
Esperanza spalding ousou e estudou português para regravar “Ponta de Areia” no disco Esperanza (2008). A versão do clássico do disco Minas (1975) foi um primeiro aceno da contrabaixista, cantora e produtora musical americana à obra de Milton Nascimento. Com cinco estatuetas do Grammy na prateleira, a artista soma dez discos na carreira e se tornou uma das responsáveis pela ventilação do jazz na última década.
A relação com o mineiro se estreitou ao longo dos anos e inclui grandes momentos, como a apresentação conjunta no Rock in Rio de 2011 e a participação na turnê de despedida A Última Sessão de Música, em 2022. A afinidade entre eles foi eternizada no disco Milton + esperanza (2024), indicado ao Grammy 2025 como Melhor Álbum Vocal de Jazz.
O projeto registra a amizade, a troca e o respeito mútuo: Milton sempre acolheu Esperanza e ela, de algum modo, conseguiu driblar as vergonhas de fã até transformar a relação em uma parceria musical. Para ela, tudo isso é muito sério, pois a instrumentista entende e celebra a importância de Milton, por isso mesmo, buscou deixar isso tudo claro enquanto ele está vivo.
Para qualquer estrangeiro, Milton Nascimento nasce primeiro em seu canto único. Eles não conseguem entender diretamente a importância de “Maria, Maria”, “Canção da América”, “Cais”, e muito menos as nuances sul-americanas de “Para Lennon e McCartney”. A islandesa Björk se apaixonou por Milton e se aventurou por uma regravação de “Travessia”, porém ela própria entendeu as nuances políticas e sociais dessa canção e decidiu não lançar o cover.
Nisso tudo, a gente se pergunta: como soa a sua música aos ouvidos de um estrangeiro? Seu som é jazz, emana sua paixão pelos Beatles, mas ainda é fruto da bossa nova, é nascente de uma ancestralidade afro-brasileira e floresce a partir dos sons das manifestações populares mineiras. É muita coisa. Além de Björk, nomes como Paul Simon, Herbie Hancock, Earth, Wind & Fire, Duran Duran e tantos outros já falaram de sua admiração por Milton.
De todo modo, são poucos os que podem dizer que têm uma amizade com ele, tal qual a esperanza spalding. Milton sempre foi extremamente reservado sobre sua vida pessoal, mesmo assim é claro para o público a sua relação de carinho e confiança na musicista. Durante sua turnê no final de setembro, conversamos no camarim com a cantora, que lembrou do momento em que se apaixonou pela música brasileira e os bastidores da criação do último disco.
Há mais de uma década, você se apresenta ao público brasileiro. Como essa relação mudou após lançar o disco com Milton?
Quando fizemos o disco, eu sabia que não faríamos uma turnê. Então, tive que me preparar para que o álbum fosse um objeto por si só, não seria acompanhado por shows. Mas, claro, sinto que, quando chegamos no Brasil, tivemos que tocar algumas músicas desse disco. E é como se o público preenchesse o espaço. Como se o público fosse o Milton neste caso, porque eles estão cantando comigo, sabe? E isso foi realmente lindo! Ainda acho surreal ter feito o álbum com o Milton. Eu só quero honrar sua música e seu legado.
No show em São Paulo, você abriu a noite com uma homenagem a Hermeto Pascoal. Como você foi influenciada pela música dele?
Nossa, não sei se a música é uma referência, mas a liberdade é uma referência. A devoção absoluta – e sem remorso – é uma referência. Estudei a música dele, mas não posso dizer que a música dele tenha se infiltrado na minha. Muitos de nós o vemos como um exemplo de alguém que realizou todas as dimensões do seu potencial musical, alguém que mergulhou com todo o seu ser no som e na imaginação. O som que ele podia ouvir no cosmos e trazê-lo através da música. Eu simplesmente o admiro profundamente e me sinto muito triste com a sua partida.
Como surgiu a sua paixão pela música brasileira?
Lembro de ouvir João Gilberto na adolescência, mas não sabia que ele era brasileiro, apenas fui afetada por aquilo. Depois disso, alguém me deu uma coletânea de músicas do Brasil. Do norte, do sul, do Rio, da Bahia… E eu curtia muito aquilo. Tinha um pouco de Dorival Caymmi, tinha um pouco de Pixinguinha, Hermeto Pascoal, Eliane Elias e Rosa Passos. Mas não tinha nenhum Milton. Eu só soube dele depois.
Você se lembra da sensação que teve na primeira vez que ouviu Milton Nascimento?
Claro. Acho que é como todo mundo se sentiu. É como se você saísse desta realidade para outra realidade que existe no som da voz dele.
Eu nunca esqueci de um vídeo desses de bastidores, em que você está numa van com o Milton e ele conversa com você com carinho, enquanto segura a sua mão. Com as mãos dadas, é como um gesto de afeto e segurança. Essa imagem me tocou muito pela beleza da amizade. Como foi passar de fã a uma parceira e amiga?
Ainda sou uma superfã. É absurdo! É, eu não sei como é essa transição porque estou vivendo isso agora.
Quando estávamos fazendo o álbum, todo o meu cérebro, coração e espírito estavam 1000% focados em fazer a coisa certa por essa pessoa.
O que eu também sabia significar ser autêntica comigo mesma. Porque eu não posso fazer outro disco do Milton. Tinha que ser ele e eu. E então foi muito desafiador honrar a minha voz. Quero dizer que tenho uma voz bastante particular de produtora. E imaginei que esse era o convite. Não para tentar fazer um disco do Milton. Mas para fazer algo novo a partir do nosso encontro. E digamos que naquele momento eu nem sabia como era isso. Enfim, cada grama do meu corpo estava sendo usada para permanecer na focada. Além disso, o Milton é engraçado e único. Sinto que toda vez que eu ficava muito séria ou muito rígida no meu chapéu de produtora, alguma coisa acontecia para me lembrar de que a gente deveria se divertir.
Quando surgiu o projeto de gravar o disco?
No final de 2022, o filho dele [Augusto Nascimento] me perguntou se eu produziria o próximo disco dele. Eu estava – aquele vídeo que você mencionou, na van –, estávamos viajando de Nova York para Boston como parte da turnê de despedida. Eu seria a convidada em Boston. E então, na noite anterior ao show, eu estava comendo uma coisinha. O diretor musical dele, Wilson, estava lá; e o filho dele também. Augusto me disse “quero que você produza o próximo disco do meu pai; e será ele e você”. E eu disse “ok!”. O que você pode dizer? O que se diz nessa hora?
Como foi o processo de trabalhar ao lado dele durante a criação do projeto? Tem histórias especiais desse processo?
Sim, um milhão de histórias. São tantas histórias. Eu nem sei.
Todos os dias, aconteceram coisas especiais. Sabe, em um momento estávamos no estúdio ensaiando algo com o Guinga e o Gilberto Gil entra. E, sabe, percebemos “ah, eles são só amigos”.
Entende o que eu quero dizer? Tipo, isso não é grande coisa para o Milton. Não é grande coisa para o Gilberto Gil. Eles ficam tipo “ah, oi”, “oi, e aí, como vai?”, mas todo mundo no estúdio tentava recuperar o fôlego só com a presença deles. Eu também penso em algumas suposições que as pessoas têm, e que eu tinha no começo – mas não tenho mais sobre o Milton. Como ele é mais velho, de algum modo eu imaginei que levaria mais tempo para ele aprender certas coisas. Ou talvez ele precisasse de mais prática, algo assim. E quando estávamos trabalhando na música do Guinga, “Saci”, eu estava tentando ser bem cuidadosa: “ah, Ginga, você pode tocar essa frase de novo?”.
E o Milton só disse “entendi”. Como se ele dissesse “estou tranquilo”. E eu fiquei tão impressionada vendo ele aprender aquela música. Ele segue altamente treinado, estudado e experiente. O artista ainda está lá. Sabe, ele soa um pouco diferente. Ele parece um pouco diferente. Ele está mais velho, mas ainda assim ele estava tão presente. Um músico completamente entregue ao processo.
Um dos momentos mais bonitos do disco está na releitura de “A Day In The Life”, dos Beatles. Como foi o processo de escolha do repertório?
Bem, ele queria fazer uma música dos Beatles. Ele tinha isso em mente, mas não lembrava o nome. E nós demos uma olhada no livro de letras do John Lennon e Paul McCartney. Eu lembro dele folheando página por página. E foi ótimo vê-lo recontar as histórias de cada música – ele conhecia todas elas. Ele sabia coisas específicas: “ah sim, eles escreveram essa, mas na verdade foi o John Lennon quem escreveu aquela parte primeiro; então o Paul fez tal coisa”. Ele sabia toda a história de todas as músicas. E finalmente percebemos que a música que ele queria fazer era "A Day In The Life". E essa foi a única música para a qual eu não preparei um arranjo. Fomos ao estúdio, descobrimos a tonalidade dele e simplesmente juntamos tudo. Todos nós no estúdio. E acho que é por isso que ela tem uma energia diferente.
Para encerrar, qual é o seu disco preferido?
Nossa, essa tarefa é impossível. Escolho todos eles, ouçam tudo!










