
O calor de 40 graus, as praias lotadas e o hedonismo tropical costumam dominar o imaginário do Rio de Janeiro. Em Faz Frio Mas É Verão (2026), lançamento do selo Outra Música (espécie de filho do Festival Novas Frequências) que chegou às plataformas no final de setembro, o rapper paulista Edgar e o duo carioca de produtores Os Fita (Abel Duarte e Cainã Bomilcar) subvertem esse clichê. O resultado é um disco tenso, neurótico, urbano e distópico, que promove uma colisão frontal entre a lírica afiada do rap e as texturas das pistas de música eletrônica global, englobando jungle, garage, footwork e funk carioca.

A colaboração, que teve seu embrião na faixa “Incapturável”, de 2024, floresceu ao longo de dois anos de imersão. “Para mim, quando Edgar e Os Fita se posicionam, é como se cada um fosse uma avenida com seu caminho, mas que se cruzam. Esse disco é uma encruzilhada”, define o próprio Edgar. Com as vozes sendo moldadas pelo clima frio que tomou a cidade durante o processo de composição, o álbum constrói uma paisagem onde a paranoia, a festa e a violência coexistem.
A seguir, Edgar, e Abel e Cainã – Os Fita – desmembram as histórias, os delírios e os bastidores de Faz Frio Mas É Verão. Leia e ouça faixa a faixa:
“AR CONDICIONADO”: A faixa de abertura funciona como uma credencial estética do projeto, unindo a pesquisa de sound design d'Os Fita com o rap torto de Edgar. “É a porta abrindo”, resume o rapper. O instrumental constrói um aquecimento gradual, quase simulando o colapso climático, até desaguar no peso da pista. “A gente construiu um disco um pouco de trás para frente. Ela foi a última faixa que surgiu e vem com toda a carga do que a gente já tinha produzido, pegando o clima de aquecimento global para abrir as portas da pista”, detalha Cainã.
“BONDE MACONHA DINHEIRO” (feat. Jup do Bairro)
A zoeira, o humor e o clima de baile tomam conta da faixa. Jup do Bairro entra costurando uma narrativa que muda o rumo da faixa. “A Jup é foda, um monstro do entretenimento e da comédia no Brasil. Ela pegou a narrativa e criou um storytelling perfeito para o refrão”, elogia Edgar, que confessa ter reescrito seus próprios versos após ouvir a gravação da cantora. Cainã conta: “Depois que ela escreveu, a gente rachou o bico e ele teve que canetar a parte dele de novo. É a música que mais tem essa coisa da festa coletiva no disco”.
“FAZ FRIO MAS É VERÃO” (feat. Ana Frango Elétrico e Kiko Dinucci)
A faixa-título subverte a tradição carioca e nasceu de um improviso ao vivo em um show. O que era um instrumental com samples de música brasileira e levada footwork ganhou saxofone ao vivo e, no estúdio, virou uma "atualização esquisita da bossa nova". O refrão irônico surgiu quando Cainã provocou Edgar a improvisar no microfone. “Lembrei de quando eu brincava de tocar umas bossas novas bem ruins com meus amigos em São Paulo, cantando 'o barquinho no mar, o menino com o oitão na mão', e soltei aquilo”, ri Edgar. A faixa atinge seu ápice com os convidados: Ana Frango Elétrico traz um carisma pop e seguro aos vocais, enquanto as guitarras sofisticadas e virtuosas de Kiko Dinucci (“que às vezes nem parecem guitarras”, segundo Abel) envelopam o delírio.
“CASACÃO E BERMUDINHA” (feat. Crizin da Z.O.)
Um olhar cru para a estética contemporânea e periférica do Rio de Janeiro, ditada pelo verso de Crizin da Z.O., nome central do underground carioca. Gravada no estúdio de Abel – curiosamente montado no mesmo quarto onde Edgar morou quando se mudou para o Rio –, a música narra o choque térmico e cultural da metrópole. “É uma aula de literatura contemporânea. O Crizin cita Tigrinho, usa estrangeirismos e fala sobre a moda de inverno no Rio”, aponta Edgar. Abel complementa: É onde a gente acaba vendo essa exuberância misturada com a violência”.
“ENGENHEIROS DO APOCALIPSE”
A gênese do álbum. Originalmente um rascunho com samples que os produtores enviaram para Edgar, a faixa passou por uma mutação drástica inspirada pelas texturas de JPEGMafia. “Quando dobramos o andamento da bateria, o jungle rolou ali e melhorou mil vezes”, conta Cainã. Para Edgar, o processo reflete a imprevisibilidade de trabalhar com a dupla: “Produzir as coisas com Os Fita é como cuidar de um Pokémon, o bagulho evolui do nada. Eu me assusto quando vou escutar de novo porque vira outra música”.
“TENSO SEM TAMBOR”
O ponto de inflexão e o momento mais visceral do disco. Flertando diretamente com a sound art e esquivando-se das estruturas pop convencionais, a faixa abandona o ritmo tradicional. “Para mim, é a música mais experimental do disco. Ela te teletransporta para uma sala ambiente de esquizofrenia. Tem uma energia pesada de cobrança, uma narrativa quase thug life”, explica Edgar, demarcando o momento em que a distopia do álbum mostra seus dentes.
“PRÍNCIPE CRIA”
A melancolia de um inverno no Leblon serve de pano de fundo para uma análise ácida sobre apropriação cultural e desigualdade. À medida que o arranjo ganha contornos dramáticos e o autotune de Edgar escurece a voz do narrador, a letra disseca o playboy da Zona Sul que emula a estética das favelas. “O disco tem esse desejo de falar do Rio invertendo os clichês. É sobre esse personagem numa cidade com um abismo social escancarado, que incorpora a linguagem da periferia como um signo da cultura carioca atual”, analisa Abel.
“ME DEIXA EM PAZ”
O caos de um pré-carnaval carioca encapsulado em batidas urgentes e neuroses urbanas. A faixa começou com um instrumental minimalista, mas a performance de Edgar no estúdio exigiu uma virada de rota na produção d'Os Fita. “A gente sentiu que o beat precisava de uma energia mais caótica para acolher a energia do grito de 'Me Deixa em Paz' e todo o peso da letra”, detalha Abel. Para o rapper, a música traduz a tensão pendular e magnética da cidade: “É naturalmente uma segunda-feira no Rio de Janeiro na visão de um gringo querendo ir para a Pedra do Sal. É uma parada sedutora, mas também perigosa e divertida. Tem essa atitude punk”.
“POPÓ MATOU BAMBAM” (feat. Tantão)
Um reencontro catártico com o lendário Tantão, antigo parceiro d'Os Fita. A faixa nasceu de uma jam session e traz uma base fortemente influenciada pelo garage e house music. O refrão em inglês cômico de Edgar (“Sun, I need more sun / take a weed, going on the beach”) encontrou eco nas gravações de Tantão, que construiu uma poesia como o sol. “O Tantão ficou falando do apagamento do sol. Juntou o assunto solar com a pista”, explica Abel. Batizada em homenagem à luta relâmpago entre o boxeador e o ex-BBB – que durou exatos três minutos, o mesmo tempo da música –, a colaboração sela o caráter urgente e inusitado do projeto.
“GELO DENTRO”
A faixa que encerra a jornada distópica funciona como um laboratório rítmico sobre as mutações do reggae na música eletrônica global. Curiosamente, a faixa já se chamava "Gelo Dentro" muito antes do disco ganhar o título de Faz Frio Mas É Verão – uma profecia acidental que amarrou o conceito do álbum perfeitamente. “É quase um estudo de como transitar por esses gêneros que dialogam com o reggae, do dub ao dubstep”, explica Abel. Com versos em inglês e extensas camas instrumentais, Edgar aproveita o terreno para expandir a cadência jamaicana que já explorava em lançamentos solo (como o seu último álbum "Rewind"). O resultado limpa as texturas ruidosas do disco para desaguar em uma catarse de dubstep.






