
O ano de 1986 foi marcante para o rock nacional. Em meio à reabertura política, uma geração de bandas lançou discos que definiram os rumos do movimento no país, do punk de Cabeça Dinossauro, dos Titãs, e O Concreto Já Rachou, da Plebe Rude, ao clássico radiofônico Dois, da Legião Urbana, ou a estreia do Ira!, Vivendo e Não Aprendendo, com toda inspiração do rock inglês. Quatro décadas depois, esses e outros clássicos da geração 80 foram revisitados no festival C6 No Rock, que ocupou o Parque Ibirapuera, em São Paulo, nos dias 22 e 23 de agosto.
Também integraram o line-up Os Paralamas do Sucesso, que celebraram os 40 anos de Selvagem? (1986), Paulo Ricardo, que relembrou os hits de Rádio Pirata - Ao Vivo, do RPM, e outras atrações que não necessariamente estavam celebrando seus discos daquele 1986, mas foram fundamentais para desenhar o rock daqueles anos oitenta: Marina Lima com seu Fullgás (1984), Blitz mandando As Aventuras da Blitz 1 (1982), enquanto Rita Lee e Cazuza foram homenageados por artistas da nova geração.
O C6 No Rock, como o nome já entrega, é um evento dos mesmos organizadores do C6 Fest, mas com foco no gênero musical em questão. A primeira edição foi marcada pelo encontro de gerações no palco e também entre o público, que caminhava pelo Parque trajando as tradicionais camisas pretas de todo bom roqueiro.
Punks sob o sol
O sábado começou com a Plebe Rude celebrando quatro décadas de O Concreto Já Rachou (1986). Na plateia, fãs gritavam enquanto a banda assumia o palco, especialmente ao notarem a presença de Clemente, que passou por uma cirurgia cardíaca de emergência no ano passado.

Já os Titãs tocaram na íntegra o clássico Cabeça Dinossauro (1986), incluindo a música que rendeu assunto nos últimos dias, "Bichos Escrotos". Sérgio Britto, Branco Mello e Tony Belloto, os integrantes originais, junto a Beto Lee e Mario Fabre, entraram no palco após a projeção do documento da censura de "Bichos Escrotos" aparecer no telão, assim como aconteceu na tour de 40 anos do álbum.
Na sequência, Paulo Ricardo mandou um dos discos mais vendidos naquele 1986, Rádio Pirata Ao Vivo, do RPM, botando todo mundo pra cantar junto hits como “Alvorada Voraz” e “Olhar 43”.
Já os Paralamas do Sucesso subiram ao palco para mandarem os hits do Selvagem? — mas a homenagem ao disco ficou nos sucessos mesmo, pois, logo na sequência, o trio abriu alas para outros hits da carreira, como "Uma Brasileira" e "Meu Erro". O público da banda já sabe que pode sempre esperar por um show animado, recheado de hits e bem conduzido por Herbert Vianna. Nunca fica cansativo.
A primeira noite terminou com o espetáculo “Meu Sonho É Ser Imortal”, uma homenagem à rainha do Rock, Rita Lee, com Beto Lee comandando o baile junto a cantoras de diferentes gerações. A escolha de repertório foi certeira: cada uma apresentou uma canção de Rita que encaixava perfeitamente com sua forma de interpretar — de Marina Sena cantando“Doce Vampiro” e Alice Caymmi e Catto apresentando juntas “Ovelha Negra”.
O passeio de personagens tão diferentes por esse repertório só mostra como Rita Lee era capaz de representar as mais diferentes mulheres.
Também subiram ao palco Alice Caymmi, Baby do Brasil, Catto, Fernanda Abreu, Letrux, Miranda Kassin e Sandra Sá.

Momento histórico
Já no domingo, o Ira! abriu os trabalhos do último dia. A banda já contava com o público fiel à espera, apesar do horário. Ao entoar hits como “Envelheço na Cidade”, a banda de Nasi e Edgard Scandurra ganhava um novo integrante da banda: a plateia, que cantava junto com Nasi. O grupo ainda passeou por outros marcos da carreira, como “Tarde Vazia”, que ganhou de improviso o verso “cantando no Ibira” ao final.
Fazendo jus à ponte SP-Rio, a Blitz subiu ao palco na sequência dos paulistanos. A banda estava completa com a participação da ex-integrante ilustre, Fernanda Abreu. Ela se juntou a Evandro Mesquita em sucessos como “Mais Uma De Amor (Geme Geme)” e, claro, “Você Não Soube Me Amar”.
Mas a grande surpresa do dia ficou com a celebração à Legião Urbana. Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá levaram o reportório do Dois (1986) e outros hits da banda no palco do C6 no Rock, na companhia de André Frateschi nos vocais, como já vem acontecendo desde 2015.
No fim do show, André anuncia ninguém menos que Giuliano Manfredini, filho de Renato Russo, com quem os ex-integrantes travaram uma longa batalha judicial em torno do nome da marca Legião Urbana. André disse que Giuliano estava ali "representando os três integrantes originais junto a Dado e Bonfá", fazendo do show "um momento histórico".

E, por falar em história, Marina Lima subiu ao palco para cantar Fullgás (1986). Segundo ela, o disco foi "o auge" da parceria com o irmão, Antonio Cícero.
Mantendo os arranjos originais que dão um peso rock’n’roll ao som dançante da artista, o show foi um dos melhores da noite. A carioca contou com a presença de Lobão e Liminha no palco, além de Laura Diaz, vocalista da Teto Preto, que cantou com ela a sexy “Uma Noite e 1/2”.
O C6 No Rock terminou em grande estilo com a apresentação de “Todo Amor que Houver Nessa Vida: Homenagem a Cazuza”, que contou com Arnaldo Antunes, Frejat, Johnny Hooker, Leo Jaime, Leoni, Lobão e Maria Gadú nos vocais, enquanto Barone, Davi Moraes, Rodrigo Tavares e Mauro Berman se encarregaram dos instrumentos.
Além do palco
Sem instalações enormes como acontece em festivais de maior porte, o C6 No Rock foi minimalista: apostou em uma feira de discos de vinil e na instalação “Mitologia e Intuição”, da artista Verena Smit com apoio de Giuliano Manfredini. A instalação, que abre oficialmente as homenagens a Renato Russo, que completa 30 anos de falecimento em outubro, era um mergulho no acervo do músico, mantido pelo filho em parceria com a Legião Urbana Produções e o MIS São Paulo. Em uma tela de 360°, era possível ver letras de canções e escritos do artista.
Muita gente que passava por lá aproveitava pra tirar uma foto, especialmente à noite, quando as luzes da projeção se acendiam.
No fim, nem o frio da capital paulistana espantou os fãs de rock que, agora, finalmente têm um festival para chamar de seu. Entre reencontros nostálgicos, álbuns celebrados e merecidas homenagens, o C6 no Rock foi um dos grandes acertos deste ano no mercado musical.







