
Dandara Modesto e Edwin Correia lançam Chama (2026), primeiro projeto conjunto da brasileira com o músico francês. Gravado no Beyond Groove Studio, na Suíça, o álbum parte do jazz como ponto de partida para explorar ritmos e tradições da diáspora afro-brasileira, com ecos de capoeira, espiritualidade e música popular.
As nove faixas foram registradas ao vivo em estúdio, com mínima pós-produção, desejo dos próprios artistas que gostaram de preservar o lado mais “cru” da performance. A produção é assinada pela própria dupla, que convida Paulo Almeida para somar na bateria, percussões e vocais de apoio. “A honestidade do analógico, do ao vivo, traduz a ideia de estarmos tocando juntos para o ouvinte ali na hora”, comenta Dandara.
O disco também se ancora em referências da tradição oral brasileira, como a chula e o samba de roda, que aparecem de forma mais explícita em “Chama”, construída a partir da improvisação entre voz e violão. Entre os destaques, “Bate Chão” surge como eixo conceitual do trabalho ao tratar da fluidez da existência e da impossibilidade de controlar o tempo, sustentada por um arranjo sofisticado de guitarras que se entrelaçam em camadas. Já “Forêt”, única faixa em francês, amplia o universo do álbum ao partir de um poema de Lou Van Nijen.
“Há algo de jazz e há algo muito brasileiro. Existe uma encruzilhada nesse duo.”
O repertório também se constrói de forma coletiva, reunindo diferentes compositores: Juliano Holanda (“Luz”), Karla da Silva (“Couro”), Lou Van Nijen (“Couro” e “Forêt”), Guigga e Conrado Pera (“Corte e Costura”), além de Paulo Monarco, Raul Misturada, Jota Erre e Bruno Batista (“Asa do Desejo”). As canções atravessam temas como amor, transformação, espiritualidade e a urgência de desacelerar. Edwin resume o trabalho: “É o encontro de universos — a herança afro-brasileira e a liberdade criativa do jazz — em diálogo com a ancestralidade, a natureza e a resistência”.
Confira Chama faixa a faixa:
"Luz": parceria com o compositor pernambucano Juliano Holanda, que escreveu a letra. É um convite à introspecção radical. Ela propõe que, ao desacelerarmos o tempo e aceitarmos a solidão como um espelho limpo, podemos nos deparar com questões fundamentais sobre quem somos. Não há respostas fáceis; o poema termina em suspense, sugerindo que a sabedoria (a luz) talvez só seja acessível àqueles que, como bonsais, aprenderam a arte da paciência e da existência contida. É um elogio ao silêncio, à lentidão e à beleza do que é pequeno e cuidadosamente cultivado. Um lance de bossa nova do nosso jeito.
"Couro": é uma força percussiva que exalta a afro-brasilidade, onde a voz se funde aos instrumentos e ao canto dos pássaros. No centro, um trecho planante com efeitos eletrônicos abre um respiro etéreo antes do retorno à terra. Na reta final, a letra se levanta como manifesto de resistência contra um mundo digital esvaziado de sentimentos.
"Forêt": única canção em francês, com poesia de Lou Van Nijen, esta obra pinta uma floresta de magia, memória e resiliência. Musicalmente, funde a delicadeza da Folk com o balanço da música afro-brasileira, criando uma paisagem sonora onde a natureza canta em dois mundos.
"Corte e Costura": é uma canção que revela a natureza do nosso encontro, onde a crueza da guitarra e da voz fica bem aparente. Como é um disco gravado sem ajustes – sem edição de voz, de guitarra, produzida com takes diretos – é real, vivo. E escolhemos iniciar a apresentação do projeto com essa faixa porque é uma canção que traduz essa vibe: um jeito “cru” de falar de amor, mas muito poético. A força da simplicidade, no sentido de poucos elementos, para tratar de uma complexidade.
"Bate Chão": fala sobre abraçar a mudança constante, aceitar que não podemos controlar o fluxo do tempo e da vida (assim como não se segura o vento), e encontrar poder e amor nessa liberdade essencial de existir e se transformar. É um hino à fluidez da existência e à impossibilidade de aprisionar o espírito humano ou o curso natural das coisas. Musicalmente, a faixa equilibra uma doçura tímbrica com uma construção sofisticada. O arranjo é composto por três texturas distintas de guitarra que dialogam entre si, respondendo-se mutuamente para criar um tapete sonoro rico e envolvente.
"Sentir Sentido": esta letra complementa a anterior, focando agora na ação de aceitar e viver essas transformações, em vez de apenas observá-las. O sentido geral gira em torno da entrega, da intuição e da superação da racionalidade rígida em favor da experiência corporal e espiritual. Musicalmente, a base é sustentada por um ritmo de guitarra com influências de transe afro, trabalhada com efeitos de reverse. A linha vocal desenvolve-se como um cântico hipnótico, enriquecido por processamentos de áudio e sobreposições que criam a sensação de um coro de múltiplas vozes.
"Asa do Desejo": é um hino à eternidade do amor. Ela argumenta que o amor não foi criado por Deus, pelos humanos, pela cultura ou pela evolução; ele é o substrato original do universo. Enquanto religiões, nações, linguagens e conflitos (a "estupidez") surgiram depois e dividiram a humanidade, o amor permaneceu como a força unificadora que "estava lá" antes de tudo e que permanece como a única resposta capaz de "acabar a crise inteira". O som é misterioso com bastante efeitos, delay, reverse. No refrão, as camadas de guitarra foram construídas a partir de múltiplos loops, ao vivo. A fusão dessas texturas cria um tapete sonoro profundo e místico.
"Malícia": a guitarra evoca as percussões do berimbau, dialogando em improvisação livre com a bateria para evocar a malícia do jogo. Sobre esse balanço, as vozes de Paulo e Dandara surgem como um infantário místico, trazendo a ancestralidade e o encanto que completam esta roda sonora.
"Chama": improvisação espontânea entre a voz e o violão no espírito da Chula, e das cantigas de samba de roda. Em pura improvisação, o refrão surge como o coração da roda, convidando todos a celebrar a tradição criada no instante.




