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Entre 40 mil fitas, como o acervo da MTV Brasil tenta sobreviver


Por:

Amanda Cavalcanti

Fotos: Divulgação

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Ter sido uma criança que cresceu nos anos 1990 ou 2000 no Brasil é certeza de conseguir identificar algumas, senão todas, as referências à MTV Brasil. Já ouviu Massacration? Conhece a Gaiola das Cabeçudas? Acompanha o trabalho de Zeca Camargo, Marina Person ou Astrid Fontenelle? E já ouviu falar do programa de auditório Beija Sapo? 

Se sim, é porque você esbarrou de uma forma ou de outra com o canal e seus inúmeros programas icônicos. Lançada no nosso país em 1990, nove anos depois de sua estreia nos Estados Unidos, a MTV Brasil fazia parte do Grupo Abril e, no começo, focava na exibição de videoclipes. Mas não demorou muito para que o catálogo do canal se expandisse e, durante os 30 anos em que esteve no ar, ele fosse casa para programas de auditório, esquetes de comédia, reality shows, game shows e muitos outros gêneros. Tudo isso ligado, é claro, por um interesse principal por música. 

Enquanto canal de TV aberta, a emissora saiu do ar em setembro de 2013. Para muitos, foi como ver um tipo de mídia desaparecendo. "Essa MTV não cabe mais. Os tempos mudaram. Vamos celebrar o fato de a gente ter estado num lugar como esse e produzido tantas coisas legais", disse o diretor de conteúdo e programação do canal, Zico Goes, à Folha de S. Paulo um mês antes do encerramento da programação. 

Mas há uma luz no fim do túnel pra quem sente saudades da tão diversa e influente programação da MTV Brasil. Esse túnel fica num depósito em Cotia, pertencente à Abril, onde estão mais de 40 mil fitas Betacam, que guardam praticamente toda a história da emissora. Hoje, parte dela vem sendo recuperada num processo quase artesanal, mas o futuro deste arquivo ainda é incerto. 

"Foi quase por coincidência", fala Gabriel Rolim, artista visual e diretor audiovisual que acabou se encarregando de digitalizar as fitas do arquivo, após ser indicado por um amigo para um funcionário da Abril. "Eu já tinha uns equipamentos de coisas que eu tinha garimpado e que eu estava usando em processos meus de fazer finalização de clipe, gravar umas coisas."

Rolim, que é responsável por videoclipes de bandas como Boogarins, Toro Y Moi e Pluma, e integra a equipe de efeitos visuais para o palco de artistas como Mochakk e Tame Impala, trabalha há anos com câmeras e efeitos analógicos. Coincidentemente, é possível encontrar no seu trabalho uma influência das vinhetas animadas, coloridas e, por vezes, surrealistas que marcaram os espectadores da MTV Brasil. Segundo ele, elas ainda se encontram no arquivo da emissora. 

"Não tem propagandas, mas tem os programas e as vinhetas", diz o artista. O que está gravado é o que ia ao ar – em raros casos, há cenas de backstage e cenas gravadas pelas câmeras do canal em si, mas em sua maioria o arquivo se forma da programação da emissora. 

Rolim aproxima que já deve ter digitalizado cerca de uma centena de fitas – muitas horas de programas, como os primeiros momentos do canal, mas ainda uma porção ínfima do que está nas milhares de fitas guardadas no depósito. Isso porque a reativação do arquivo só aconteceu através de projetos audiovisuais que se interessaram por imagens e entrevistas específicas que só a MTV Brasil guardava – e pagaram por essa digitalização. 

"Era um arquivo meio morto deles, eles tinham isso, mas ninguém ia atrás", fala Rolim. "Para digitalizar tudo, seria algo super caro e precisaria de muitas máquinas, muitas pessoas. Então, a partir de algum momento, começou a rolar a partir de projetos." Documentários recentes de outras plataformas, como Ritas (2025), sobre a Rita Lee, e Andar na Pedra (2026), sobre os Raimundos, ambos do Globoplay, contêm imagens que o profissional digitalizou.

Há interessados por todo o lado – ele conta que, recentemente, a Abril recebeu o contato de produtores de um documentário sobre grunge atrás de uma entrevista feita pelo jornalista Fábio Massari durante os anos 1990. 

Além de projetos para plataforma de streaming, há também páginas de redes sociais que se interessam pelo arquivo. A página @amtvqdeucerto, no Instagram, solicita algumas digitalizações para postar. Na estreia do Brasil na Copa do Mundo de 2026, por exemplo, eles resgataram um VT do programa Copa na Mesa, comandado por Astrid Fontenelle durante a Copa de 1994, e os músicos Marcelo Fromer e Nando Reis, além de Walter Casagrande.

A operação de Rolim para atender a essas solicitações é pequena. Segundo ele, são três máquinas antigas que rodam as fitas Betacam e ficam na casa de seus pais. No começo, alguns problemas interferiram no processo de digitalização – como, por exemplo, a sujeira do arquivo, que acabava travando as máquinas. "As pessoas que consertam isso são pouquíssimas, então eu mesmo tive que pesquisar e entender como fazer", diz Rolim.

Apesar das dificuldades, ele garante que a qualidade das fitas, que são sensíveis, está boa. Dificilmente uma fita não funciona ou quebra e, quando acontece, há pessoas na Abril capazes de repará-la. Mas a fragilidade do arquivo, que esteve parado por quase 15 anos, mostra com que facilidade a história da MTV Brasil poderia ter se perdido. 

No Brasil, não faltam exemplos de como a falta de conservação dos arquivos acaba danificando a memória da nossa cultura. O Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, e o Museu Nacional no Rio de Janeiro, foram vítimas de incêndios na última década, deteriorando dezenas de registros históricos. 

Especificamente no ramo audiovisual, há movimentos como o Lost Media Brasil, que cataloga arquivos brasileiros que se perderam. Segundo o site da organização, há cerca de 223 programas, filmes e dublagens brasileiras que se perderam para sempre. "Hoje em dia muito do que é falado sobre música está na internet, mas esses links podem sair do ar", fala Rolim.

O futuro deste arquivo, e se ele terá alguma disponibilidade a um público geral em algum momento, ainda é incerto. Por enquanto, o que há de disponível da MTV Brasil em plataformas como Paramount Plus e Pluto TV são os reality shows que o canal produzia; dos programas de música e comédia, apenas registros em terceira mão no YouTube. 

"Se eles lançassem um canal, eu boto fé que teria gente pagando para reassistir esses materiais", diz Rolim. "A memória da música brasileira está muito conectada com a MTV."

Por:

Amanda Cavalcanti

Fotos: Divulgação

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