DryCleaning_@cidadecinza23 (22)

Balaclava Fest une gerações do indie e transforma palco em manifesto político


Por:

Thaís Ferreira

Fotos: João Rocha

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Dois dias, dezesseis atrações: essa foi a proposta da 16ª edição do Balaclava Fest, que aconteceu no último fim de semana no Tokio Marine Hall, em São Paulo. Desde a sua estreia, em 2015, o evento é um dos mais aguardados pelo público brasileiro quando se trata de música alternativa.

O pontapé da edição de 2026 veio de Pedro Mizutani, que entrou de última hora na seleção, substituindo a norte-americana Liv.e. “Gosto muito das sonoridades que o Balaclava propõe, rola um denominador comum entre as bandas”, o artista disse à Noize, logo após a sua participação no festival, um dos primeiros da sua carreira. “Foi muito foda fazer parte disso.”


O artista tem dois EPs na bagagem além do disco NOVA BOSSA: aquele abraço aos ratos vivos (2026) e já despertou olhares internacionais — de ninguém menos que Bad Bunny. Em maio, revisitando lembranças da sua passagem no Brasil, o porto-riquenho postou um story no Instagram com “Melhor Se Acostumar” de trilha sonora. A bossa nova lo-fi foi a segunda canção que Pedro fez na vida, ainda na adolescência. Depois do susto ao descobrir onde sua música tinha parado, veio a calmaria. “Sei lá... Uma pessoa com essa projeção dessas virar e falar ‘Pô, essa música é maneira’, tomo isso como um sinal para eu ficar mais confiante com o meu trabalho”, diz. 

Ecos noventistas


Assim que o show de Mizutani acabou, o de bar italia começou no palco principal. O trio britânico de indie rock era esperado pelos brasileiros desde 2024, quando cancelou a vinda ao país. De lá para cá, a banda lançou um novo álbum, Some Like It Hot (2025), o que deu outra cara para o repertório. No festival, a energia noventista que acompanha o grupo esteve presente, mas brilhou mesmo no dia anterior, em show solo na Casa Rockambole.

No fim da tarde, quando mais gente começava a chegar ao Tokio Marine Hall, Wishy se apresentava. A banda norte-americana também tem um pé nos anos 90, mas outro no começo dos 2000 – do tipo que poderia tocaria na rádio após “You Get What You Give”, do New Radicals. Seu novo álbum,  Nature's Pill, chega na sexta-feira (2), e o público pôde ouvir alguns dos singles, como “All The Rage” e “Mona Lisa”.


Veteranas

Duas bandas veteranas vieram a seguir: Pedro The Lion, no palco principal, e Ludovic, no secundário. A primeira, de slowcore, surgiu em Seattle, em 1995, quando o grunge começava a perder seu reinado. Uma década depois, o criador do projeto, David Bazan, decidiu pausar a banda, voltando a lançar um novo álbum só em 2019. Nesta vinda ao Brasil, a sua primeira, a banda acenou para toda a discografia.

Já a segunda, Ludovic, tocou em casa. Os paulistanos estão divulgando o novo disco autointitulado, quebrando um jejum de vinte anos. “Vocês não têm ideia da honra, do privilégio que é tocar pra vocês”, o vocalista Jair Naves falou logo após as primeiras músicas. Animado, o público respondeu à altura, com moshes e gritando as letras de volta.

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Com a proximidade das eleições presidenciais, Ludovic foi o primeiro grupo do dia a levar o tema para o palco. “É uma preocupação coletiva, não só nossa, mas também de quem nos acompanha”, Jair disse à Noize. “Tem também o caráter catártico da coisa. As pessoas sentem vontade de extravasar seus sentimentos com relação à parte social e política.”

Fim de festa



Do telão do palco principal, um olho escancarado observava o público ao longo do show do Dry Cleaning. Era a capa de Secret Love (2026), álbum que dominou o setlist do quarteto britânico – do sul de Londres, como o guitarrista Tom Drowse fez questão de destacar.

O spoken-word de Florence Shaw, embebido em pós-punk, foi conquistando o público música após música. Quando chegou na última, “Hit My Head All Day”, já se via movimentos mais soltos pela pista e também mais vozes se juntavam à da vocalista. Ela agradeceu pelo carinho dos brasileiros, que ficou na sua memória desde a última vez que passou por aqui, em 2023.

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Fechando a programação do Palco Hall, das músicas aos looks, Sharp Pins levou o Balaclava Fest para uma viagem à sua década favorita: 1960. Encabeçado por Kai Slater, o grupo ainda homenageou a nossa tropicália com um cover de “A Minha Menina”, composta por Jorge Ben e gravada pel’Os Mutantes em 1968, no seu álbum de estreia.

Blonde Redhead fez o último show da noite. Noise rock, dream pop e shoegaze se encontraram na apresentação, a estreia do trio em solo brasileiro. Ora na guitarra, ora nas teclas, Kazu Makino e o guitarrista Amedeo Pace revezaram os vocais, enquanto Simone, irmão gêmeo de Amedeo, assumia a bateria. 

Ao anunciar que cantaria “Blood Spilled”, seu single mais recente, uma série de projeções de cunho político começou ao fundo: primeiro, a bandeira palestina, seguida de mensagens em apoio a Lula e alertando sobre a interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras, numa imagem que trazia Donald Trump e Flávio Bolsonaro com chifrinhos de diabo.

A reação do público foi aquela da qual falava Jair Naves, mostrando como a música é uma via de mão dupla em cenários como o atual, do genocídio palestino e do avanço da extrema direita. Quando o artista se manifesta do palco, é como se o ouvinte também tivesse um microfone. 

Domingo hardcore



Já no domingo, quem chegou ao Tokio Marine Hall no cair da tarde foi recebido por Budang, quarteto de Florianópolis que tem ganhado espaço na cena do hardcore brasileiro. O show foi um dos primeiros desde que Léo Brah assumiu o papel de vocalista após a saída de Guilherme Guths.

Próximo ao palco, surgiam os primeiros moshes do dia e o nome High Vis, atração seguinte, começava a ser mencionado, tanto pela própria banda, que diz se inspirar pelos britânicos, quanto pelo público, que se amontoava na espera da abertura do palco principal.

Já em “Drop Me Out”, primeira música do High Vis, outro mosh deu as caras, assim como o sorriso do vocalista Graham Sayle ao notar que a plateia tinha pique para acompanhá-lo. Ao cantar “0151”, dedicou a canção aos trabalhadores, assunto caro para a banda, tanto que aparece no seu próprio nome. “High Visibility” é como são chamadas as roupas de alta visibilidade, geralmente laranja ou amarelo neon, usadas por trabalhadores das áreas de construção e aeroportos, por exemplo.



Um dos momentos mais marcantes foi na última música, quando, antes de cantar “Trauma Bonds”, Sayle falou sobre encontrar na música um motivo para manter-se sóbrio.



De Gabrielle a Karly


Apesar de ser sulista, Adorável Clichê pode dizer que estava em casa; ja que fazem parte do elenco da Balaclava Records. No Palco Hall, levou músicas do seu primeiro disco, O Que Existe Dentro de Mim (2018) e sonhos que nunca morrem (2024), que navegam principalmente pelo shoegaze. A banda ainda surpreendeu ao fazer um cover de “Myth”, de Beach House, com a vocalista Gabrielle Philippi dando um ar mais soturno aos vocais em comparação à versão original, de Victoria Legrand. 

No outro palco, Karly Hartzman chegou com a sua Wednesday, que nunca tinha tocado no Brasil. Dividindo espaço com o shoegaze e o noise, levaram também elementos do country para o show. Bleeds (2025) foi praticamente tocado na íntegra. Uma das poucas canções de Rat Saw Good (2023) foi “Bull Believer”. Antes de começar a cantá-la, Hartzman xingou Jair Bolsonaro.  


Novos e velhos amigos 

Antes de se consolidar pelo festival, a Balaclava Records fez alguns shows que ajudaram a colocar o seu nome na boca dos fãs de música alternativa. Dois deles foram com nomes que apareceram no line-up de 2026. DIIV, trazida para cá duas vezes, em 2017 e em 2024; e Beach Fossils, que esteve no Brasil em 2018.

O retorno dessas duas bandas coloca a própria história da Balaclava em perspectiva. Se há quase dez anos elas tocavam na Fabrique, cuja capacidade não passa de mil pessoas, em 2026 a história é outra, com um público muito maior e discografias com novos contornos também – DIIV até escolheu o Brasil para estrear a turnê de ZIRP!, próximo trabalho do grupo, que será lançado no fim de outubro. E, nas apresentações, ambas as bandas se mostraram mais seguras de si e menos retraídas.

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Enquanto isso, os últimos dois shows do Palco Hall foram os mais desprendidos. Os argentinos do Winona Riders não pensaram duas vezes antes de fazer ao vivo versões estendidas das suas músicas, ao passo que Sudan Archives não teve medo de subir ao palco sozinha, vestindo o seu violino como escudo, e encarar o máximo de pessoas que conseguisse.

Na sua 16ª edição, o Balaclava Fest usa trunfos do passado como quem saboreia um fruto que não nasce em toda estação, mas também pode ter descoberto que as apostas, às vezes, florescem mais cedo do que o esperado.

Por:

Thaís Ferreira

Fotos: João Rocha

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