
Se o clima era de frio e chuva no último final de semana (12 e 13/9) em São Paulo, o Coala Festival usou a música para aquecer o público que encarou as intempéries no Memorial da América Latina. Por lá, passaramaproximadamente 30 mil pessoas, segundo a organização do evento.
Nem o frio, nem a chuva, no entanto, foram o bastante para espantar o público que estava ali mais preocupado em celebrar a música brasileira e também aberto a conhecer atrações estrangeiras, já que esta edição contou com atraçoes internacionais. O ponto alto ficou com line up: grandes nomes da música se misturaram a novos talentos, mostrando que o Coala segue sabendo combinar para divertir.
Sábado de encontros
No sábadouma garoa mais tímida não atrapalhou Zeca Veloso a apresentar o espetáculo baseado em seu álbum de estreia Boas Novas (2025), que ganhou edição em vinil pelo Noize Record Club.
Maquiado como pierrot, o músico subiu ao palco e abriu o show com “Petar Gast”, canção lado b de Caetano Veloso, que ele sempre quis apresentar, como contou à Noize. O músico passou pelas canções do disco — destaque para as ótimas “Salvador” e “Desenho de Animação” — e também explorou canções consagradas nas vozes de outros intérpretes, como é o caso de "Garota de Ipanema" e "Volta Por Cima". O hit “Todo Homem”, fechou o show.
Em seguida, foi a vez do encontro entre Cícero e Duda Beat. A dupla, amiga de longa data, apresentou canções dos repertórios dos dois artistas, incluindo a faixa “Sem Dormir”, colaboração entre o carioca e a pernambucana. O álbum mais célebre do artista Canções de Apartamento (2011), também figurou no set.
O grupo português Buraka Som Sistema, única atração internacional do festival, mostrou que o calor vem de dentro, fazendo o público dançar ao som do kuduro progressivo. Kalaf Epalanga, um dos integrantes da banda e curador da versão portuguesa do festival, fez questão de ressaltar que a banda mistura os tambores de África com os eletrônicos da diáspora”, fazendo o evento virar uma grande pista de dança.
Celebrando um encontro já consolidado, Marcos Valle e Ana Frango Elétrico. Eles já se apresentaram juntos algumas vezes, incluindo a última edição do Noites no Memorial, promovido pela organização do Coala. Os dois subiram ao palco com a energia que só os dois conseguem proporcionar. Em entrevista à Noize, o músico falou sobre a importância de estar feliz em cima do palco. É nítida a felicidade do músico em dividir o palco com a cantora, que retribui o elogio falando sobre como aprende com o artista.
A noite seguiu e, em um momento em que o frio parecia não importar mais, Emicida assumiu o palco com o show de seu disco mais recente, Emicida Racional VL. 2: Mesmas Cores & Mesmos Valores (2025), acompanhado de uma banda e de seu fiel escudeiro, DJ Nyack. Na noite, ele mostrou porque é um dos maiores rappers do país em uma apresentação que contou ainda com as participações de Jotapê e do grupo Puro Suco.
De volta ao palco do festival, Maria Bethânia encerrou o primeiro dia de festival sem poupar sucessos. Logo de cara a artista relembrou “Brincar de Viver”, trazendo para si o público que se reunia ali para vê-la.
Outras faixas eternizadas em sua voz como as ótimas “Cheiro de Amor”, “Olha” e “Samba do Grande Amor” também foram parte do repertório. Como já fez algumas vezes em outros espetáculos, a Abelha Rainha encerrou o show com “O Que É O Que É?´”, do parceiro musical e amigo Gonzaguinha.
Pérolas do teatro
Os dois dias de festival guardaram lindas surpresas no Auditório Simón Bolívar. No primeiro dia, Rubel assumiu o palco acompanhado por uma orquestra para celebrar os sucessos da carreira com arranjos diferentes do que estamos acostumados a ouvir.
No domingo foi o dia do tropicalista Tom Zé, prestes a completar 90 anos, de celebrar a própria carreira no palco. O músico passou por ícones da trajetória artística como “Menina, Amanhã De Manhã” e “Agusta”.
Domingo de chuva
O line do domingo foi aberto com a combinação de Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro. Os músicos celebraram Handycam (2025), projeto independente de suas respectivas bandas. No fim do show, quando questionados sobre a possibilidade de expandir o álbum, os dois disseram que mais que isso, gostariam de ver interpretações de outras pessoas para as faixas. Nós também.
Na sequência, a rapper Duquesa subiu ao palco para uma apresentação repleta de hits. Algo, no entanto, pareceu incomodar a artista durante todo o show: talvez a falha técnica que a levou a recomeçar a primeira música. Nada disso atrapalhou a experiência do show, que só relembrou o motivo de sermos obcecados por ela.
Celebrando os álbuns complementares Um Mar Pra Cada Um, (2025) e Antes Que A Terra Acabe (2025) — ambos lançados pelo NRC e NRC+ em vinil — Luedji Luna levou ao palco uma de suas referências: o grupo Fat Family. As irmãs levaram dominaram o público e deixaram um gosto de quero mais. Vale um show solo em uma próxima edição. De volta à baiana, Luedji mostrou porque é um dos nomes mais interessantes da música brasileira atualmente. as canções magnéticas do disco ganham ainda mais graça interpretadas ao vivo por ela e a banda.
De neosoul ao piseiro, a atração seguinte foi o carismático João Gomes. Sem muito segredo, o artista apostou em uma apresentação repleta de hits como “Dengo”, “Eu Tenho a Senha” e “Mete Um Block Nele”, o que não é uma dificuldade para ele. Além das músicas que o consagraram, o músico ainda apostou em versões, como uma da canção “A Noite”, de Tiê e “Como Eu Quero”, do Kid Abelha.
Seu Jorge, então, assumiu o palco em um momento em que a chuva parecia não mais existir. Em pouco tempo o músico carioca mostrou que a combinação de talento, carisma e disposição encantam o público em qualquer clima. O artista passou por faixas do álbum Baile à La Baiana (2025), mas não deixou de lado hits como ”Quem Não Quer Sou Eu”, “São Gonça”, “Amiga da Minha Mulher”, “Alma de Guerreiro”, “Felicidade” e “Burguesinha”.
Ficou a cargo de Criolo entregar o grand finale. A convite do festival, o músico revisitou seu álbum de estreia, Nó na Orelha, que completou 15 anos em 2026. O público foi arrebatado durante as perfomances de “Bogotá”, “Subirusdoistiozin” e “Linha de Frente” Ouso dizer, no entanto, que o disco teria o mesmo impacto se fosse lançado hoje. As faixas seguem atuais e o público ainda sente cada verso. Ainda nas ondas dos encontros, o festival promoveu mais um: de surpresa, quase no fim do show, Seu Jorge subiu no palco e tocou flauta com o amigo, que declarou sua admiração por ele.
Pensando bem, talvez uma coisa pudesse ser diferente: seja pela música ou pelos artistas, a edição do Coala Festival de 2026 mostrou que existe, sim, amor em SP.



















