20 anos de “Brasilintime”: o encontro do hip-hop com o groove brasileiro


Por:

Peu Araújo

Fotos: Brian Cross

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Um emaranhado de equipamentos se amontoam no pequeno palco do Urbano, antiga casa de shows em São Paulo. Quatro bateristas, dois percussionistas, quatro DJs e uma SP-303 (uma máquina de sample digital) disputam um espaço sonoro totalmente caótico. Não tem ensaio, não tem massagem, não tem alívio.

O público daquela segunda-feira, 25 de novembro de 2002, não sabe o que esperar; os músicos em cima do palco também não; o operador de câmera não faz ideia do que vai acontecer. Uma noite mágica. E lá pras tantas, quando o suor já escorria no rosto, João Parahyba, lendário instrumentista do Trio Mocotó e presente em álbuns clássicos da discografia nacional, anuncia: 

“Alô?! Senhoras e senhores. É com muito prazer, muita honra que eu tô realizando um sonho de apresentar um dos maiores bateristas da história do Brasil… Wilson das Neves.”

Das Neves, ritmista de alto calibre, começa devagarinho. Baqueta batendo de lado na caixa, abaixando a intensidade. Ele, que participou de mais de 800 gravações em toda a carreira, ganhou a vida sendo baterista de meio mundo, entre eles Elis Regina, Tom Jobim, Chico Buarque e Paulo César Pinheiro, vai ganhando intensidade, ganhando intensidade até capturar todo o público num samba sincopado. Seu Wilson se foi em agosto de 2017, aos 81 anos. 

Mas junto dele, nesta gravação, estão Ivan Conti Mamão, outra lenda da bateria brasileira, integrante do trio Azymuth, que infelizmente partiu em abril de 2023, aos 73 anos, João Parahyba, James Gadson, Paul Humphrey, Derf Reklaw. Além de Madlib e os DJs Nuts, Babu, J. Rocc e Cut Chemist.

Toda essa loucura faz parte do documentário Brasilintime: Batucada com Discos, um filme dirigido por Brian Cross, o B+, que é o autor da belíssima foto de capa que estampa o disco The Other Side, do Seu Jorge, lançado pelo NRC. 

Aos 60 anos, ele é diretor, professor e um dos mais icônicos fotógrafos do rap americano. Já clicou nomes como Eazy-E, Ice Cube, J. Dilla, Dr. Dre, The Pharcyde, Kendrick Lamar, Fugees, Cypress Hill e, claro, Madlib. É responsável também por fotos de capas icônicas de discos como Quality Control (2000), do Jurassic 5; Endtroducing (2005), do DJ Shadow; ou o Acústico (2004) do Marcelo D2. 

O irlandês de Limerick fala sobre o filme que completa este ano duas décadas de lançamento: “Aquele foi um momento mágico, mas existem muitos momentos mágicos assim. Eles estão acontecendo o tempo todo, mas foi realmente impressionante. Houve coisas que aconteceram naquela viagem que, eu acho, pra quem estava prestando atenção, pra gente, dava pra sentir as coisas realmente mudando em tempo real”.

Um desses exemplos foi a viagem, em muitos sentidos, particular que o produtor e rapper Madlib encarou o processo. “A gente ia tocar na terça-feira e o Madlib foi um dos últimos a chegar, ele chegou na quinta. Mas quando a gente foi buscá-lo no aeroporto, ele não tinha nenhum disco. E ele ainda não tocava com CDJ, então não era assim, sabe… Aí eu fiquei tipo: ‘cara, cadê seus discos?’ E ele só disse: “relaxa, vou comprar uns discos.”

Brian conta que Madlib, que nunca tinha estado no Brasil antes, foi para as lojas de disco rechear seu case, inclusive as cenas em que ele aparece ao lado dos outros produtores na Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, é um de seus diggins para a apresentação que aconteceria dali a dois ou três dias. 

“Para o Cut Chemist, Babu, J-Rocc já era um grande acontecimento. Mas para o Madlib era um grande acontecimento mesmo. Aí, na terça à noite, no Mood (que ficava na Rua Teodoro Sampaio, também em Pinheiros) ou segunda, sei lá, o clube estava simplesmente lotado, mas lotado daquele jeito que só brasileiro consegue encher um lugar", ele lembra.

"E aí ele sobe ao palco e a gente estava pensando ‘que porra ele vai tocar?’. Aí ele coloca um negócio tipo Gal Costa e foi simplesmente chocante, surreal. A galera estava chorando, as mulheres gritando como se fosse os Beatles. Quer dizer, o cara tinha uma presença absurda e ele simplesmente chegou ali, comprou aquele disco que ele nem conhecia direito, foi pro clube e tocou.”

Agora voltemos àquele momento lá do começo do texto em que o Wilson das Neves começa a tocar. Brian lembra que o veterano baterista estava um pouco inseguro antes dos primeiros toques na caixa. “O Mamão me contou uma história que ele, pouco antes de começar, perguntou: ‘mas como é que eu vou fazer?’.”

Depois de algumas palavras de incentivo, como um “relaxa, só vai”. Das Neves soltou o braço e entrou em cena para um momento catártico da música e do audiovisual.

A câmera íntima (como são suas fotos) fazem de Brasilintime: Batucada com Discos um clássico, um zeitgeist que registrou um momento de muita inquietude criativa e tesão em realizar. Um filme que vale a pena. Aliado a isso, a catarse do show com todos os músicos no palco, misturando DJs jovens, músicos da velha guarda, um trançado complexo de experiências, técnicas, vivências, vidas completam o combo do sucesso. 

“É, aquela noite foi muito importante, foi um momento em que algumas pessoas, de repente, passaram a encarar a música de um jeito um pouco diferente, a pensar nela como sendo delas.”

O filme completa 20 anos, o show vai fazer 24. É importante dar um panorama de como era a vida no início dos anos 2000. O acesso à internet começou a ser mais democrático, apesar de ainda não ser tão indiscriminado como nos dias atuais. Os acessos à programas e plug-ins estavam engatinhando, mas passaram a se tornar uma possibilidade real. 

Brian também fala deste contexto. “Naquele momento tanto a música eletrônica quanto o hip-hop eram muito cheios de teclados, muita coisa, uns jazz meio malucos, mas acho que a expansão dos horizontes fez as pessoas começarem a pensar na música como algo com muitas possibilidades. Tipo, não precisa ser uma coisa só. Não precisa ser tudo super controlado, tudo no tempo certinho. Pode ser qualquer coisa. Pode ser realmente qualquer coisa.”

Ele complementa. “E acho que essa foi a beleza, de verdade, do [João] Parahyba, do Mamão, do Nuts… essa coisa de simplesmente dizer: ‘foda-se, vamos lá’.”

Ao ser perguntado sobre a possibilidade de um Brasilintime: parte 2, Brian responde. “É muito difícil imaginar agora porque, no fim das contas, a internet mudou tudo", mas ele fala de algumas cidades musicais que o encantam, como Recife, Belém e São Luís.

Por:

Peu Araújo

Fotos: Brian Cross

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