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“Vão ver que eu escrevo poesia”, diz Ebony sobre “KM2 (De Luxo)”


Por:

Vitória Prates

Fotos: Fernando Mendes

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Em KM2 (De Luxo), Ebony amplia o alcance do seu disco mais autobiográfico para transformá-lo em algo maior: um retrato coletivo, político e sensível sobre o que é existir como mulher negra no Brasil hoje. A versão deluxe foi lançada nesta segunda-feira (7/4) e apresenta sete faixas inéditas: “Sangue Ruim”, “Sojourner Truth”, “Rimo em Qualquer Batida”, “Dona de Casa”, “Baddie Radio” e “Chefe (Nova Mentalidade)”. 

Já nesta sexta-feira (10) ela se apresenta na Audio, em São Paulo, com participação de NandaTsunami e Ciça [ingressos aqui], em show que promete ser bem diferente da turnê de KM2: “Estou preparando um show inteiramente novo. Gosto de tomar a frente dessa preparação e redesenhei o espetáculo: são novos visuais, tracklist, interlúdios. Gostava bastante do KM2, mas agora a gente vai para outro lugar”, contou, sem abrir mais spoilers. 

Versos autobiográficos 

Se antes o álbum orbitava mais diretamente sua trajetória pessoal, agora ele se expande, como ela define: “Tudo que eu tinha para falar da minha vida já falei em KM2, agora eu tô mais no lugar do meu corpo no mundo: corpo político, mulher negra, mulher viva” — onde identidade, violência, desejo, humor e sobrevivência convivem sem hierarquia. KM2 (De Luxo) ainda traz outras surpresas.

Quando questiono se as pessoas vão descobrir algo sobre a Ebony, ou sobre a Milena, ouvindo o álbum, a artista não hesita: “Vão ver que eu escrevo poesia. Estou um pouco ansiosa para saber como vai ser a recepção desses poemas. Sentia vergonha de compartilhar esses escritos, mas agora tive coragem de mostrá-los”, diz. 

“KM2” abre lugar para “Sangue Ruim” na abertura. A faixa não apenas expõe feridas históricas e estruturais, mas também afirma uma postura mais segura e direta da artista diante da própria narrativa. KM2 (De Luxo) encara dores sem suavizá-las, mas também se permite ironia, leveza e até “bobeira”; elemento que Ebony reivindica como parte essencial da experiência humana. “A gente precisa fazer as pazes com a bobeira, não tem nada demais nisso”, afirma, citando “Chefe” como sua música favorita da nossa era. 

Sonoramente, como em seus outros trabalhos, o rap de Ebony é engrandecido com MPB, funk e até uma pincelada de pop. Quando pergunto sobre suas referências, e quem não sai do seu Spotify, Ebony cita Tyler, the Creator, Erykah Badu, Grace Jones, Lady Gaga, Britney Spears, Stromae, Jorge Ben Jor e Red Hot Chilli Peppers como queridinhos.

Outro aspecto que atravessa o projeto é a multiplicidade da própria artista. Ebony rejeita a ideia de uma persona rígida e passa a integrar, cada vez mais, as diferentes versões de si, a Milena e a figura pública que ocupa o palco com força e controle. “Já vesti muito essa roupa, mas cada dia menos enxergo como uma persona, mas como os dois lados da mesma Milena”, resume. Essa fusão aparece tanto nas letras quanto na construção estética do disco, que se propõe como uma obra mais “finalizada”, mais consciente de si.

A capa, assinada por Hester Landim, ilustra bem essa ideia: a adulta em diálogo com sua versão criança. No fim, KM2 De Luxo funciona como um ponto de virada. Não apenas por expandir um trabalho anterior, mas por consolidar Ebony como uma das vozes mais relevantes de sua geração, não só pela contundência do discurso, mas pela capacidade de transformar experiência individual em linguagem compartilhável. 

As novidades de Ebony não param por aí: ela acaba de estrear no From the Block, plataforma criada por Zae Williams em 2021 que rapidamente tornou-se uma das maiores vitrines do hip hop mundial. Sobre o futuro do rap, Ebony vê com bons olhos a cena, mas reconhece que muito ainda precisa mudar: “Sempre vai ter muito para caminhar, o que é ótimo, porque mantém a gente seguindo para algum lugar. As mulheres ocuparem um lugar de mais destaque no rap não é mérito de ninguém além de nós mesmas”, diz.

Ela continua: “Estamos fazendo muita coisa boa, bonitas, maquiadas e de salto ainda [risos]. O rap, cada vez mais, tem se voltado para o que realmente importa. Há espaço para tudo, mas já estava cansada de ver homens se acovardaram atrás do dinheiro, virou algo sobre: ‘Eu tenho, você não’. O mundo está pegando fogo e você é rapper, é sua função tentar, o máximo, possível resolver as coisas com a sua música”, finaliza. 

Ebony - KM2 (De Luxo)

Data: 10 de abril (sexta-feira)

Local: Audio - Av. Francisco Matarazzo, 694 - Água Branca, São Paulo

Ingressos: via Ticket360

Por:

Vitória Prates

Fotos: Fernando Mendes

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