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Por dentro da exposição de Alcione no Museu das Favelas


Por:

Giulia Cardoso

Fotos: Divulgação/Luan Batista

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A história de Alcione ultrapassa as fronteiras do samba, tornando-se um dos pilares da nossa música. Em cartaz no Museu das Favelas, na capital paulista, a exposição Com Amor, Alcione convida o público a um mergulho sensorial pelas cinco décadas de carreira da cantora maranhense. Originalmente concebida no Centro Cultural Vale Maranhão (CCVM), a mostra ganhou um novo desenho expositivo ao desembarcar em São Paulo, conectando a trajetória da artista ao território da periferia e às vivências do público paulistano. 

Quem nos conduziu ao longo dessa travessia pelas memórias foi Jairo Malta, curador do Museu das Favelas e um dos responsáveis pela curadoria da exposição.

Nascida em São Luís, Alcione cresceu entre toadas de boi — com destaque para sua ligação com o Boi de Maracanã —, mas sua primeira voz na música não veio do canto, e sim do sopro. Como recorda Jairo Malta, antes de soltar o timbre grave que arrebataria multidões, Alcione atuava como trompetista. Segundo o curador, a articulação técnica do instrumento moldou sua interpretação única.

 "Muitos cantores diziam que Alcione cantava assim como tocava trompete".

Migrante como muitos brasileiros

Em 1967, a artista ingressou no massivo fluxo migratório das décadas de 1960 e 1970 — período em que mais de 10 milhões de pessoas deixaram o Norte e o Nordeste em direção ao Sudeste. Alcione passou por São Paulo antes de se estabelecer no Rio de Janeiro, onde se tornaria uma das vozes mais respeitadas do país. Para Malta, esse trajeto dialoga diretamente com a história das favelas e das famílias paulistanas. Ao transitar entre gêneros que vão da bossa nova às colaborações com Bethânia, Gal Costa e Caetano Veloso, a cantora demonstrou uma grande versatilidade.

Concebida como um grande álbum de fotografias familiares, a expografia foi construída com pesquisa minuciosa liderada pelo curador e diretor do CCVM, Gabriel Gutierrez, que frequentou a residência da cantora para selecionar registros de porta-retratos, arquivos pessoais de infância, matérias de jornais e acervos cedidos por amigos. Na adaptação para o Museu das Favelas, o visitante é guiado desde o ambiente familiar de Alcione e os primeiros passos nos bois até suas turnês por países como Japão, Rússia, Angola e Estados Unidos.

Mangueira de coração

Entre os pontos altos do percurso está o espaço dedicado à sua relação com a Mangueira. A paixão da cantora pelo verde e rosa começou na infância, quando assistia aos desfiles pela televisão, o que a levou a conquistar a histórica carteirinha de membro número 2 do Grêmio da escola de samba. No Morro da Mangueira, a artista também deixou um legado social: fundou a Vila Olímpica da comunidade e promoveu, durante anos, bailes de debutantes para jovens pretas do morro. Malta destaca a  paixão entre as partes: "Alcione atravessa a história da Mangueira e a Mangueira se junta a ela em tudo isso. Quem vê a exposição entende como tudo é feito de forma orgânica."

O passeio segue por uma ala interativa e imersiva que convida o público a mergulhar no cancioneiro da sambista. O espaço abriga LPs raros — muitos autografados por nomes como Tim Maia e Zeca Pagodinho —, fitas cassete, CDs e uma jukebox liberada para duetos entre os visitantes. O cuidado com a inclusão se manifesta em projeções acessíveis, com interpretação visual em Libras.

Como resume Jairo Malta ao finalizar o percurso, a cantora soube "transformar suas questões em coisas gloriosas", oferecendo ao público uma lição de resistência e afeto, para além de sua importância na nossa cultura.

Por:

Giulia Cardoso

Fotos: Divulgação/Luan Batista

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