturalmente, fui escrevendo sobre isso e o trabalho virou sobre esse sentimento. 

Muito se fala sobre "ser independente", mas, na prática, o que essa palavra significa para você? Quais são os ônus dessa escolha?

Afrekassia: Ser independente é ter essa autonomia total, mas o contra é não ter a estrutura de uma grande gravadora, com dezenas de pessoas 100% dedicadas ao seu sucesso comercial. O que mais me pega é a questão de equipe e financeira — e não digo só a falta de verba, mas a falta de experiência para gerir uma carreira como um todo. 

As pessoas imaginam muito a parte artística (imagem, clipe, gravação), mas o lado operacional e burocrático é extremamente complexo. É ter que entender de tudo um pouco, porque, no final, a força de trabalho sai de você. Hoje tenho um pouco mais de estrutura do que no começo, mas ser autossuficiente exige um jogo de cintura gigante.

Com o lançamento do Volume 2 do EP e de clipes como "Preta F* Quente", como está sendo viver este momento da sua carreira? Você já pensa na próxima era ou quer desfrutar mais dessa narrativa?

Afrekassia: No Volume 1, eu ainda estava testando o terreno para ver se as pessoas gostariam. Já no Volume 2, cheguei com mais firmeza e o retorno do público me fez sentir abraçada enquanto pessoa. Fechei um ciclo pessoal e de carreira. Mas, em termos de estrada, ainda tem muito para crescer. Não penso em virar a era tão cedo porque quero explorar coisas que não consegui no Volume 1, principalmente os shows. 

Estou voltando a fazer shows depois de anos longe dos palcos. O 50% Cacau é um projeto que ainda tem muita vida pela frente, pelo menos até meados do ano que vem, mesmo que eu lance novidades dentro dessa mesma narrativa.

Falando em shows, qual é a experiência que você busca entregar no palco? Como foi a decisão de incluir elementos como o balé?

Afrekassia: O 50% Cacau tem um caráter intimista, de refletir e sentir, então penso no show como uma imersão. Até pouco tempo, eu achava que balé não combinava comigo. Mas fiz aulas de direção corporal e de movimento, e minha coreógrafa me convenceu. Fez todo o sentido. 

As dançarinas ajudam a preencher o palco e a desenhar corporalmente o significado das músicas, o que me dá suporte, já que preciso me concentrar no vocal. Quero construir uma experiência completa com iluminação, visualizers e cenografia. É um processo gradativo, um degrau de cada vez.

Você traz uma presença visual muito forte e uma imagem elegante nos seus lançamentos. Como o figurino conversa com a proposta das suas músicas?

Afrekassia: A liberdade de ser independente me permite pensar em cada detalhe. Entendo que ser artista também envolve performance, e quero trazer essa imagem de maturidade, me colocando e me enxergando como mulher. A estética do 50% Cacau carrega elegância e traz cores muito marcantes, como o amarelo e o marrom. O figurino, o cabelo, a luz e a cenografia são continuações do conceito do EP. É a mesma história sendo contada em linguagens diferentes.

Qual é a sua relação com o vinil e a mídia física?

Afrekassia: Eu amo a ideia do vinil. Lancei um compacto do meu primeiro EP (Sou Mais Eu) e tenho um carinho enorme por ele. 

O vinil traz uma experiência completa: você sente, enxerga a capa, lê o encarte e escuta. Tem uma acústica única e orgânica que nenhuma caixa de som moderna entrega igual. 

Além disso, valorizo muito a questão dos créditos. No digital, as pessoas perdem a noção de quem fotografou, quem fez o cabelo, quem masterizou ou misturou a faixa. No encarte do disco, todo mundo que trabalhou na obra está reunido. É uma peça de arte física.

Você também tem um histórico como DJ. Em que momento percebeu que a discotecagem não ocupava mais o mesmo lugar na sua vida e que era hora de focar 100% na carreira de cantora?

Afrekassia: Foi uma construção dolorosa de mais de dois anos. Eu comecei a tocar nova, aos 18 anos, lá em Santos, e fazia sets no projeto Puna Sound System. Mas, conforme fui lançando minhas músicas, o ambiente da noite começou a me causar um desconforto recorrente. O público às vezes olhava para mim no set esperando um show e não entendia a proposta de uma discotecagem. As festas também exigem uma dinâmica de madrugada e fritações, na qual eu não me encaixava muito bem. 

Eu gosto de um som mais intimista, R&B, Afrobeat. Quando percebi que a ansiedade e os problemas técnicos da noite estavam tirando meu amor pela música, entendi que precisava concentrar minha energia criativa em uma coisa só. Foi uma decisão difícil, inclusive financeiramente, mas necessária para que as pessoas me enxergassem plenamente como artista musical e cantora.

Afrekassia no Sesc Paulista - participação especial de Amanda Sarmento

28 e 29/8, sexta e sábado, 19h30 - Térreo
Venda de ingressos online no site do Sesc.

Por:

Giulia Cardoso

Fotos: Vinicius Marques

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