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Continentino: do jazz à nova MPB, a história da família que estampa fichas técnicas renomadas


Por:

Guilherme Serrano

Fotos: Divulgação

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A ficha técnica de Afim (2025), de Zé Ibarra, tem um sobrenome que chama a atenção: Continentino. Ele pertence a Alberto, baixista, e a Jorge, saxofonista e flautista do Copacabana Horns. Irmãos, trazem no sangue a conexão com a música.

Essa herança é compartilhada com Kiko, pianista do Azymuth desde 2015 e parceiro de Milton Nascimento, Chico Buarque, Fernanda Abreu e Elza Soares. Nascido em 1969, ele tem cinco anos a mais que Jorge e nove a mais que Alberto. 

Os três são filhos de Mauro Continentino, pianista, compositor, arranjador e ex-proprietário do Pianíssimo Studio Bar, em Belo Horizonte, importante ponto de encontro da cena jazzística mineira da década de 1980. Regina Vidal é mãe de Kiko e Jorge. Já Alberto é fruto do casamento de Mauro com Marisa Gandelman, pianista e educadora musical, e irmã da oboísta Lia Gandelman e do saxofonista, arranjador, compositor e produtor Leo Gandelman. Desse lado da família, são herdeiros do músico Henrique Gandelman e Salomea Gandelman, pianista erudita, cofundadora da Pós-Graduação em Música da Universidade do Rio de Janeiro (Uni-Rio) e detentora de uma cadeira na Academia Brasileira de Música. 

“Como o Gilberto Gil diz: ‘ela, eu vivo o tempo todo pra ela’. Música não é o que nós somos, mas é o que nós fazemos. Ela nos une”, conta Jorge. A trajetória da família teve o Pianíssimo de pano de fundo: Kiko tocava todos os dias lá, já Jorge teve contato com o saxofonista Nivaldo Ornelas, e Alberto acompanhava tudo de perto. 

“Como o bar era voltado ao jazz, para além da música ao vivo, se escutavam muitos discos. Por isso, ouvia mais jazz, do que a rádio, então perdi esse momento musical dos anos 1980 e precisei correr atrás", lembra Alberto. O irmão comenta como era o clima dentro de casa: “Meu pai era radical. Tinha coisas que não eram permitidas, ele não deixava ouvir. Mas esse radicalismo me trouxe referências que eu acho que não teria acesso de outra forma: JJ Johnson, Dexter Gordon, Phil Woods pra caramba". 

Além da intransigência quanto aos ritmos, o ambiente familiar se mostrava rígido na própria prática musical, como o saxofonista divide: “A Marisa foi a minha primeira professora de piano e sempre me cobrou muita disciplina. ‘Você quer fazer isso? Então vai fazer direito’. Eu carrego isso até hoje”. No futuro, ele estudaria com o pianista, compositor e arranjador húngaro, Ian Guest. 

O caçula seguiu o mesmo caminho, mas ainda teve experiências ainda mais extremas: “Um professor de violão me repreendeu falando que a gente não deveria tocar jazz, mas música clássica e música brasileira pré-bossa nova, porque até isso ele era contra”. 

No entanto, a influência de Regina arejou a formação dos garotos. Por lá, se escutava o que o pai não deixava, como Beatles e Led Zeppelin, mas também Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gilberto Gil. “O Jorge trazia fitas cassete quando ia pra casa dela, a gente ouvia de canto, curiosos por aquilo. Era uma coisa nossa, o nosso pai não gosta de rock", completa Alberto. 

Na adolescência dos garotos, enquanto dividiam a beliche e as descobertas musicais, Kiko morava em Niterói e integrava a banda de Cláudio Zoli e Djavan. Foi nesse período em que decidiram montar uma banda de jazz, junto do pianista David Feldman e do guitarrista Bernardo Bosisio. 

No entanto, o grupo não engrenava, e o problema parecia estar no grave, como conta Jorge: “O Fernandinho de Souza, que foi um dos maiores baixistas do Brasil, tocava com o tio Leo e vivia lá em casa. Um dia ele apresentou o baixo pro Alberto, que se apaixonou. Aí o baixista ruim da nossa banda dançou". 

O momento abriu as portas para o futuro do músico: “eu já usava o dedão para tocar o som do baixo no violão. Quando peguei o baixo, tive uma sensação maravilhosa, foi o ponto de virada para me tornar baixista". O irmão do meio também mudou de ideia ao longo do caminho, depois do piano, passou para o trompete, clarinete até chegar no saxofone. 

Em geral, domina instrumentos de sopro e palhetas, além das flautas. “Toquei com a Sandra Sá aos 18 anos e o diretor musical perguntou se eu tocava flauta. Disse que sim, mas não tinha o instrumento. Na verdade, eu até já tinha soprado, mas não dominava. Então, ele me disse pra eu aparecer com a flauta no dia seguinte. Foi o que eu fiz – e já cheguei tocando!”.

À medida que se tornavam cada vez mais profissional, os irmãos soltaram as amarras do jazz e se distanciaram da visão de mundo paterna .“Muitos artistas que, pela cabeça radical do meu pai, eu achei que não tinha nada a ver comigo, cruzaram no meu caminho e eu achei super legal. Às vezes você vai parar em um universo que você jamais pensou ir, e em vez de criticar, se junta e aprende o que há de bom naquilo”, reflete Jorge, que já tocou com Norah Jones, Maria Bethânia, Skank, Marisa Monte e tantos outros. 

O baixista concorda, cruzar fronteiras é preciso para sair do ninho: “Aprendi mil escalas de bebop, improvisação e jazz, mas deixei isso um pouco de lado para me adaptar. Cada trabalho me influenciava e fui aprendendo coisas novas”. Aos 18 anos, gravou no disco Nascimento (1997), de Milton Nascimento, e trabalhou com Pepeu Gomes, Beto Guedes e Adriana Calcanhotto. 

Inclusive, a ligação de Bituca com os irmãos Continentino vem sendo construída há décadas. O Bena Lobo, filho do Edu, se amarrou nos músicos e queria incluí-los na banda do artista: “Ele me chamou pra gravar o disco, depois o Kiko substituiu o pianista Hugo Fatturoso. Na última turnê, em 2022, o saxofonista saiu e o Jorge fez os shows". 

Em paralelo, o trio se uniu no ContinenTrio, que inclui um álbum homônimo de 2003. A bateria ficou com André Queiroz, o Limão, que é praticamente um quarto Continentino. Paralelamente, cada um desenvolveu a sua carreira solo: Kiko lançou O Pulo do Gato (2001), Jorge apresentou Portrait (2005) e Entre O Sol E O Sonhar (2025), e Alberto conta com O Som dos Planetas (2015) e Cabeça a Mil e o Corpo Lento (2025). 

Ainda assim, em meio a tantos projetos, os encontros entre eles seguem acontecendo, como em “Brain Coral”, single de Jorge em 2022. Essa faixa tem ainda a mão do baterista Felipe Continentino, primo que mantém o legado musical na nova geração. 

Seguindo a tradição de quando dividiam a beliche, o baixista e saxofonista continuam próximos. Além de tocarem com Caetano Veloso, se apresentaram com o Bala Desejo e gravaram com Dora Morelenbaum, Julia Mestre e, claro, Zé Ibarra. Inclusive, o Copabacana Horns, de Jorge, Diogo Gomes no trompete e Marlon Sette no trombone, foi forjado junto com o grupo carioca.  

“Isso é uma brincadeira! Nós temos um grupo no WhatsApp, e o Marlon botou esse nome, que é uma coisa bem pra gringo. Não temos nada de Copacabana, ninguém nem é de lá. Mas a turma do Bala adorou. O Zé creditou a gente assim e a galera está começando a adotar”, explica o artista. 

Criados no berço do jazz e moldados pelos mestres da MPB, eles conectam o passado e o futuro da música nacional. Entre estúdios e palcos, os irmãos atravessam estilos com a naturalidade de quem cresceu acompanhado de discos. Como manter o frescor no ofício? “A música é uma entidade por si própria. Quando é verdadeiramente Ela, com letra maiúscula, e não um business. Esse é o verdadeiro elo: a música”, reflete Jorge.

Já Alberto continua com os olhos brilhando com a mesma intensidade da infância: “O que mantém tudo isso é a paixão, que no meu caso, segue igual de quando eu era criança. Vejo isso até hoje na minha avó Salomea, que aos 95 anos continua indo atrás de ouvir e descobrir coisas. A melhor coisa que existe é a música. Botar um som pra ouvir, pra mim, é a cura”. “Você vai parar em um universo que você jamais pensou ir, e em vez de criticar, aprende o que há de bom naquilo”, diz Jorge Continentino.

Por:

Guilherme Serrano

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