arto lindsay (banner) (1)

Como a banda Ambitious Lovers, de Arto Lindsay, foi parar em um filme de Luca Guadagnino 


Por:

Amanda Cavalcanti

Fotos: Divulgação/Jorge Bispo

COMPARTILHE:

Na introdução de seu livro sobre a banda de rock progressivo Yes, Structure and Vision in Progressive Rock (1998), o filósofo e crítico cultural Bill Martin comenta sobre a origem do termo "pop experimental" que, ele admite que soa oximorônico. Sua existência, no entanto, depende de três fatores básicos: que a música seja enraizada em formas populares já existentes, que ela estique essas formas "o máximo possível", e que os autores queiram não apenas experimentar com ritmos já estimados, mas que a audiência desses ritmos os acompanhassem. 

Dando uma escutada nos álbuns do duo nova-iorquino Ambitious Lovers, fica claro que eles pretendiam fazer exatamente isso: partindo das já conhecidas formas do pop dos anos 1980, do funk americano e do samba e bossa nova, a dupla levou seus ouvintes a outros extremos desses gêneros. 

Esticar o convencional não era nada de novo para Arto Lindsay, fundador, vocalista e guitarrista do Ambitious Lovers. O norte-americano que cresceu em Garanhuns, no Pernambuco, deixou sua marca em alguns dos álbuns mais populares da música brasileira nos anos 2000 – um deles é Memórias, Crônicas e Declarações de Amor. Mas, antes disso, o músico já tinha feito seus próprios experimentos à frente do microfone.

O primeiro deles foi o DNA, banda famosa por ter integrado a cena de no wave de Nova York nos anos 1970 – ao lado do Contortions, de James Chance, e do Teenage Jesus and the Jerks, da Lydia Lunch, eles apareceram na celebrada coletânea No New York, compilada por Brian Eno em 1978. No DNA, a guitarra barulhenta de Lindsay e seu canto de palavra-falada eram centrais àquele som que rejeitava o som comercial da new wave. 

O Ambitious Lovers, que surgiu um ano depois da dissolução do DNA, ia por um lado aparentemente mais doce. Mas o objetivo, segundo Lindsay, sempre foi a ambiguidade. "Eu cresci escutando a música pop dos anos 1960, que era ao mesmo tempo popular e experimental. Você pensa em Hendrix, em alguns aspectos do tropicalismo, muita coisa", diz. 

O próprio nome Ambitious Lovers carrega, em si, uma ambiguidade entre "uma coisa mais fria de dinheiro, ambição, uma coisa gananciosa" e outra mais "erótica, sexual", fala Lindsay. Arto já fez alguns shows solo em que cantava músicas de artistas populares brasileiros, como Noel Rosa e Cartola. 

O Ambitious Lovers só tomou sua forma definitiva quando Arto conheceu o músico suíço Peter Scherer. Peter e Arto foram apresentados um ao outro pelo músico e empresário Kip Hanrahan, uma "figura interessantíssima". Na época, ele lembra, Scherer trabalhava com o guitarrista Nile Rodgers, do Chic, como técnico do complicado sintetizador digital Synclavier. Muito educado musicalmente, Scherer vinha de anos em conservatórios de música eletrônica em Zurique quando se mudou para Nova York, no começo dos anos 1980. 

"Quando eu consegui um contrato de gravação, eu precisava chamar alguém para tratar da parte harmônica, porque eu não trabalho com harmonia. Chamei o Peter e senti firmeza ali, então começamos", diz Lindsay. Sob o nome Arto Lindsay & The Ambitious Lovers, eles lançaram o primeiro disco da banda, Envy, em 1984.

Foi o início de uma parceria que durou por anos. Juntos, Arto e Peter gravaram mais dois discos, Greed e Lust. Para a nova banda, Arto não deixou de lado o barulho e a dissonância que gosta de fazer com sua guitarra – uma marca registrada de seu trabalho –, mas decidiu que era o momento de aprender a cantar e tocar de jeitos mais convencionais.

Desse encontro de impulsos, o mesmo que Bill Martin descreveu como "pop experimental", nasceu a ambivalência característica do duo. É o que garante que, sobre um instrumental suave de pop e bossa nova, Arto cante versos desoladores como "Sim, eu tô vivo / É que já não tenho força pra me matar."

Numa resenha do New York Times de um show da dupla em agosto de 1988, o crítico Jon Pareles destaca o aspecto de ambiguidade, intitulando a crítica de "uma fusão de opostos". O jornalista destacou, descrevendo uma apresentação da banda no clube nova-iorquino Sounds of Brazil, que o resultado das inclinações pop e experimentais do duo poderia ser "uma mistura confusa, mas os Ambitious Lovers criam um híbrido genuíno." Pareles termina dizendo que o grupo representa os "cruzamentos étnicos e culturais" de Nova York. 

Numa época em que a chamada "world music" era reverenciada pela indústria anglófona, com músicos grandes como Paul Simon e Peter Gabriel gravando álbuns inspirados por gêneros africanos, árabes e latinos, é possível que a indústria tenha colocado o som eclético da dupla na mesma categorização – dado o quanto Arto se influenciou pela música brasileira que ouviu crescendo. "Era um termo muito desagradável", fala Lindsay. "Os países brancos denominavam a música de outros países como 'world music'". 

O uso do termo encurralou o Ambitious Lovers de certa forma, mas não impediu que a longa parceria da dupla seguisse, mesmo fora dos palcos. Após o lançamento de Lust em 1991, o último a ser gravado sob o nome do duo, Lindsay e Scherer seguiram trabalhando juntos. Mais notavelmente, eles produziram Estrangeiro (1989), álbum de Caetano Veloso cuja sonoridade pega muito emprestado do Ambitious Lovers, e Strange Angels (1989), da artista americana Laurie Anderson. 

Scherer e Lindsay também fizeram longa carreira no teatro e cinema. Em 1990, gravaram Pretty Ugly, trilha sonora para um balé da coreógrafa Amanda Miller. A dupla também foi incluída na trilha do longa Slaves of New York (1984) e, mais recentemente, duas faixas de Arto e Peter foram usadas no filme Depois da Caçada (2025), d eLuca Guadagnino. 

Foi uma longa e prolífica colaboração, mas a dupla deixou de trabalhar junta quando Scherer voltou à sua cidade natal de Zurique nos anos 1990. "Acho que foi o cansaço de muitos anos juntos", fala Lindsay. "Peter acabou querendo voltar pra Suíça e começou a trabalhar com trilhas de filmes independentes, dar aulas."

Já Arto seguiu pelo caminho da música popular em que, pelas próximas décadas, trabalharia com artistas como Gal Costa, David Byrne, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e ainda lançaria um punhado de álbuns sob seu próprio nome. Em trabalhos recentes, como Cuidado Madame (2017), de 2017, o músico mostra como seguiu utilizando dos aprendizados da justaposição que desenvolveu com o Ambitious Lovers – misturando música eletrônica com MPB, samba com rock experimental. Em uma entrevista  à revista independente BOMB Magazine nos anos 2000, ele explicou o fascínio pela síntese de tantas sonoridades diferentes: "Não há um motivo específico para juntar essas coisas. O importante é o que sai no final."

Por:

Amanda Cavalcanti

Fotos: Divulgação/Jorge Bispo

COMPARTILHE:

RECEBA NOVIDADES POR E-MAIL!

Inscreva-se na nossa newsletter.