
Manfred Eicher nasceu na pequena cidade de Lindau, na Alemanha, em 1943. Aos 26 anos, ele era um jovem construindo carreira como baixista em Munique. Entre apresentações, percorria o país garimpando discos de jazz, e foi essa paixão que o levou a expandir sua atuação, pois em 1969, abriu sua própria gravadora, a ECM (Edição de Música Contemporânea, na sigla em inglês).
O primeiro lançamento foi Free at Last (1970), do pianista estadunidense Mal Waldron, que àquela altura já havia trabalhado com Charles Mingus e John Coltrane. Depois, vieram álbuns de Keith Jarrett e Chick Corea.
Menos de três anos após a sua fundação, a revista alemã Der Spiegel publicou que a ECM lançava as “melhores gravações de jazz”, com “padrão ouro em som, presença e prensagem”. Já um crítico da revista canadense Coda afirmou que o selo produzia “o mais belo som depois do silêncio”, frase que se tornou uma espécie de slogan informal da gravadora.
Esse encanto ia além do catálogo, que teve nomes como Pat Metheny, Paul Bley, Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos, mas residia em uma identidade sonora. Apesar de Manfred ser conhecido por participar de todo o processo criativo, desde a produção musical até a capa do disco, o responsável pelo modo de esculpir o som foi Jan Erik Kongshaug.
O engenheiro de som norueguês conduziu centenas de gravações, muitas das quais aconteceram no Rainbow Studio, em Oslo. Erik faleceu em 2019, mas deixou de herança sua singular expertise. “É uma combinação entre captação, mixagem, interação dos músicos, mas, principalmente, uma visão sobre como conduzir tudo isso. Existe a ideia de trazer para o jazz uma lógica da música de concerto: uma gravação que seja o mais transparente possível, como se você estivesse ali, ouvindo a execução ao vivo. Mas essa transparência não significa ausência de intervenção, pelo contrário, pois existe o trabalho da construção desse som”, afirma Fernando Sagawa, saxofonista, compositor e produtor brasileiro, que participou de uma residência artística no estúdio poucos meses após a morte de Jan Erik.
Sagawa alerta que não é simples falar em um “som ECM”, tendo em vista a diversidade do catálogo do selo. Contudo, explica que essa identidade passa por escolhas muito específicas de microfonação, conversão, amplificação e reverberação.
Um dos pontos principais é a busca por uma compressão reduzida. Geralmente, no processo de mixagem, os volumes baixos são aumentados e os volumes altos são diminuídos, com o objetivo de manter um equilíbrio sonoro constante, o que não acontece no Rainbow Studio.
“Não há esse tipo de mixagem. Lá, o que acontece é, basicamente, entender os arcos de dinâmica de cada frase e editar de maneira a reforçar isso. Então, se há uma crescente em uma certa frase, aquilo é editado nota a nota, para que essa crescente fique mais óbvia. Mas não há compressão, o som não fica achatado. Então é uma técnica que está a serviço da música. Tem uma coisa muito artesanal nesse processo, que se opõe à produção industrial da coisa”, explica o saxofonista.
Alexandre Gismonti, filho de Egberto, vai pelo mesmo caminho. No início dos anos 2010, o compositor, arranjador, doutor em performance musical e professor da Universidade Estadual de Minas Gerais recebeu um convite do próprio Manfred Eicher para gravar um disco, mas a carreira acadêmica falou mais alto.
“A ECM busca sempre promover uma experiência. A música é protagonista, é feita para ser ouvida como algo importante, em primeiro plano. É uma gravadora que tem um charme e não faz apenas um registro histórico: a ideia é que o artista recrie a partir da sua formação e tradição. A ECM está sempre apontando para uma recriação”, conta o músico.
Egberto Gismonti, aliás, é o brasileiro de maior destaque no catálogo do selo, com mais de 15 lançamentos. Seu primeiro disco foi Dança das Cabeças (1977), com Naná Vasconcelos, que também o acompanha em Sol do Meio Dia (1978) e Duas Vozes (1985).
“O Manfred é um produtor exigente, então é preciso muito conhecimento e capacidade de expressar isso através da arte para convencê-lo de que vale a pena lançar algo na gravadora dele. E no caso do meu pai e do Naná, há uma fusão de elementos, sempre com muita criatividade. É uma gravadora que preza pela criatividade e pelo embasamento. E sobretudo em relação ao Naná, há um embasamento de música africana, tradições indígena – ele refletia essas tradições ancestrais brasileiras”, reflete Alexandre.
Esse diálogo entre tradição e invenção também ajuda a entender o alcance do selo para além do jazz e da música instrumental. A ECM se tornou uma referência para diversos artistas, incluindo Seu Jorge. Mas, se por um lado, o impacto artístico se manteve perene ao longo do tempo, por outro sua presença no mercado fonográfico mudou com o tempo.
Nos anos 2000, com o avanço da digitalização e o colapso do modelo tradicional de gravadoras, a ECM resistiu aos streamings e disponibilizou seu catálogo nas plataformas digitais somente a partir de 2017, por meio de parceria com a Universal Music.
“As músicas são feitas cada vez mais rapidamente, e para estarem em segundo plano. Já a ECM sempre evitou colocar a música no lugar de um objeto de consumo descartável. Por isso não entrou de cabeça na digitalização, prezando pela qualidade e pelo seu protagonismo. Então, até hoje, vejo essa gravadora como algo à parte dentro da indústria”, aponta Alexandre.
Essa posição se sustenta, em grande medida, pela coerência do projeto que sempre esteve associado à Manfred Eicher, e que até hoje mantém uma lógica de trabalho contrastante com a fragmentação da produção musical contemporânea.
“Tem uma coisa um pouco centralizadora da parte dele, que mistura produção executiva com produção musical e artística. Mas isso é o que explica a unidade em caminhos musicais tão diferentes. Então tem, sim, essa força. É esse artesanato, que diz mais sobre como fazer do que sobre como soa”, completa Sagawa.
No final das contas, talvez o que a ECM tenha construído não seja exatamente um “som”, mas um modo de produzir e ouvir música. Mais do que um selo associado a uma época, a gravadora consolidou um modelo baseado em escolhas que privilegiam a escuta atenta aos detalhes.
















