Exclusive Os Cabides por Shay Ng 03

Exclusive Os Cabides quer ver você bater cabeça com o EP roqueiro “Feliz e Triste ao Mesmo Tempo”


Por:

Elisa Bara

Fotos: Divulgação/Shay NG

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"Esse novo trabalho é a Exclusive Os Cabides. É a nossa versão mais pura." No último dia 22, a banda Exclusive Os Cabides lançou o EP Feliz e Triste ao Mesmo Tempo. Formado por Antônio dos Anjos (voz e percussão), João Paulo Pretto (voz e guitarra), Eduardo Possa (guitarra), Carolina Werutsky (bateria) e Maitê Fontalva (baixo e voz), o grupo explora um universo bem específico com ludicidade e autenticidade. 

A banda trabalha com uma sonoridade facilmente reconhecível. As vozes de João e Antônio se misturam, quase em uníssono, e, assim, parecem um coro. As letras tratam de temas cotidianos e banais de forma lúdica, por vezes, brincalhona.

Os catarinenses já lançaram um EP e dois álbuns autorais: Para Endoidar o Cabeção (2019), Roubaram Tudo (2020) e Coisas Estranhas (2024). Agora, o grupo chega ao quarto trabalho da carreira, adiantado pelo single "Bicicleta". Em 2025, Coisas Estranhas foi escolhido como um dos 50 discos do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), consolidando a crescente notoriedade da banda no cenário musical brasileiro.

Feliz e Triste ao Mesmo Tempo possui sete faixas novas, sem abandonar o som lúdico-pop que o grupo elaborou até aqui. No entanto, acrescenta mais um elemento que se torna central: um instrumental denso e marcante, indo do punk ao country. “A gente literalmente gravou com o que tinha nas mãos: guitarra, baixo, chocalho e bateria. Não adicionamos nada. Foi só o que somos em cima do palco", conta Antônio. 

Parte das músicas surgiu na última turnê, na qual a banda realizou mais de 40 shows. Faixa a faixa, vamos entendendo essas composições que trazem a energia dos palcos, do contato com o público e das estradas. 

Em entrevista à Noize, a banda fala sobre o novo álbum, as composições autorais e a experiência de estar em cima do palco — eles apresentam o novo repertório em São Paulo nesta quinta (28/5), no Sesc Pompeia, com vendas online já esgotadas.

Queria começar perguntando sobre o processo de composição de vocês, em especial, das letras. Como ele funciona?

João: A maioria das letras é escrita por mim e pelo Antônio. Nosso processo é parecido. A gente pega o violão e fica viajando um tempo, tocando, até criar as músicas. A partir disso, levamos para a banda esse esqueleto da canção. A banda coloca a cara dela. Tem vezes que muda tudo. No caso das letras, eu gosto bastante de trazer coisas do cotidiano e tentar abordar isso de uma forma mais lúdica. Nós, como banda, temos uma linguagem meio inexplicável e muito nossa.

Antônio: Geralmente, as músicas demoram para amadurecer até chegar o momento de levar para a banda. Às vezes, esse processo leva até dois anos.

Desde os primeiros lançamentos de vocês, a sucessão das músicas conta uma narrativa, principalmente em Coisas Estranhas. Nesse novo EP, isso também acontece? 

João: Eu acho que é uma coisa que acontece totalmente sem querer, na verdade. Mas nós temos esse universo dos Cabides e existe uma magia nisso. Por exemplo, no primeiro disco, as músicas são bem diferentes, mas, por alguma razão, elas conversam. E eu acho que esse é o ponto principal dos nossos álbuns: são músicas diferentes que se encontram em algum lugar. Não fica na mesmice.

Antônio: É tipo fazer uma playlist, né? É fazer algo que começa de um jeito, vai se transformando e, no fim, está de outro jeito, mas que, ainda assim, faz sentido como um todo, porque tem uma narrativa.

Todo o trabalho autoral de vocês nos transporta, enquanto ouvintes, para um universo muito específico. São arranjos quase psicodélicos, vozes que soam quase como um coro e letras que trazem identificação. Isso é proposital?

Antônio: Esse universo sempre existiu, até antes da ideia de lançar um álbum. O João começou a escrever em 2016 e a banda foi montada em 2018, mas as músicas já conversavam entre si, até por serem composições da mesma pessoa. Acho que tem muito da personalidade do João.

João: Tem partes que são propositais. Desde o primeiro disco, a gente vem resgatando coisas que fazem entender que nós somos a Exclusive Os Cabides. A gente vai dando significado para elementos que são característicos do som da banda e que acabam criando essa identidade. Por exemplo, eu e o Antônio cantamos com a mesma voz, em vez de dobrar as vozes. Parece que somos a mesma pessoa, só que não somos, então vira quase um coro. Nesse último disco, isso está um pouco diferente. Mas essa mistura das vozes sempre foi uma marca nossa. Tem também a guitarra do ‘Duds’, que é super específica, assim como a bateria. 

Eduardo: Não é uma coisa de “vamos compor algo que seja Exclusive Os Cabides”. Acho que todo mundo da banda é muito criativo e envolvido com arte no geral, então as coisas acabam surgindo de forma muito genuína. Em algum momento, a gente percebe: “Isso aqui é Cabides”. É um universo muito específico e fácil de reconhecer quando algo encaixa nele ou não. As músicas vão surgindo. 

Antônio: No primeiro álbum, Roubaram Tudo, eu vejo muito como “era o que a gente tinha, então vamos lançar”. Em Coisas Estranhas, que é o segundo álbum, a gente já tinha um leque maior e começou a poder escolher mais, mas ainda não tinha tanta música assim. Agora, para esse EP, a gente já tem um monte de composições. A gente queria fazer um lance mais rapidinho, porque estava com saudade do estúdio e queria lançar “‘Bicicleta”’, que a gente já tocava há muito tempo. Então pensamos: “O que combina com ‘Bicicleta’ e faz sentido estar no mesmo bloco?”.

Eu percebo uma sonoridade bem densa nesse novo álbum, que traz o instrumental cada vez mais como elemento central nas músicas. Vocês acreditam que esse álbum apresenta uma versão diferente da Exclusive Os Cabides?

João: Esse novo álbum é a Exclusive Os Cabides, não uma nova versão da banda. É algo mais puro, mais próximo do ao vivo, cru, sem muitas enrolações.

Antônio: Se comparar, Coisas Estranhas é menos Exclusive Os Cabides do que Feliz e Triste ao Mesmo Tempo. A gente literalmente gravou com o que tinha nas mãos: guitarra, baixo, chocalho e bateria. Não adicionamos nada. Foi só o que somos em cima do palco. Então não é uma nova Exclusive Os Cabides, é a mesma de sempre, mas agora com músicas que ainda não estavam presentes em outros lançamentos.

Eduardo: Também teve o fato de que a gente entrou no estúdio com a experiência acumulada de um ano em que fizemos 43 shows por várias regiões e cidades do Brasil. A gente chegou com essa bagagem como banda e sabendo que teríamos poucos dias para materializar o EP. A proposta era justamente essa: entrar no estúdio, fazer algo com o que a gente tinha naquele momento e sair orgulhoso do resultado. A gente se dedicou bastante para isso e deu super certo.

Fotos por @shay___ng 1

Vocês encerram esse novo álbum com uma música instrumental: ‘Notlin vs. Smellectron’. Essa canção encerra uma experiência. Por que essa escolha?

João: Quando essa música surgiu, a gente chamava de “Putariazinha” [risos].

Carol: Ela é uma personificação sonora do que realmente é a Exclusive Os Cabides. A música nasceu do João querendo estender ‘Castelos de Areia’, criar um final diferente, mais legal. A gente foi tocando e acabou virando isso.

Antônio: É uma música que vem de uma vontade de fazer muito barulho.

Carol: Tem essa cara das coisas que fazemos nos ensaios, em momentos de descontração, brincando mesmo. E, às vezes, isso acaba virando algo que permanece no show. Essa música é uma batalha entre duas guitarras, uma conversa. Pode ser uma discussão, um diálogo, qualquer coisa que a mente puder imaginar. Me lembra muito aquelas batalhas do Guitar Hero. Foi a música mais polêmica do EP. Ficamos discutindo bastante se ela entraria ou não, como ela seria feita, quais elementos teria. No fim, ela entrou mais pela diversão mesmo.

E essa música vai entrar no show?

Carol: Acho que nada é impossível. Talvez isso aconteça quando todo mundo estiver um pouco mais empolgado com a existência dela. Nós até tocamos a música nos ensaios agora, mas acho que não daria tempo de deixá-la boa o suficiente para os shows atuais. Ainda assim, não a vejo fora do repertório. Acho que, em algum momento, ela pode entrar.

Antônio: Eu precisaria de uma buzina de carro no palco e algumas latas de Leite Ninho. Já imaginei elas espalhadas pelo chão para eu simular uma batida de carro, jogando tudo no palco [risos]. Nosso próximo show, dia 28 de maio, é no SESC, e queríamos fazer algo bonito e caprichado. Só que sentimos que não tivemos tempo suficiente para isso. Mas acho que é questão de tempo até a música entrar e conseguirmos transformar isso em diversão, que é exatamente o que ela é. Cada casa de show pede uma energia diferente, então, em algum momento, ela vai acabar aparecendo.


No dia 28 vocês fazem o primeiro show de apresentação desse novo trabalho. Além disso, vão rodar com uma turnê pelo Brasil. Como essas músicas se transformam em cima do palco?

Eduardo: Nossas músicas foram gravadas ao vivo, então acredito que elas serão bem parecidas com as versões do streaming. O que muda é que, ao vivo, os vocais ficam mais esgoelados, as guitarras mais distorcidas e tudo ganha mais energia no geral. Dá para esperar mais sujeira e caos nas apresentações. Mas a essência e o coração das músicas continuam os mesmos.

Antônio: Com o lançamento desse disco, estamos mudando a nossa setlist. Acho que a maior dificuldade e, também, o mais interessante, tem sido construir a ordem dos shows. Talvez quem frequente bastante os nossos espetáculos e tenha uma memória muito boa possa se surpreender com algumas viradas e mudanças na sequência das músicas em relação ao que fizemos no ano passado inteiro. Estamos sempre com mais vontade de tocar. A cada ano, queremos fazer coisas mais doidas e diferentes no palco.

Carol: Esse quebra-cabeça de montar o novo set está sendo algo que estamos descobrindo aos poucos. Mas estamos chegando a um resultado com o qual ficamos satisfeitos. Durante os ensaios, sentimos que encontramos uma ordem que nos deixou felizes, além de novas introduções, pequenas firulas e outras ideias. Vai ser uma novidade tanto para nós quanto para quem estiver assistindo. Isso traz uma empolgação muito grande, uma adrenalina boa. Acho que vai ser um refresco para todo mundo: para nós e, também, para quem já viu o show antes e agora vai encontrar um formato diferente.

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Elisa Bara

Fotos: Divulgação/Shay NG

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