
Desde que saiu do Inkoma e fez as malas de Salvador rumo ao Rio para gravar seu primeiro disco, a trajetória musical de Pitty corre em paralelo à própria presença do rock no mainstream brasileiro nas últimas duas décadas. Começa com uma produção de fôlego nos anos 2000, que passeia do hardcore melódico ao stoner rock, para depois focar em lançamentos mais espaçados e cada vez mais voltados a referências da música brasileira. Nessa caminhada, também tem destaque a parceria com o produtor Rafael Ramos, da Deckdisc, que acompanha a cantora desde Admirável Chip Novo (2003).
Pitty é singular em muitos aspectos: de única mulher da banda à única roqueira de sua geração no mainstream. É o próprio apelido de infância que estampa as capas de seus discos, um nome que acabou se associando a uma geração. Ainda que o sucesso exponencial não tenha acompanhado toda a carreira, a cantora manteve sua relevância e sua presença se expandiu para outras mídias, de apresentadora de TV a lives na Twitch.
Os álbuns ao vivo de Pitty também merecem menção honrosa, especialmente {Des}Concerto ao Vivo, de 2007. O primeiro ao vivo da carreira mostra todo o fôlego da cantora e sua banda, e ainda apresenta “Pulsos” — hit inédito que ajudou a transformar o registro em mais do que um simples compilado de sucessos.
Como a cantora está prestes a lançar um novo disco no dia 16 de outubro — que teve como prévia o single "Sobremesa" —, aproveitamos para olhar de perto a discografia de Pitty até aqui. Confira abaixo:
Admirável Chip Novo (2003)
Revisitar Admirável Chip Novo é mais do que uma experiência de nostalgia: fica fácil constatar como as músicas foram lapidadas para virar hits sem que isso diminuísse a força das composições, algo relevante para uma estreia. Foram nada menos que sete (!) músicas de trabalho: “Teto de Vidro”, “Máscara”, “Admirável Chip Novo”, “Equalize”, “Temporal”, “I Wanna Be” e “Semana Que Vem”.
São letras que falam de críticas sociais, identidade e um certo rage against the machine, quando o rock na rádio e na TV estava pautado predominantemente pelo romantismo ou senso de humor. Um álbum que, visto hoje, capturou com precisão aquele início dos anos 2000.
Anacrônico (2005)
Anacrônico chegou dois anos depois com a tradicional expectativa do segundo disco após uma estreia bem-sucedida. E, embora não tenha alcançado o fenômeno comercial de Admirável Chip Novo, se tornou um dos discos mais importantes da carreira de Pitty e favorito de muitos fãs. A sonoridade flerta com o metal e o punk e, de acordo com a própria Pitty, é um trabalho despreocupado em repetir fórmulas. Dele, vieram “Na Sua Estante", até hoje uma das faixas mais tocadas da cantora, e “Memórias”, com um clipe que não saía da MTV.
Por trás dos hits, porém, há um disco ainda mais pautado na crítica social —a faixa-título já traz a sensação de não pertencer ao próprio tempo, por exemplo. Anacrônico, no fim das contas, acabou chegando ao disco de ouro.
Chiaroscuro (2009)
A referência ao termo Barroco não é por acaso: Chiaroscuro, “claro e escuro” em italiano, organiza o disco a partir da dualidade: da crueza introspectiva de “8 ou 80” à pegada radiofônica de “Me Adora”, que se tornaria um dos maiores hits da cantora e ganhou até versão de João Gomes. Entre esses extremos, Pitty abre espaço para outros estilos musicais além do rock.
Essa variedade está também nas letras, que transitam entre relações, frustrações e um quê de feminismo. “Desconstruindo Amélia” atualiza a figura da mulher que se vê presa a papéis domésticos, enquanto “A Sombra” marca um álbum um tanto mais sombrio.
Setevidas (2014)
Após cinco anos sem um disco de estúdio e uma passagem pelo projeto folk Agridoce com Martin Mendonça, Pitty volta com Setevidas. A pegada stoner rock, que aparecia pincelada em sua discografia, ganha mais espaço ao lado dos riffs influenciados pelo hard rock. O álbum foi gravado ao vivo e ganhou uma mixagem de Tim Palmer, engenheiro que trabalhou com nomes como U2, Pearl Jam e David Bowie. O resultado é um som encorpado com um tom garageiro.
A postura contestadora, aqui, se mantém nas letras. “Pouco” abre o disco com uma espécie de manifesto que mostra a insatisfação permanente, enquanto “Deixa Ela Entrar” e “Pequena Morte” passam por materialismo, desejo e consumo. Um trabalho sem um grande hit, mas coeso em sua unidade sonora.
Matriz (2019)
É em Matriz que a compositora Pitty fica ainda mais em evidência. O disco parte de uma investigação sobre suas próprias raízes baianas, não como um retorno nostálgico, mas uma investigação de influências do passado e do presente. A percussão ganha espaço, assim como referências que vão de Dorival Caymmi à música produzida em Salvador naquele momento. BaianaSystem aparece em “Roda”, enquanto Larissa Luz está em “Sol Quadrado”, e o rock de Teago Oliveira e do Maglore aparece em uma versão da cantora para "Motor".
A abertura para essas referências faz com que o rock converse com outros territórios. Depois de tantos anos sendo associada ao rock e aos grandes hits dos anos 2000, aqui, ela está menos interessada na relevância mainstream e mais em investigar seus próprios limites sonoros. Tendo Rafael Ramos novamente na produção, Matriz não deixa de apontar para os próximos caminhos.





