Colomy-PraQuemAndouPerdido-FotoCarolSiqueira-3

Colomy lança álbum com vibe setentista e participação de Peter Buck, do R.E.M.


Por:

Giulia Cardoso

Fotos: Carol Siqueira e Felipe Campos/Divulgação

COMPARTILHE:

O intervalo entre o fim de um ciclo e uma nova possibilidade de existência é o terreno explorado pela banda Colomy no seu segundo álbum de estúdio, Pra Quem Andou Perdido (2026). A obra acompanha o percurso emocional da perda até o amadurecimento do trio formado por Sebastião Reis (voz, violão e guitarras), Pedro Lipa (voz, violão e guitarras) e Eduardo Schuler (bateria).

Se o disco de estreia da banda, Jaú (2023), nasceu sob a ótica do isolamento e do silêncio de um sítio no interior paulista durante a pandemia, o novo projeto absorve a intensidade da vida urbana. Composto entre 2023 e 2024 em São Paulo, o álbum disseca temas como a ausência, a culpa e a esperança de reconstrução. “Esse álbum representa para mim uma grande mudança de chave individual na forma de compor, de enxergar a música. Isso deve-se ao fato de reunir as canções mais sinceras e honestas que fiz em toda a minha vida”, explica Lipa.

De R.E.M a Guilherme Arantes

Bebendo na fonte do rock e do cancioneiro popular brasileiro das décadas de 1970 e 1980, a Colomy convocou colaboradores de peso que ajudaram a moldar essa identidade musical. A melancólica “Rádio”, balada que transforma pequenos objetos domésticos em testemunhas de uma ausência, conta com os arranjos de guitarra de 12 cordas de Peter Buck, do R.E.M, que parece acenar para o hit “Radio Song”, presente no emblemático Out Of Time (1991). 

Já “Se Ainda Existe Amor” ganha o peso histórico do piano elétrico CP70 tocado por Guilherme Arantes. O álbum traz ainda a participação do baterista estadunidense Barrett Martin, conhecido pelo seu trabalho no grunge de Seattle com bandas como Screaming Trees e Mad Season.

A jornada do disco tem início com “Causas Naturais”, primeiro single e faixa guiada por influências do yacht rock que embala versos densos em arranjos luminosos e ritmados. Todo este percurso de conflitos e tentativas de compreensão deságua na oitava faixa, a homônima “Pra Quem Andou Perdido”, que entrega a tese principal do projeto: para se encontrar, às vezes, é preciso perder-se pelo caminho.

Como reflete Eduardo Schuler, a sonoridade final materializa a evolução natural do grupo: “Conseguimos encontrar neste disco uma identidade que nós três estivemos a buscar ao longo de nossas vidas. Para mim, este disco representa maturidade musical e de experiência no mundo”.

Feito para múltiplas sensações, Sebastião Reis, filho de Nando Reis, resume a intenção por trás do projeto: “É um disco para que as pessoas possam se emocionar, sorrir, chorar, dançar e cantar. As canções foram feitas com a nossa alma de uma forma muito verdadeira.”

Leia o faixa a faixa de Pra Quem Andou Perdido 

“Carona Singular”: Foi uma das primeiras faixas que começaram a ser compostas, lá em meados da pandemia, quando a gente ainda morava junto. É uma música que fala sobre a vontade, o ímpeto de se viver uma paixão, um amor proibido, difícil, com obstáculos — e acho que é a mais enérgica e mais roqueira do disco. A gente estava ouvindo muito Deep Purple na época e ficou batendo cabeça atrás daquela introdução; acabou entrando também Rush, rock argentino, e ela tem essa coisa meio Van Halen: pesada, mas com uma melodia para cantar junto. O verso 'tenho o teu nome estampado em vermelho' vem de uma influência do Belchior, daquela imagem de voltar do cinema com a camisa toda suja de batom — é como se tu tivesse com o nome da pessoa preso na cabeça e o batom tatuado no corpo. E vou dar um spoiler: é a música que a gente mais gosta de abrir o show. Ela tem muitos vácuos — aqueles silêncios depois de uma grande intensidade que geram impacto — e isso traz a energia total que a gente precisa para começar, tipo Kiss.

“Causas Naturais”: É a primeira dançante da nossa história, uma música que a gente ainda não tinha explorado: o baixo virou protagonista — e olha que a gente é uma banda que não tem baixista. A percussão do Barrett Martin é um grande detalhe: a gente tinha uma ideia muito influenciada por Michael Jackson, e no estúdio fomos buscando objetos — garrafinha cheia d'água para chegar na nota certa, agogô, palma, estala dedo, tudo num tempo deslocado que rendeu muita risada na hora de gravar. O groove de bateria eu roubei dos Stones, e o refrão me lembra Foo Fighters; nas guitarras empilhadas do refrão tem a marca do Jay Graydon, que a gente sempre quis trazer. Na narrativa do disco, é quando a relação está rolando, mas existe uma distância sufocante — e aquele dilema: será que ela soterra tudo, ou o amor é suficiente para manter a chama acesa? O 'causas naturais' entra como uma pitada de humor, para a letra não ficar carregada: ela apresenta de forma amigável e bem-humorada os perigos das relações à distância. E eu gosto muito de cantar aquele 'morrer' do refrão gritando — é de botar para fora.

“Nunca Se Esqueça de Amar”: A música foi produzida em Jaú, começando com uma linha de violão e uma melodia que surgiu na hora, com a letra dedicada à mãe do artista, inspirada em palavras que ela disse no aeroporto em 2018 ao embarcar rumo à carreira musical em São Paulo. A canção aborda o tema de partir sem despedida, transmitindo uma mensagem de amor familiar, e o refrão traz palavras exatamente dela, embora o artista não tenha dado crédito na época. O arranjo inicial é um dedilhado que evolui para uma sonoridade épica, com influências do rock progressivo, de Humberto Gessinger e do Roupa Nova, com a participação do produtor Dudinha, que ajudou a transformar a música na hora, criando versos espontâneos.

“Radio”: é o segundo single do álbum, uma música que aborda um término amoroso vivido de manhã após uma noite de despedida. A letra retrata a sensação de estar perdido em casa, sozinho e cercado por objetos que lembram a pessoa amada, criando uma atmosfera claustrofóbica. Criada como uma forma de aliviar a dor, ela expressa sentimentos de solidão e desconforto com imagens como cortar um cigarro sem fumar e tentar se aquecer no congelador. Musicalmente, é uma balada com arranjos de guitarra, sintetizador e violão que transmitem melancolia, incluindo uma conversa entre guitarra e sintetizador influenciada por Joe Walsh, além de um baixo de sintetizador gravado por Dudinha. A participação especial do guitarrista do R.E.M., Peter Buck, tocando guitarra de 12 cordas, e o fato de ser a primeira colaboração em dueto da banda também marcam essa faixa, que agora se torna universal, permitindo aos ouvintes identificar-se com suas razões para compor, independentemente de suas experiências pessoais.

TESTE_COLOMY_01-32

“Tchau”: é a única música do álbum que não é original da banda; é de Bebeto Alves. Este álbum marca a estreia do baterista Eduardo Schuler como vocal principal. A ideia de regravar a canção surgiu após uma fase difícil, onde a cantora passou por um término e se sentiu inspirada a transformar sua dor em música. O grupo fez várias mudanças na harmonia e acrescentou novos instrumentos. Também inclui o primeiro solo de gaita de boca da banda. No final da música, há um som que imita o disco parando, sinalizando o início do lado B. 

“Eu Tive Que Matar Você”: A música do disco fala sobre o fim de uma amizade, que foi trágico e doloroso. O aprendizado já não tinha valor quando tudo se concluiu. A paixão pela pessoa acabou, mas o respeito e o desejo de felicidade permanecem. A letra foi escrita rapidamente, sem registro, em um momento decisivo para a banda. As imagens são pessoais e foram escritas com sinceridade. O refrão foi inspirado na música "Take It to the Limit", dos Eagles, que a pessoa usava para brincar. É o primeiro blues da banda, que provocou grande emoção na gravação. Hoje, ela é muito forte ao vivo, misturando trechos de Led Zeppelin, mostrando a dificuldade de lidar com sentimentos de perda. 

“Se Ainda Existe Amor”:"É uma música triste que ressoa profundamente com o que eu sentia. É como um clamor de alguém que ama e ainda não sabe se esse amor é real. A melodia surgiu em casa enquanto eu e o Lipa tocávamos juntos, e depois ele desenvolveu a letra e a harmonia. Após enviar, eu não gostei da música imediatamente, talvez por estar em negação sobre o que estava escrito. O Tião insistiu para que a canção estivesse no disco, e fui convencido. Quando ouvi a gravação, lembrei de músicas do Led Zeppelin e decidi que conseguiríamos transformar isso. Com poucos recursos, conseguimos algo surpreendente no estúdio, onde o Dudinha trouxe novos elementos. A música ganhou cordas, mellotron, e um solo incrível do Lipa. Convidamos o Guilherme Arantes para participar, e ele aceitou, assim como o Peter Buck para uma parte na guitarra. 

“Pra Quem Andou Perdido”: dentre todas as músicas do disco, ela é a que mais serve como antídoto do próprio disco. É um álbum que se baseia muito em dor, sofrimento, solidão, um sufoco enorme e situações difíceis. O disco inteiro aborda isso, e todas as músicas têm esse viés triste e melancólico. Essa faixa traz o antídoto, traz uma resposta para tudo isso, traz um alívio para o sufoco. A sonoridade também é mais aberta, mais colorida, mais animada. Tem uma energia diferente, com muito mais entusiasmo do que todas as outras do disco. Representa a sensação de superação, de sair do sufoco, de superar a dor e o sofrimento, de acreditar outra vez no amor e na alegria da vida.

“Tudo Vale o Ingresso”: A música fala sobre o processo de composição em si, dessa loucura de transformar sentimentos em harmonias e melodias. E como o disco foi feito com muito amor e muita dor, ela carrega isso também. A mensagem central é justamente a pergunta "Tudo vale o ingresso?". Se a gente der o sangue escrevendo, colocando tudo o que tem de mais precioso, nosso sentimento vale o ingresso de quem vai ouvir? É uma provocação num tempo em que a arte é consumida de formas tão diferentes, tão desinteressadas ou compulsivas. É como dizer: sofri tudo isso, coloquei tudo isso aqui, e vocês vão ter que ouvir.

Por:

Giulia Cardoso

Fotos: Carol Siqueira e Felipe Campos/Divulgação

COMPARTILHE:

RECEBA NOVIDADES POR E-MAIL!

Inscreva-se na nossa newsletter.