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Rashid retoma as próprias raízes do hip-hop em novo disco, que celebra 20 anos de carreira


Por:

Pedro Figueiredo

Fotos: Renato Nascimento/Divulgação

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Cumulonimbus é o nome das nuvens que trazem as tempestades, provocam chuvas, raios, trovões e mexem com tudo ao redor. Em seu mais recente álbum de estúdio, Cumulonimbus (2026), Rashid segue o conceito que ele mesmo classifica como “tempestuoso, denso, pesado e de descarrego.” Ao longo das 15 faixas, o artista faz uma ode ao rap, ao mesmo tempo em que não se esquiva de nenhum assunto que possa parecer mais delicado.

Dos 38 anos de vida, 20 foram dedicados ao rap e, por mais que o artista faça um balanço positivo desta trajetória, há espaço também para um olhar crítico: “O que eu vejo na cena do rap hoje é muita coisa incrível, mano, mas ao mesmo tempo um certo distanciamento de determinadas coisas que fizeram da gente o que a gente é,” reflete. 

“Especialmente em termos de movimento cultural, acho que muita gente abraçou o lado mercadológico da coisa e o movimento cultural acabou ficando um pouco para trás para quem hoje dita as regras e a opinião da cultura. Pra mim, isso é muito perigoso.”

Muito bem acompanhado

Com olhar atento, Rashid decide, então, que é o momento de se apegar aos valores da cultura hip-hop e, a partir disso, guia seu processo de criação

.“Em Cumulonimbus, eu tenho uma mensagem muito específica: quero falar para pessoas que são da cultura também. Então, eu precisava trazer representantes da cultura, de várias áreas, e aí eu precisava trazer os íntimos, precisava trazer meus amigos para para passar esse recado com muita verdade.”

Daí vem, por exemplo, um dos maiores trunfos do álbum, a faixa “Ouro, Mirra e Incenso”, na qual reúne seus parceiros de duas décadas, Emicida e Projota, cada um com seus respectivos DJs em uma canção que celebra a parceria, a amizade e a estrada que os três trilham juntos há duas décadas.

Em uma espécie de “Liga da Justiça” musical, Rashid foi buscar também outros reforços para somar forças em Cumulonimbus. O álbum conta ainda com participações de Luedji Luna, Kamau, Rael, Paula Lima, MC Neguinho do Kaxeta, Jota Ghetto, Slim Rimografia e Flavia K.

Os artistas foram apresentados em um jantar promovido por Rashid em São Paulo. Na ocasião, o músico não anunciou que os artistas ali presentes estavam no álbum, mas optou por surpreender os convidados enquanto apresentava as faixas do disco.

“Preciso dessas pessoas aqui porque elas têm uma autoridade geral na cultura, na cultura preta, na cultura de rua, na cultura hip-hop. Então, preciso delas, que, em sua maioria, são amigos muito íntimas. E quem não é amigo, é parceiro. Então, eu tive esse prazer e esse cuidado, porque eu queria que fosse um disco dos íntimos, eu precisava dessas pessoas,” explica sobre os critérios de seleção das colaborações.

O convidado mais especial, no entanto, é o pequeno Cairo, filho do rapper, que encontrou na música, uma maneira de registrar a evolução do garoto, homenageado no disco anterior, Portal (2024), lançado em vinil pelo NRC. Em Cumulonimbus ele participa da faixa “Aurora”, nos avisando que “o sol já chegou”, frase que ele costumava dizer ao acordar. “ele não fala mais, só que no disco gravou. Minha esposa até falou: ‘Nossa, você eternizou o sol já chegou, que legal!’," explica o rapper.

“A minha arte sendo uma expressão tão crua da minha vida, não tem como não trazer meu filho para perto. Então eu falo para ele: ‘Filho, vamos gravar’ e ele: ‘Vamos, vamos’. Ele gosta.”

De Sabotage a Dr. Dre

O disco de Rashid é, sobretudo, um processo de retomada. O músico olha para o passado e faz a música que gostaria de escutar com as mensagens que precisa transmitir. “É uma provocação, porque eu nunca deixei de fazer rap. A gente tava fazendo raps mais expansivos, tentando se comunicar com outros gêneros musicais, e agora eu volto para me comunicar direto com o coração da cultura hip-hop.”

Isso fica claro em “Defensores da Arte do Gueto”, que o músico classifica como “o coração comportamental do álbum”, canção derivada de “Arte do Gueto”, de Slim Rimografia, sampleando a canção. “Esse lance, é uma provocação de um debate generalizado sobre o estado atual da cultura de rua. Uma reflexão sobre quanto a gente está conseguindo usar nossos espaços para fortalecer a própria cultura e quanto estamos usando esses espaços para fortalecer somente individualmente,  achando que isso reflete um progresso coletivo.”

Ao longo , Rashid ouviu artistas que ele tem como referências, como é o caso de Sabotage, Black Alien, SNJ, e RZO, por exemplo. Mas, durante uma das audições, o rapper também declarou que se inspirou em Dr. Dre para encontrar a sonoridade de seu disco, construída em parceria com Grou, que assina a direção musical ao lado do rapper. Amante da MPB, o músico sampleou o clássico “Paula e Bebeto”, de Milton Nascimento e Caetano Veloso, assim como “O Começo”, de Gonzaguinha.

Criado por Mulheres

Em “Criado por Mulheres”, Rashid homenageia mulheres fundamentais em sua trajetória, da família, como a avó, a mãe, a sogra e a esposa Dani Rodrigues, às referências do rap, como Negra Li, Dina Di, Nega Gizza e Cris SNJ

O artista também destaca as desigualdades enfrentadas pelas mulheres na cena, como a disparidade de cachês e a cobrança social sobre suas carreiras. "A entrega delas é ainda maior. Se eu sair da minha casa agora, do jeito que eu estou aqui, para fazer um show, é perfeitamente aceitável para as pessoas. As meninas não podem fazer isso; vão ser julgadas. Então, elas acabam movimentando mais gente em torno da carreira delas. Quando eu vou fazer um show grande, eu movimento entre 22 a 30 pessoas na equipe. As meninas, provavelmente, devem movimentar em torno de 40 pessoas”, reflete. 

Como alguém que está há anos no hip hop, Rashid vê o fortalecimento do rap feminino, tanto entre nomes atuais quanto entre gerações anteriores, como parte de um processo de transformação fundamental no movimento.

Faixa a Faixa

“CUMULONIMBUS”: É a faixa que introduz o clima do disco: peso e rima. Aqui também começam as primeiras provocações sobre o estado atual da nossa cultura. A introdução dá ao ouvinte uma ideia do que virá pela frente e, no nosso caso, é onde o avião, já em turbulência, inicia sua travessia em meio às nuvens da tempestade. 

No final temos a citação de um texto do Leonardo da Vinci ensinando como se pintar uma tempestade, passo a passo, tudo isso na incrível  voz da Mika Lins, que ainda vai aparecer em outros momentos do disco.

“YOWA”: é a grande encruzilhada da vida onde, obrigatoriamente, pegaremos todos os caminhos. O auge e a fossa, a vitória e a derrota, tudo enquanto caminho para a formação do nosso eu. É uma das tracks onde mais “descarrego” coisas que precisava dizer.

O título “YOWA" se refere ao Cosmograma Bakongo, um símbolo que ilustra toda uma forma de ver a vida dos povos bantu do antigo reino do Congo. O cosmograma nos apresenta o mundo espiritual, o nascimento, o auge da vida e o desencarne como pontos de um caminho, o ciclo contínuo da vida. O yowa é a encruzilhada ao meio do símbolo, onde tudo isso se encontra.

Esses elementos chegaram até mim por meio do livro do Pai David Dias, que também narra, de forma emocionante, um texto no final da música.

“AURORA”: minha ode ao amanhecer e a todos os trabalhadores e trabalhadoras que, cedinho, tomam as ruas correndo atrás da sua sobrevivência. Meu salve para os estudantes buscando seu sonho. Meu incentivo a quem sai da cama destinado a fazer o dia valer, ao povo que move esse país.

É o amanhecer do disco. E tem a participação mais importante de todas pra mim, claro: meu filho Cairo. 

“O QUE DIZEM OS NÚMEROS”: a síntese da ideia de “um rap que te faz sentir que aprendeu algo”. Começou com a brincadeira de fazer “uma letra sobre números” e terminou com dois dos versos mais impactantes do álbum. A ideia foi tentar desenhar um panorama histórico e atual do nosso país a partir de rimas feitas em cima de estatísticas. Uma das composições mais difíceis que fiz.

E essas estatísticas, esses números, nos ajudam a enxergar o Brasil, tanto sua construção quanto seu momento atual em suas contradições, desigualdades e o momento que estamos vivendo.

“NAS CORDAS”: E se eu tivesse a chance de fazer uma música para a trilha do filme Creed? Daí nasceu esse som que é uma analogia entre o boxe e a nossa lida diária. Essa faixa também resgata uma tradição do nosso rap, que é a arte de contar histórias. Tem muito de realidade, especialmente nos sentimentos que alimentaram essa letra, mas a linha narrativa é uma ficção. Isso se você olhar estritamente para a coisa da luta, porque histórias como essas no Brasil existem aos milhares. Jota Ghetto é meu convidado nesta música  e traz a força e o peso que essa faixa precisava.

“CRIADO POR MULHERES”: não tenho certeza se essa música é uma homenagem, um agradecimento ou uma carta para as mulheres da minha vida dizendo que eu reconheço o que fizeram por mim. Aprendo demais com elas, as da minha família de sangue e as da família do rap. Eu precisava dizer algo. 

Ainda que atrasado, ainda que de forma insuficiente, trouxe algumas palavras para dizer como estas mulheres me formaram e salvaram minha vida de diferentes formas.  

“L’APPEL DU VIDE”: Esse título é um termo francês para o “chamado do vazio”, algo que a gente livremente também pode traduzir hoje para “pensamento intrusivo”, quando você está num lugar alto e pensa: “e se eu pulasse?". Aquela coisa de olhar para o abismo e o abismo olhar de volta. Trouxemos esta ideia, mas colocando a música no centro. É um desabafo entre pessoas do mesmo meio, mas com diferentes perspectivas, mesclando os vazios que também são preenchidos e/ou causados pela música. Trago nesta faixa a participação do meu professor Kamau e da absurda Luedji Luna. Ambos criaram versos incríveis.

“OLHA BEM”: mais um exercício de contação de história, um dos maiores alicerces do rap brasileiro, que sempre nos presenteou com grandes histórias. Uma viagem dentro de uma narrativa clássica onde alguém cai numa cilada por confiar demais e acaba numa situação de vida ou morte. Rua, dinheiro, dívida e armas, como num filme dos anos 90, gravado em plano sequência. Aqui também vale destacar a participação do ator Léo Sobrinho, interpretando dois personagens da história. 

“ASAS NOS PÉS”: escrevi essa faixa depois de reassistir ao filme Besouro (2009). Nele, o protagonista usa seu talento na capoeira pra salvar seu povo da opressão. Na minha crônica, o protagonista é um MC cuja habilidade lírica é inalcançável, sendo também sua principal arma na luta contra a opressão.

“OURO, MIRRA E INCENSO”: estes foram os presentes que os 3 reis magos levaram pra Jesus quando este nasceu. Aqui, nós encarnamos os reis magos e estamos levando o que temos de melhor para a cultura que nos salvou. Para a metáfora ficar completa: levamos tudo para a “Santa Cruz”, nome da batalha de rima onde começamos. Projota rima sobre o ouro = nobreza. Emicida rima sobre a mirra = mortalidade. Eu rimo sobre o incenso = divindade. Faixa gravada com a emoção que só 20 anos de amizade e música permitem.

“ETERNO ESTADO DE DESACATO”:  Uma canção totalmente dedicada à cidade de São Paulo e seu ambiente hostil. Uma carta de amor às avessas, uma declaração de ódio platônico à megalópole que tanto me inspira. O rap sempre cantou seu lugar, sua quebrada, seu bairro e, ao ser tão local, fez dessa verdade algo universal. Quis criar um novo hino versão 2026 para a cidade e, para me auxiliar na missão, convoquei a brilhante Flávia K.

“PROTEJA SEU PESCOÇO”: seguindo o tema “São Paulo”, numa realidade mais abrangente, já que Neguinho do Kaxeta, meu convidado, traz sua visão diretamente de Santos. O mote é sobrevivência. O nome da faixa é uma referência direta a "Protect Ya 'Neck", do Wu-Tang Clan. 

“8 DE COPAS”: No tarô, a carta 8 de COPAS se refere a abandonar certas coisas para poder alcançar outras. Na letra, trato da tentativa de largar certas “mochilas” pelo caminho, para que a caminhada seja mais leve. Tenho aqui a companhia da absurda Paula Lima, que trouxe uma aura de altivez, beleza e melodia incrível para a faixa.  

“DEFENSORES DA ARTE DO GUETO”: o coração comportamental do álbum. A música que reivindica toda a atenção para os valores, ideias e postura que fizeram da nossa cultura o que ela é hoje. O mercado musical é feito de produtos, o movimento cultural é feito de ideias e ações. Esse som é sobre a defesa da chama inicial do Hip-Hop. A faixa nasce a partir da música “Arte do Gueto”, de Slim Rimografia. 

“IMUNE”: um dos respiros do álbum, talvez o principal, por ser o alívio que chega no final. Um som sobre a sensação de estar na estrada. A paisagem, a música, a velocidade. Amo pegar a estrada de carro com meu pessoal e traduzir isso em música foi muito prazeroso. Rael era a pessoa certa para esse feat. Ele tem uma relação muito próxima com a rua, com a estrada, sem falar que a música dele é uma baita companhia em qualquer viagem. A faixa se chama “IMUNE” na intenção de transmitir uma mensagem implícita: mesmo em meio a todo este caos é possível achar tempo para viver e observar, a luta também é para isso.

Por:

Pedro Figueiredo

Fotos: Renato Nascimento/Divulgação

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