
Deixa ele entrar! Toc Toc, 15º disco de Ed Motta, chegou ao mundo em setembro, o primeiro com composições em português desde AOR (2013), quando se dedicou ao mercado estrangeiro. Com o lançamento, o artista encarou uma agenda cheia de entrevistas — inclusive com a Noize —, o que nos deu oportunidade de conversarmos sobre música,vinil e as velhas novas referências que cercam o disco.
Para a nossa surpresa, logo no início do papo, Ed admitiu que gosta de dar entrevistas. “É minha parte preferida do processo todo de divulgação. Sou leonino, né? Adoro uma boa conversa. Em dia de entrevista, durmo como um neném", diz ele, seguido por aquela risada que toma o ambiente.
Toc Toc também é um aceno ao Ed do passado, já que é o primeiro disco em que ele canta totalmente em português após 13 anos. Quando questionamos sobre voltar a criar na língua materna, ele explica que a escolha parte menos de uma nostalgia e mais de uma percepção de maturidade musical.
“Acredito que esse trabalho acena aos meus três primeiros discos, mas com um novo trato na pegada eletrônica, como se fosse Conexão Japeri no espaço, por exemplo. Tudo o que era mais ‘cru’ ganha uma nova sonoridade com os sintetizadores e teclados, que eu e Michel [Limma] tocamos manualmente", conta.
De fato, algumas faixas fazem lembrar seus primeiros discos: caso da estreia com a banda Conexão Japeri, Ed Motta & Conexão Japeri (1987), quando Ed tinha 17 anos, do experimental Entre e Ouça (1992) ou o radiofônico Manual Prático para Festas, Bailes e Afins (1997).
“Nunca inventei nada quando era novo, e nem quero agora, velho. Mas sinto que me conectei novamente com o fazer da música pop"
Passado e presente estão em faixas como “Glamour Hotel”, uma das 11 faixas do álbum. Segundo Ed, a música estava engavetada há 30 anos e só agora viu espaço para ser lançada.
Do jazz ao reggae
Toc Toc mostra que Ed Motta passeia com malemolência por diferentes gêneros como o jazz, a bossa, o funk e suas nuances. O próprio título do álbum, como ele mesmo canta, é uma onomatopeia para o "toc toc" do funk norte-americano. Ele também destaca o reggae como referência.
“Amo o reggae e tudo o que veio dos jamaicanos. Eles inventaram o rap, o remix, antes de tudo isso existir com o dub. Quando faço onomatopeias cantaroladas, trago essa malandragem de volta para minha produção”, explica.

A coleção que fica
A coleção de discos de vinil do Ed Motta também é famosa. Lapidada desde os 12 anos de idade, sua discoteca chegou a ter cerca de 30 mil discos, até que, em 2020, o artista anunciou alguns LPs para venda no Discogs. Não muitos (cerca de 400).
“Me livrei de muitos discos que o digital oferece em melhor qualidade, mas, mesmo assim, foi como tirar um balde de um barco inundado: ele continua cheio. Já teve gente oferecendo muito na minha coleção, mas, sinceramente... não é do meu desejo me desfazer, ao mesmo tempo em que não sei o que fazer com tantos discos [risos]”
Ainda assim, ele destaca que a experiência do vinil, não se resume à escuta: capas, contracapas, encartes, conteúdos extras e até o cheiro dos discos fazem parte do interesse pelo formato.
“Escuto vinil diariamente, mas só para discos e coletâneas exclusivas que, no digital, é impossível ter. Hoje o digital alcança parâmetros que o vinil, numa qualidade média, não consegue, mas nem tudo chega nas plataformas.... então, sempre volto aos meus discos.”
Entre os objetos de sua coleção, Ed também guarda exemplares dos próprios trabalhos. “Dos meus discos tenho três de cada, e entre os mais especiais,os discos do Steely Dan, Led Zeppelin e grandes concertos orquestrados que marcam minha memória como ouvinte. Também vivo à procura de um disco do Jack Daugherty and The Class of Nine Hundred and Seventy One, que nunca encontrei lacrado.”
Provocar não faz mal
Ed Motta, como se sabe, não é avesso a polêmicas. Algumas ganham mais dimensão — como uma briga envolvendo a cobrança de taxa de rolha que foi parar na delegacia, episódio pelo qual ele disse estar arrependido — enquanto outras ficam no campo dos memes e cortes nas redes sociais. Suas críticas já foram parar no hip hop, no Raul Seixas, nos Irmãos Coen. Recentemente, afirmou em um podcast que o show do Belo era "muito melhor que o do Jamiroquai", exaltando os arranjos e a harmonia das canções do brasileiro. “We're talking about chords”, justificou.
As comparações, como ele diz, são traiçoeiras. “Acho que a comparação é sempre maligna, né? Sempre ofende algum lado. Mas às vezes falo algumas coisas e a galera toma uma dor tremenda. E não é bem assim... ‘Ah, mas o Ed odeia o Jamiroquai.’ Não odeio; a música deles é ok, mas, como eu disse, não é melhor que o Belo, que é um baita artista. E tá tudo certo também. Às vezes causar uma intriga, fazer uma confusãozinha não faz mal a ninguém [risos]”
Causando ou não, Ed Motta está de volta na pista. E este é sempre um grande acontecimento.












