
Meados de 2021. A pandemia ainda era uma realidade impeditiva para muitos eventos brasileiros, entre eles o Festival Carambola, principal agenda da cena independente de Alagoas. A solução foi manter a festa mais um ano no ambiente digital, com a produção da Sala de Ensaio, sessão acústica e audiovisual de quatro episódios, com quatro duplas distintas, formadas cada uma por uma atração alagoana e outra carioca em duetos inéditos e repertório mesclando canções de ambos os artistas.
O carioca Zé Ibarra gravou com a alagoana Flora. E o alagoano Ítallo França, com a carioca Julia Mestre. Foi ali, naquela espécie de “tiny desk alagoano”, disponível no canal de YouTube do festival, que “Retrato de Maria Lúcia”, composição de França, ecoou nacionalmente pela primeira vez. Dali em diante a canção ganhou vida própria em interpretações tanto de Mestre, quanto de Ibarra, que acabou por incluir a canção no disco Afim.
“Antes da versão do Zé aparecia um ou outro ouvinte que vinha procurar saber do meu trabalho. Depois do lançamento, a busca tem sido maior”, explica França. “Tem gente que chega pela canção e fica só nela. Tem quem se aprofunda, gosta e fica. Tem gente aleatória que nem lembra por que me seguiu. Sinceramente? Gosto que tudo esteja acontecendo devagar”, o músico reflete sobre sua composição que vem ganhando ares de hit e está registrada no Tarde no Walkiria (2023).
Uma terra de ruídos
A Maceió saturada dos panfletos turísticos não é mentira: ela existe e suas cores são reais. O paraíso é logo ali, mas a cidade não é feita apenas de sua parte baixa. Saindo da orla de Ponta Verde, em meia hora de carro, o maior crime ambiental em território urbano no mundo segue seu curso atrás dos tapumes da Braskem. Cinco bairros afundam após décadas de extração predatória de sal-gema, convertendo áreas inteiras em um cenário de pós-guerra, desfazendo lares e vínculos comunitários.
“Maceió traz um vazio para se tematizar, o ‘vazio tropical’ do Wado”, cita Mateus Borges, idealizador do projeto de pós-rock Cães de Prata. Esse espaço indefinido, “a terra mole e peganhenta” descrita por Lêdo Ivo, “se acentuou da pandemia para cá, criando uma sensação de abandono e precariedade, uma terra de ruídos”, opina Borges. Esse cenário contrasta com a poética do desencanto com leituras nacionais associadas a figuras incontestáveis, mas, ao mesmo tempo, apaziguadoras oriundas do estado, como Djavan e Hermeto Pascoal.
A percepção ecoa em Eduardo Pereira, artista que lançou em 2025 seu álbum de estreia Canções de Amor ao Vento. Produzido por conta própria durante anos, ele viu editais e leis federais recentes ampliarem suas possibilidades. Calcado em voz e violão, aponta desafios como a falta de teatros para shows e um público ainda pouco habituado a consumir música autoral.
“Viver de música em Alagoas é difícil, sobretudo quando se busca fazer algo mais autêntico”, diz Pereira. Ele ressalta iniciativas de formação de plateia, como o Festival Carambola, a reabertura do Popfuzz Pub e a Fábrica de Artistas. Outros espaços importantes são o Rex Jazz Bar, o Carambola Lab e o Kero Mais Gastro Arte.
Depois de Maceió, Arapiraca é a segunda cidade mais populosa de Alagoas. Localizada no agreste do estado, ela apresenta sua própria cena, mas com demandas semelhantes às da capital. A rapper Naty Barros define o município como “cheio de artistas, mas com um público a ser educado”. Ela acredita que pelo fato da cidade ser jovem – 101 anos completados em 2025 –, o conservadorismo ainda se revela latente, “com a economia focada no comércio, concentrando riquezas nas mãos de poucos” e resultando, assim, numa oferta restrita de espaços e oportunidades culturais.
Uma saída para os artistas locais é o Pub Treze, que promove festas e shows de atrações locais e de outros estados, se posicionando como um palco estratégico para turnês que possuem logística compatível com a região.
Mapa estético
A jornalista e professora da UFAL, Laís Falcão, vem pesquisando a estética da cena alagoana atual. Entre 12 artistas observados, ela identifica “a presença marcante do violão nos trabalhos de Nyron Higor, Antonio da Rosa e Chico Torres, que trazem essa característica da MPB. A ‘nova MPB’ vem atravessada pelo indie rock e o folk, como é o caso da Larine. A bossa nova aparece com LoreB e Bruno Berle”.
Outros percursos seguem daí, como a “atualização de ritmos nordestinos, com Andrea Lais misturando coco e aboio com texturas eletrônicas” e o lo-fi por onde transitam Larine, LoreB, Bruno Berle e Batata Boy. Inclusive, o lo-fi merece um comentário à parte. Falcão conecta essa estética a um modo de produção musical caseiro, “acentuado pela pandemia, marcado por batidas leves e som repetitivo numa materialidade apropriada pelo som e que também aproxima esses artistas da música pop”.
O hip-hop dá as caras em Alagoas com Naty Barros e Saci. “Em Maceió, o rap puxa pra praia, traz o reggae e o dub junto, é uma rua lamacenta. Já em Arapiraca, é um rap de rua de terra batida, num diálogo com a cultura popular", metaforiza Naty Barros.

Fomento de cena
Em 2024, após anos de demanda, a Lei de Incentivo à Cultura de Alagoas foi lançada, dando agora seus primeiros passos em direção a um maior investimento cultural no território. É cedo para entender seus efeitos, por isso o cenário segue exigindo coragem e insistência de quem quer fazer acontecer. Lili Buarque, produtora maceioense, sabe bem disso.
“Criei o Festival Carambola em 2017, quando quase não havia palcos autorais na cidade. A primeira edição teve quatro bandas e aconteceu numa casa de shows. Hoje temos um público entre 5 e 6 mil pessoas, numa área aberta, perto da praia. É uma construção árdua, mas vale à pena: o Carambola colocou Maceió de vez no mapa dos festivais brasileiros”, celebra a curadora, que conduz o projeto ao lado da diretora de arte Didi Magalhães.
Apontado como um dos principais ambientes de formação de público em Alagoas, o Carambola também é reconhecido pelo seu viés local: nas nove edições, no mínimo, 50% da programação foi composta por artistas alagoanos. “É um encontro dos alagoanos, que se veem na plateia e no palco. Cada ano, homenageamos alguma riqueza cultural do estado, resgates importantes que valorizam nossas tradições e nossa autoestima”, frisa Buarque.
“Reconheço o nosso humor, expressões, memórias coletivas, como algo de que sinto muito orgulho e vaidade. Gosto de ser um alagoano que não come sururu, pois não sou de Maceió, nasci distante do litoral”, pondera Ítallo França, que hoje reside em São Paulo. “Os grandes personagens da minha vida são alagoanos, têm o meu sotaque, os meus gestos de mão, a minha cor, as mesmas origens. Minha identificação é imediata e não posso encontrar isso em outro lugar, ainda que passem os anos”.
Novíssimo nome da cena alagoana, a cantora Bárbara Castelões é mais uma artista que não vive mais em Alagoas. Ainda que esteja radicada em Belo Horizonte, a geografia das águas ainda a define. “Estou inserida num ambiente que não é o meu, Alagoas virou uma questão de identidade para mim", conta.
"Eu precisei sair e ver de outra perspectiva para entender o quanto de Alagoas há em mim”
Ela não está só, o sentimento é coletivo: artistas que saíram de casa, mas sem nunca deixar seu lugar no mundo para trás.



