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Bichos Escrotos: como Anitta fez clássico dos Titãs voltar a incomodar


Por:

Pedro Figueiredo

Fotos: Divulgação/Prime Video, Acervo Titãs

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40 anos depois, “Bichos Escrotos”, uma das faixas mais emblemáticas do Cabeça Dinossauro (1986), dos Titãs, volta a dar o que falar. Aparentemente, uma nova geração descobriu a existência da música por meio de uma versão de Anitta divulgada no dia 7 de agosto, que acabou viralizando. Isso fez com que os termos “bichos escrotos” disparassem 5.000% (!) nas buscas do Google.

Gravada com beats de funk e produzida por Tropkillaz, a faixa integra a trilha sonora do filme Corrida dos Bichos, de Fernando Meirelles. De repente, as redes sociais foram tomadas por vídeos de IA com ratos dançando de um jeito fofinho ao som da versão e (muita) gente analisando a qualidade da música, seja julgando a letra ou até mesmo afirmando que pensaram se tratar de uma faixa gerada por inteligência artificial.

Esse último fato gerou novos debates — houve quem afirmasse que a geração Z ou alpha não tinha mesmo obrigação de conhecer uma música que fez e aconteceu décadas atrás. Por outro lado, críticos cravaram que desconhecer a existência da faixa e, consequentemente, do Cabeça Dinossauro, um dos discos mais marcantes do rock brasileiro, era pecar por desinformação básica sobre a cultura nacional. Houve ainda quem tentasse dar múltiplas interpretações para uma letra aparentemente tão simples.

Que bicho é esse?

“Bichos Escrotos” foi composta por Sérgio Britto, Arnaldo Antunes e Nando Reis em 1982. Eles estavam do lado de fora do estúdio, esperando a vez de entrar para gravar, quando avistaram uma barata saindo pelo ralo. Foi aí que começaram a divagar. “Fizemos ali mesmo, senão a música inteira, a ideia central e a estrutura dela”, contou Nando Reis, em um vídeo de 2020 em seu canal no YouTube.

No meio de um disco calcado no punk rock como é Cabeça Dinossauro — com letras críticas, diretas, sem metáforas —“Bichos Escrotos” ganhou ares de hit. Foi composta anos antes e entrou no disco porque já era muito querida pelo público nos shows. O problema é que a letra foi censurada. O documento oficial alegou que a letra tinha “sentimento de pessimismo” e ‘imagem escatológica da realidade’, mas foi o ‘vão se foder’ dirigido às ‘oncinhas pintadas’ e ‘zebrinhas’ que pesaram na decisão. Tirado o palavrão, a música foi liberada para execução pública.

Crítica e humor

Os riffs de Marcelo Fromer em conjunto com as viradas de Charles Gavin dão um tom dançante à canção, enquanto o jeito de cantar de Paulo Miklos não nega: aquela era uma faixa crítica e debochada, em que o narrador convoca todos os renegados; os ratos e baratas; a uma espécie de revolução dos bichos, dos marginalizados. Enquanto pets fofinhos e animais valorizados pela sociedade, como a oncinha pintada, símbolo da nossa fauna e que depois seria também símbolo da riqueza figurando em notas de cinquenta reais, e o “coelhinho peludo” da Páscoa dominavam as atenções, as baratas entrariam sorrateiramente pelos sapatos do “cidadão civilizado” (hoje também conhecido como cidadão de bem).

É uma letra simples, direta, suja, que pode remeter a uma metáfora sobre a tomada do poder pelo lado mais fraco da corda (o povo) numa época de ditadura militar — mas também pode não significar nada disso. Nando Reis a define ainda melhor. "A listagem de bichos peçonhentos é metáfora de algo que era muito importante aos Titãs: a desconsideração de padrões musicais, estéticos e morais. A exaltação dos bichos escrotos como representantes desse universo que fica à margem. Não seguimos essa linha entre o que é belo e feio, bom e ruim, culto ou não culto", disse ele, no mesmo vídeo de 2020.

Nesse sentido, é coerente a crítica do jornalista Sérgio Martins ao Estadão: para ele, na voz de Anitta, “Bichos Escrotos” parece linear e pasteurizada, quase blasé, perdendo o tom de deboche e escárnio encarnado pela interpretação enérgica e punk rocker de Miklos.

Mas nem Miklos nem Sérgio Britto parecem ter se incomodado. Pelo contrário. Vendo que a faixa ganhou novo fôlego exatamente no ano em que Cabeça Dinossauro comemora quatro décadas (com direito a show no C6 no Rock neste final de semana), os músicos aprovaram a versão, especialmente a proposta (realmente louvável) de ter sido atualizada para o funk, que hoje é o estilo marginal que saiu de marginalizado para mainstream, assim como um dia foi o punk rock.

Miklos disse que “adorou” a versão da cantora, inclusive os memes. Ele ressalta o humor presente na canção, que ganhou novos ares com os memes de ratinhos. “Sempre foi uma música muito divertida e também um questionamento ao paladar refinado do homem civilizado. Anitta cantou com essa ironia fina e deu o recado”, disse Miklos em suas redes sociais.

Já Sérgio Britto exalta que a música seja conhecida pelos jovens de hoje. “Apesar de ser radicalmente diferente da nossa, a versão da Anitta tem uma leitura pertinente daquilo que a gente quis dizer”, disse, destacando o caráter anárquico que permeia a faixa.

Em seus 40 anos, Cabeça Dinossauro vem sendo atualizado por vertentes mais diferentes da nova geração. A versão de Anitta para “Bichos Escrotos” vem somar, por exemplo, à releitura soturníssima da banda de post-punk Jovens Ateus para “Igreja”, que eles sempre mandam nos shows.

Independente disso, é interessante notar como Anitta pauta debates musicais interessantíssimos. Segundo fãs, a versão de “Bichos Escrotos” chegou até a sair da aba de lançamentos da artista no Spotify, talvez pela repercussão negativa, mas não deveria: além de movimentar a música atual, Anitta também lançou um dos melhores trabalhos do ano com Equilibrivm I e II - que também foi julgado, por outras razões. No trabalho, ela evoca de Carmen Miranda a Baden Powell, mostrando que, como artista, transita por referências distintas, reconhecendo a importância de cada uma delas. Como disse Tony Bellotto à Billboard: “Anitta é rock”.

Por:

Pedro Figueiredo

Fotos: Divulgação/Prime Video, Acervo Titãs

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