
Você deve se lembrar de uma música que imediatamente remete ao seu videoclipe. Seja o preto e branco minimalista de “Single Ladies”, da Beyoncé, o plano-sequência de “Bittersweet Symphony”, do The Verve, ou ainda Madonna beijando um Jesus negro em “Like a Prayer” — que lhe rendeu até críticas do Vaticano. Mais recentemente, já na geração do YouTube, podemos lembrar de "This Is America", de Childish Gambino, ou dos impactantes audiovisuais de Taylor Swift.
A artista Nídia Aranha veio dessa geração dos anos 90, que talvez inconscientemente já carregue o audiovisual no repertório. Aos 34 anos, a carioca, mulher trans, formada em Design de Produto e Comunicação Visual pela UFRJ e em Artes Visuais pela Escola de Artes Visuais do Parque Lage, começou a construir sua identidade visual em trabalhos ligados à moda, à beleza e à tecnologia, antes de levar essa pesquisa para a música. Ao longo da carreira, colaborou com artistas como Ludmilla (no clipe de "Rainha da Favela" e no show do Rock in Rio 2024), Gloria Groove e Iza.
"Minha aproximação com a música aconteceu pelo audiovisual. Durante a pandemia, os videoclipes ganharam importância e, nesse contexto, fui convidada por Felipe Sassi para assinar a direção de arte de seus projetos", conta ela. "A experiência mostrou como imagem e música podem se complementar e ampliar a experiência da obra. A partir dos videoclipes, vieram os álbuns e, depois, os shows".
Recentemente, ela se destacou no trabalho em Equilibrvm I e II, assumindo o papel de diretora criativa e, neste último, também de diretora musical, para além do desenvolvimento criativo da nova tour. Equilibrivm II ganhou um audiovisual de 35 minutos com ares de curta-metragem, capaz de vidrar o espectador do início ao fim. Tendo o vermelho e o amarelo como cores marcantes, além de elementos da religiosidade afro-brasileira e da nossa cultura, vemos referências a figuras como Zé Pilintra, Carmen Miranda e Iemanjá. Muitos elementos visuais ricos amarrados às letras, num trabalho que marca uma nova era de Anitta.
Nesta entrevista com Nídia Aranha, percebemos a singularidade da artista no modo como ela descreve os encontros que a levaram a Anitta. De maneira quase poética, ela conta que o trabalho foi construído de forma íntima, na casa de artista, pelas duas e por uma equipe que guiou o criativo do trabalho. "A gente viveu junto por um tempo", conta ela. O resultado do processo se reflete em números — são quase 20 milhões de visualizações no YouTube, grande marca para tempos em que vídeos curtos ditam o mercado.
No caso de Nídia, essa permanência do espectador mora na capacidade que seus trabalhos têm de criar uma experiência em que som e visual possam modificar a maneira como percebemos uma obra. “Quero criar imagens que possam ser ouvidas e músicas que possam ser vistas, para que ambas ampliem nossa capacidade de sentir", conta ela, nesta entrevista. Confira abaixo:
Vamos voltar um pouco no tempo: como começa sua paixão pela música em sua parte visual/conceitual e estética? E quando você viu que isso poderia virar seu ofício?
Eu venho de uma família muito musical. Pelo lado do meu pai, as pessoas cantam e tocam instrumentos, então a música sempre esteve muito presente nas reuniões de família, nas festas, na infância. Curiosamente, eu nunca tive uma educação musical. Sempre senti que meu território era a imagem. Meu instrumento sempre foi o olhar.
Entendo que a música tem uma potência transformadora tão forte quanto a imagem. A música atravessa o corpo fisicamente, tateia a nossa emoção e alcança lugares que, muitas vezes, a palavra não consegue acessar. A imagem, por sua vez, organiza o invisível, cria símbolos, memória e pertencimento.
O que mais me interessa é construir narrativas onde essas duas linguagens deixam de ilustrar uma à outra e passam a respirar juntas. Um espaço onde a direção criativa deixa de ser somente estética e passa a ser uma forma de criar experiência, de provocar afeto e de produzir sentido.
Toda obra de arte carrega em si a possibilidade de reorganizar nossa percepção do mundo. Talvez seja justamente isso que eu procuro: criar imagens que possam ser ouvidas e músicas que possam ser vistas, para que ambas ampliem nossa capacidade de sentir.

Como surge o convite para trabalhar com a Anitta? Quais desejos ela tinha quando chegou com a proposta do Equilibrivm?
Conheci a Anitta (a quem chamo carinhosamente de Larissa) através do convite para o show do Global Citizen. Ela queria construir uma apresentação em homenagem a Belém do Pará e traduzir para os fãs locais a conexão que tinha com eles. A gente olhou para os criativos da região e fez tudo ali, da videografia à cenografia, com props e figurinos desenhados por artistas e fornededores locais. Foi um processo muito especial, principalmente quando nos aproximamos da história dos altares sonoros, dos grandes paredões de caixas de som entendidos como sagrado. Aquilo foi uma das coisas que mais me atravessaram.
Foi no meio dessa construção que ela me fez o convite para dirigir o Equilibrivm.
Anitta chegou com o desejo de criar um álbum voltado para o Brasil, conectado a uma nova filosofia de vida. Ao longo das nossas conversas fui conhecendo mais profundamente sua essência, sua trajetória, suas provações e suas vitórias. Encontrei muita poesia nessa mulher que se expressa com tanta força e carrega uma fé muito intensa, mas que ao mesmo tempo transborda alegria e celebração para todos ao redor.
Essa dualidade que ela sustenta me tocou e acabou virando um dos pilares conceituais do projeto.
Nos conte um pouco desse processo criativo e de pesquisa para o projeto. Como foram esses bastidores? Qual o maior desafio?
Entendo a criação como um ato profundamente espiritual. Existe algo de devoção inabalável no artista, quase um compromisso intuitivo com essa linguagem subjetiva que é a expressão humana. Criar, pra mim, nunca foi só produzir imagens, mas escutar aquilo que insiste em existir e encontrar a forma mais honesta de materializar. Você se coloca como corpo poroso, um cavalo, disposto a receber mensagens que às vezes ainda nem sabe como traduzir, até que aquilo encontre uma forma de reverberar.
A pesquisa foi longa e não se limitou à imagem. Sonoramente, o álbum percorre camadas diferentes da música brasileira, passa por MPB, samba e bossa nova, dialoga com reggae, afrobeat e ritmos latinos, incorpora samples de samba de roda, pontos de religiões de matriz africana e a base do funk, onde o rap aparece quase como uma textura nova. Do lado visual, o trabalho foi traduzir arquétipos muito antigos em roupagens conectadas à semiótica do nosso tempo. Tudo que entrou ali passou por esse filtro.
O maior desafio foi trazer signos de uma cultura ancestral com reverência e respeito, traduzindo isso pra uma roupagem pop e mainstream. Quando se fala do sagrado brasileiro, existe um repertório vasto. Cada signo tinha que carregar fundamento e continuar operando para quem conhece e para quem nunca ouviu falar. Isso não se resolve com referência bonita, se resolve com estudo, escuta de quem sabe. Meu lema é que nada legítimo se cria no conforto, e esse projeto cobrou isso todos os dias. Fora a parte bruta da execução: a segunda parte foi de treze visuais e seis bardos em curta-metragem, filmados em quatro dias.
Os bastidores foram íntimos. Boa parte se construiu dentro da casa da Anitta, ao lado de produtores, compositores e artistas reunidos numa egrégora muito potente. É um projeto quase confessional, e projeto assim exige uma convivência que não cabe em reunião. A gente viveu junto por um tempo.
Para Equilibrivm II, o que você pensou que poderia ser diferente em relação ao conceito artístico do primeiro trabalho?
Acho que a principal diferença é que, no primeiro Equilibrivm, a gente estava apresentando um universo. Existia um desejo muito grande de fazer uma obra íntima, sincera e respeitosa, mas também um receio de como essa narrativa seria recebida.
A gente vive em um país onde a intolerância religiosa e uma perspectiva colonizada ainda é muito presente e havia uma preocupação para que o projeto não fosse reduzido pelo preconceito, mas compreendido de forma totalitária em sua poesia e pela profundidade da pesquisa. A recepção do primeiro álbum nos deu a confiança para ir mais fundo. Equilibrivm II nasce desse lugar de maturação . Já não precisávamos apresentar esse lugar; podíamos habitá-lo e desenvolver suas camadas.
Isso também se refletiu na música. Conseguimos explorar gêneros que já faziam parte da nossa pesquisa desde o início, mas que não tinham encontrado espaço no primeiro momento. O forró, o repente e o samba ampliam esse repertório e reforçam a herança cultural brasileira que sempre guiou o projeto.
Na narrativa, essa expansão ficou ainda mais evidente. Se o primeiro álbum convida o público a conhecer esse universo, o segundo o leva com ele pra dentro de um curta-metragem que reuniu todas essas ideias em uma jornada: apresentando as entidades e seus ensinamentos de forma musicada, sem perder a poesia e a força.
O que te inspira na hora de criar processos criativos e como você alimenta sua veia artística fora do trabalho? É possível separar o ofício da sua vivência fora dele?
Referência pra mim não é coisa que se garimpa em tela, é coisa que acontece perto de gente. Gosto de sair pra ver as pessoas, de ir nas feiras e galerias e observar o que os outros estão fazendo, de virar a noite com os meus, dançar, suar. A criação vem do contato e da fricção. Me interessa o que é ordinário.
Ando na corda bamba entre o popular e o erudito, com um contrapeso sempre mais firme na esquerda. Tenho um livro de filosofia e um reality show dentro do mesmo campo de interesse, sem hierarquia, porque criação não cabe em juízo de valor. É sobre estar disponível pra perceber.
Num tempo em que algoritmo e tendência ditam quase tudo, meu tempo é o da encruzilhada em contato com a rua, com a festa e com o corpo do outro para experienciar o que não está previsto. O fruto do acaso é mais saboroso.
Quais são seus próximos projetos em vista?
Por mais longe que o trabalho me leve, uma hora eu preciso voltar pra dentro. Ando com partenogênese na cabeça. Autofecundação. Depois do "Ordenha eu jurei que ia descansar, mas parece que o meu descanso é meu fazer artístico.
Não falo muito porque ainda está em gestação. E eu não mostro ultrassom antes da hora.













