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Antes do TikTok, era a MTV: livro mostra o poder dos videoclipes ao longo de 40 anos


Por:

Damy Coelho

Fotos: Academy Films/MACK.

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Antes de virar clássico instantâneo da MTV, o videoclipe de “Bittersweet Symphony” nasceu do improviso — e do risco. Sem autorização da prefeitura, a equipe de produção levou Richard Ashcroft para gravar em uma rua londrina perigosa, contando apenas com sua disposição para ganhar a confiança dos comerciantes locais enquanto caminhava obstinado pela calçada. 

É esse espírito livre e inovador que o livro Short Form: 40 years of Music Videos, Ads, and the Art of Moving Images resgata, ao revisitar quatro décadas de clipes e comerciais da produtora britânica Academy Films. Lançado no ano passado pela Mackbooks, o livro conta com entrevistas, ensaios e um prefácio assinado por ninguém menos que Jonathan Glazer — e isso não é por acaso: o diretor de Zona de Interesse (2023) começou a carreira assinando videoclipes do Radiohead, Blur e Massive Attack pela produtora. 

É interessante como essa trajetória se repete, ainda que do outro lado do oceano. Caso parecido aconteceu com Fernando Meirelles: antes de Cidade de Deus, o diretor idealizou a Olhar Eletrônico, produtora que inovou na linguagem de vídeos numa era pré-MTV. Ou a produtora Conspiração Filmes, que, antes de Ainda Estou Aqui, surfou na onda dos videoclipes nos anos 90. 

Já a Academy Films assinou clipes icônicos como o de “Bittersweet Symphony”, do The Verve, “ Doo Wop (That Thing)” de Lauryn Hill e “Virtual Insanity”, do Jamiroquai — todos devidamente citados no livro.

Videoclipes, memória e legado cultural

O livro também traz artigos mostrando o impacto do videoclipe para uma geração. Em “On MTV and Music Videos”, a jornalista Philippa Snow lembra como ficou fascinada ao zapear a TV e dar de cara com “Rabbit in Your Headlights”, do Unkle. Dirigido por Glazer, o vídeo mostra um homem sendo atropelado repetidas vezes numa rodovia — o cúmulo da esquisitice. Mas foi justamente essa esquisitice que, segundo ela, moldou todo o senso estético (e, por tabela, seu gosto musical).

O livro chega no momento em que o videoclipe passa por novas provações. No fim do ano passado, a MTV anunciou o fim de suas atividades no Reino Unido e também no Brasil. Foi a pá de cal em uma era que já estava falida há pelo menos uma década. Hoje, ninguém mais depende da TV para assistir ao seu clipe favorito. O formato migrou para o YouTube e, posteriormente, para o Tiktok, em vídeos (e músicas) cada vez mais curtos. 

Ainda que muitos declarem que o videoclipe morreu, ele sobrevive ao tensionar o próprio formato. Na contramão do TikTok, o YouTube permite vídeos cada vez mais longos, possibilitando trabalhos audiovisuais como Lemonade (2016), da Beyoncé, ou o filme do álbum Eita (2025),de Lenine, quase todo gravado em plano sequência. Não dá para esquecer também que artistas pop como Rosalía, FKA Twigs ou Taylor Swift seguem quebrando recordes de visualizações na plataforma.

No fim, o videoclipe e os comerciais seguem em constante experimentação, ainda que adaptados a um novo valor de mercado. Short Form oferece uma reflexão sobre o formato, mas, principalmente, o celebra.

Batemos um papo com a editora do livro para entender a relevância do videoclipe, como ele sobrevive no emaranhado de vídeos curtos das redes sociais e como ainda pode ser uma linguagem relevante para a música — Claire adianta, por exemplo, que é possível que o clipe saia na frente em originalidade cinematográfica dadas as limitações do mercado hollywoodiano. Vale conferir o papo abaixo.

Claire, pode nos contar como surgiu a ideia do livro?

A Jennifer Byrne, da Academy Films, entrou em contato comigo no verão de 2024. O 40º aniversário da produtora seria no ano seguinte, e ela perguntou se eu poderia ajudar a tirar um livro do papel. Eu disse que o prazo era apertadíssimo, mas que valia tentar.

Daí, pensamos que, em vez de fazer um catálogo corporativo chato, poderíamos usar os videoclipes e comerciais dessa produtora icônica, ao longo das décadas, para contar uma história paralela sobre como essas obras em formato curto foram feitas e o que elas significam culturalmente. 

Isso também veio da minha sensação de que não existia um livro que investigasse esse tema, então, isso me animou ainda mais.

Qual videoclipe da Academy Films mais te marcou?

Para mim, "Street Spirit (Fade Out)", do Radiohead, dirigido por Jonathan Glazer, é especialmente marcante. Ele parece simples e certamente não é o maior videoclipe do livro em termos de escala… mas os pequenos quadros são muito poéticos e ficaram na minha memória.

Eu poderia passar horas e horas só com esses três minutos. E, claro, é uma música lindíssima. É tudo muito cinematográfico e emocional.

Quando estava na faculdade, a professora de Cinema mostrou o clipe de “Imitation of Life”, do R.E.M., falando sobre edição e linguagem cinematográfica. Como alguém que cresceu vendo MTV, foi muito legal ver um videoclipe discutido nesse contexto. Na sua opinião, o que faz um videoclipe se destacar como um exemplo de edição?

Esse é um ótimo exemplo! Eu nunca tinha visto. No livro, os capítulos temáticos mostram diferentes maneiras de um videoclipe se destacar: seja pelo movimento, pela escala épica ou por um uso forte do surreal.

Além disso, algo que atravessa tudo é a combinação certa entre cineasta e músico, quando existe um ethos compartilhado. No fim, é sobre entrar em um mundo e transmitir uma atitude.

Como você recebeu a notícia de que a MTV está encerrando as atividades em alguns países? Com plataformas como YouTube e TikTok moldando o consumo de música hoje, onde você enxerga o videoclipe na indústria atualmente?

Acho que os videoclipes voltaram a ganhar relevância nos últimos anos por causa da força dos formatos online, de vídeos curtos. Eles também se beneficiam do momento atual de Hollywood, com muitas amarras no marketing e, na minha opinião, uma certa resistência à experimentação. 

Isso abre espaço para que o videoclipe vá a lugares originais e “estranhos”, sem a pressão de bilheteria ou de temporadas de prêmios.

Além disso, a valorização de bons diálogos está em um nível baixíssimo — imagens fortes, que funcionam bem em recortes para redes sociais, estão dominando. Veja bem, não acho isso algo positivo; por outro lado, isso faz com que videoclipes sejam um caminho mais rápido do que nunca para o cinema de longa-metragem. É só olhar para Aidan Zamiri, Matt Copson.

Qual foi a parte mais prazerosa ou surpreendente da pesquisa e da escrita do livro?

Eu adorei mergulhar no arquivo, descobrir pequenas histórias em planilhas de produção antigas. Um dos mais memoráveis, pra mim, fala sobre uma reunião com um esquilo de verdade, para o comercial Guinness “Dreamer”, dirigido por Jon Glazer. 

Também gostei muito de conversar com produtores e outras pessoas envolvidas, conhecendo melhor todas as histórias malucas por trás da realização desses projetos, muitas vezes contra todas as probabilidades. Foi inspirador, porque todo mundo lida com desafios e limitações o tempo todo, e ainda assim o resultado é um trabalho que permanece.

Além dos exemplos citados no livro, como FKA Twigs, quem você acha que está realmente expandindo os limites do videoclipe hoje?

Eu adoro o trabalho da Luna Carmoon. Gosto de como seu registro autoral transita com naturalidade entre videoclipes e longas-metragens e de como ela leva uma mentalidade de pesquisadora até para o formato curto. Ela sempre conta uma história, ao mesmo tempo em que constrói um universo visual muito rico.

Short Form: 40 years of Music Videos, Ads, and the Art of Moving Images, infelizmente, ainda não está disponível no Brasil. Mas é possível adquiri-lo no site da Mackbooks (em inglês).

Por:

Damy Coelho

Fotos: Academy Films/MACK.

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