
Antes de entrar para a história do metal, a pintura de Michael Whelan estava em estantes de ficção científica das livrarias. Nascido em 1950 na Califórnia e formado em Pintura pela Universidade Estadual de San Jose, o americano passou mais de três décadas ilustrando capas de livros de Stephen King e H.P. Lovecraft com suas imagens calcadas no que ele chama de "realismo imaginativo". Foi esse universo de crânios e paisagens fantasmagóricas que chamou a atenção de Max Cavalera no fim dos anos 1980. O resultado foi quatro das capas mais marcantes do Sepultura: Beneath the Remains (1989), Arise (1991), Chaos A.D. (1993) e Roots (1996).
Antes dos shows de despedida da banda, que acontecem em São Paulo no Cine Joia (5/11) e o grand finale no Suhai Music Hall (7/11), vale dar o play nos álbuns marcantes de uma das maiores bandas de metal do mundo - e aproveitar para apreciar suas capas.
Beneath the Remains (1989)
Max Cavalera conheceu o trabalho de Michael Whelan quando passeava por uma livraria em Belo Horizonte, na época da produção do Beneath the Remains, quando a banda já tinha contrato com a Roadrunner. Ele mostrou a arte Lovecraft's Nightmare B para a banda, que gostou tanto que mandou a imagem para a gravadora, sugerindo que fosse a capa do novo disco.
O banho de água fria veio depois: a gravadora não só vetou a escolha, como ainda ofereceu a arte ao Obituary, que a transformou na capa de Cause Of Death (1990). Para compensar, a Roadrunner enviou ao Sepultura alguns trabalhos de Whelan para que eles escolhessem a nova capa. A escolhida foi a hoje clássica Nightmare in Red.
Arise e Chaos A.D.

Dessa vez, em Arise, Michael fez uma arte exclusiva para o disco. O artista conta ao escritor Vinicius Castro que primeiro desenhou alguns pequenos rostos distorcidos. Depois, fotocopiou, recortou e recombinou esses desenhos, um método que repetiria em Chaos A.D.
Já no Chaos A.D., Michael trabalhou diretamente com os integrantes do grupo no processo criativo. A banda passou as ideias ligadas ao disco, e o artista criou uma figura envolta por um saco, cercada por elementos tecnológicos. Para a produção, usou fotocópias, anúncios, jornais e outros materiais, degradando-os e transformando os recortes em uma colagem. O artista disse que se inspirou, sobretudo, na faixa "Biotech Is Godzilla".
Ele contou em depoimento a Vinicius Castro, para o Livro do Disco de Chaos A.D.:
“Quando soube detalhes sobre o disco e as ideias que eles tinham para a capa, fiquei ainda mais interessado em trabalhar com a banda.”
A pintura se chama Cacophony. Whelan conta que a imagem surgiu na cabeça dele numa noite em que estava preso numa sala lotada e barulhenta.
Brasileiro raiz
Já para Roots, Max mostrou a Whelan uma nota de mil cruzeiros. A partir da imagem de uma mulher indígena Karajá presente na cédula, o artista criou a composição e acrescentou a tonalidade vermelha ao símbolo do Sepultura, fugindo do verde e amarelo clichês que remeteriam à bandeira brasileira. O resultado reforça a busca do disco pelas raízes nacionais e casa com a proposta calcada na percussão brasileira, com direito à participação de Carlinhos Brown.
Mesmo se tornando a capa mais presente no imaginário — e nas camisas — dos fãs, Michael conta que não ficou tão satisfeito com o processo. Em entrevista à Revolver, ele disse que se apoiou demais no computador e que deveria ter pintado a capa a óleo. Pra completar, o computador ainda pifou no meio do processo.
De todo modo, esse foi um trabalho emblemático: a última capa de Michael para o Sepultura, no último disco com participação de Max.
Outras capas marcantes
Com a saída de Max, em 1996, e de Iggor Cavalera, em 2006, a parceria com Whelan ficou para trás. Com Derrick Green nos vocais, a banda lançou nove discos, de Against (1998) a Quadra (2020). As capas desse período também merecem menção honrosa.
É o caso de Machine Messiah (2017). Criada pela filipina Camille Dela Rosa, a obra já existia antes do disco: Deus Ex Machina tem inspiração steampunk e foi feita em 2011. A imagem combina com o conceito do disco, que, segundo a banda, nasceu da automatização da sociedade atual: como se o messias voltasse em um robô.
Outra capa emblemática é a de Quadra (2020), dessa vez, com assinatura de um brasileiro,: Christiano Menezes, artista por trás da editora DarkSide Books. O conceito do disco gira em torno do número 4, e o título brinca com os sentidos da palavra “quadra”.

Durante o lançamento do disco, a banda explicou que a quadra tem essa ideia de área limitada, com demarcações, onde o jogo acontece segundo um conjunto de regras. A moeda no centro da capa representa o dinheiro e a busca incessante por ele.
Essas obras, juntas, ajudam a contar uma história visual e complexa como é a trajetória do Sepultura ao longo dessas décadas: do terror das capas de livro dos anos 1980 à crítica à máquina e ao jogo do dinheiro. Quando a banda deixar o palco, no sábado (7/11), é também nas capas que essa trajetória vai permanecer.









