
Você já parou para pensar sobre a ordem das músicas em um disco? Para nós, que ainda valorizamos o hábito de ouvir um disco completo, essa pode ser uma dúvida comum, especialmente ao se deparar com um álbum cuja ordem parece perfeita. A resposta é que sim, essa ordem é muito bem pensada, e os motivos, como apontam produtores, são diversos.
Liminha já contou em entrevistas que a ordem das faixas apresenta o universo, a narrativa que o artista quer passar — isso fica ainda mais claro em álbuns mais conceituais, que realmente parecem narrar uma história. Há também uma mística em torno da "terceira música" dos discos, que muitas vezes fica para o hit, como apontou esta matéria do G1 — é o caso de "Wonderwall", do (What's the Story) Morning Glory?, do Oasis.
No vinil, porém, há uma questão física que interfere nessa escolha. A posição de cada faixa no disco pode influenciar a maneira como ela será reproduzida. Fomos atrás do engenheiro de som do Noize Record Club, Joly, que nos contou melhor essa história.
A ordem das músicas faz diferença porque o vinil gira sempre na mesma velocidade, enquanto a circunferência percorrida pela agulha diminui à medida que ela se aproxima do centro. Isso quer dizer que, nos sulcos externos, há mais espaço físico para registrar as variações do áudio; nos internos, essas informações ficam mais comprimidas. O resultado é uma maior dificuldade para reproduzir determinadas frequências, especialmente os agudos, no fim de cada lado.
Por isso, a tracklist de um disco de vinil pode levar em conta as características das faixas. "Hits e músicas que necessitam do agudo, da definição completa, geralmente ficam nas bordas do disco”, resume Joly. Isto é, faixas mais rápidas, com muitos agudos ou que dependem de maior definição sonora, tendem a funcionar melhor próximas da borda, enquanto músicas mais lentas e suaves podem ocupar posições mais próximas do centro. Isso não significa, porém, que exista uma regra obrigatória para montar um disco: a narrativa, o gênero musical, a duração das faixas e as escolhas artísticas, hoje, pesam nessa decisão.
Outro fator a ser levado nessa equação é quanto tempo de música cabe em cada lado. Em termos gerais, cerca de 18 minutos por lado é uma referência que preserva boas condições de corte, embora o limite varie conforme o estilo musical e o material. Quanto mais áudio é comprimido no mesmo espaço físico, mais o engenheiro pode precisar reduzir o nível de corte, deixando os sulcos estreitados. Com menos volume, a diferença entre o sinal musical e o ruído de fundo do próprio disco também diminui. É por isso que alguns álbuns longos são divididos em LPs duplos: isso significa ter mais espaço para o corte e, potencialmente, mais liberdade para preservar a definição sonora.
No fim, ordenar um álbum para vinil é um exercício que mistura narrativa (e engenharia).





