
Quando Rancore entrou em hiato em 2014, assumiu os riscos da teoria do caos, princípio da física que diz que qualquer mudança num cenário, por menor que seja, pode desencadear acontecimentos imprevisíveis. O próprio retorno da banda é um desdobramento disso.
Teco Martins (vocal), Candinho Uba (guitarra), Rodrigo Caggegi (baixo), Gustavo Teixeira (guitarra) e Ale Iafelice (bateria) estão de volta com BRIO (2026), primeiro disco em 15 anos, que terá sua prensagem em vinil pelo NRC+. O kit com LP preto, pôster e capa com cinta já está em pré-venda.
Um dos grupos mais importantes do hardcore brasileiro, o Rancore dispensa apresentações. Mas ainda assim, Teco faz questão de bradar na faixa de abertura do álbum: “Eu sou a teoria do caos / somos um lança-chamas.” Ao longo dessa década e meia, a flama da banda nunca se apagou, e os integrantes não deixaram a música para trás.
Candinho, por exemplo, foi para a Alemanha e se aventurou pelos sons experimentais. Com passagem pelos Estados Unidos, Gustavo se aproximou do universo eletrônico, que culminou em Nuven, seu trabalho solo. Ale gravou dois discos com o Supla, além de, por volta de 2015, ter participado do projeto Sala Espacial ao lado de Caggegi e Teco – que deixou a cidade para se dedicar à agrofloresta, em Indaiatuba, no interior de São Paulo.
O impulso de fazer o BRIO veio da emoção de tocar ao vivo, o maior trunfo do grupo. Em 2023 e 2024, eles voltaram aos palcos em mais de 30 datas em vários cantos do país, o que acendeu a vontade de trabalhar num novo material.
“Buscar a intersecção do que os cinco gostam e acreditam foi quase um milagre, mas conseguimos”, conta o vocalista. “A gente acredita muito nesse disco, em cada uma dessas dez faixas. O amor veio renascido, depois das lágrimas e transformações que a gente teve nas vidas pessoais”, continua.
Quando começaram a gravar, sabiam que tinham um acerto de contas consigo mesmos, porque quando olhavam para os até então três álbuns de estúdio da discografia, não sentiam que esses trabalhos representavam o que a banda é ao vivo. “O Rancore é uma banda suja, uma banda agressiva. Os outros discos até têm isso, claro, mas soam um pouco mais limpos do que a gente era”, Teco analisa.
O produtor musical Guilherme Chiappetta, que também está na ficha técnica de Liberta (2008) e Seiva (2011), foi fundamental para que eles alcançassem a sonoridade que buscavam. Teco compartilha: “Quando a gente estava na oitava série, o Guilherme estava no segundo ano do colegial. Ele viu a nossa banda nascer, é o único produtor possível para o Rancore, o único que entende nossas nuances psicológicas e como ligar cada um de nós”.
Daniel Pampuri, responsável pela mixagem, também foi um personagem importante. “Ele tinha acabado de ganhar o Grammy com a Beyoncé [no álbum Cowboy Carter (2024), em que foi engenheiro de som] e estava trabalhando com o Post Malone quando começou a gravar nosso disco”, o vocalista conta. Trabalhar num disco do Rancore era um sonho antigo de Pampuri, que ligou para eles quando soube da turnê de 2024 e pediu para mixar um álbum da banda, quando BRIO ainda nem era uma possibilidade.
De volta para o começo
Pela primeira vez, o Rancore traz uma fotografia na capa de um trabalho. O autor da imagem é David Uba, pai de Candinho, guitarrista e fundador da banda – que já teve algumas formações ao longo dos seus 25 anos de história.
A foto foi tirada nos anos 1970 e, lá atrás, não tinha agradado David, por conta dos erros causados durante o processo de revelação, que ele mesmo fazia em casa. O registro foi guardado, e o espaço, eventualmente usado para outros fins, inclusive os primeiros ensaios do Rancore. Assim, foi quando Candinho encontrou esse registro enquanto BRIO estava nascendo, foi difícil não escolher o material para estampar o disco.
“A gente já estava trabalhando com o designer Max Bloom [do Yuck] que faria a capa, mas no fim, falei para o Candinho: ‘as fotos do seu pai significam muito mais do que tudo isso, cara. Seu pai abriu espaço da casa dele pra gente começar a banda, ele é um grande mestre na nossa vida’”, Teco relembra.
As texturas da foto chamaram a atenção deles, principalmente porque surgiram a partir da ação humana, mostrando que também há beleza por trás do erro. Fiódor Dostoiévski, José Saramago e Gabriel García Márquez estão entre o rol de influências de BRIO, mas para Teco, as histórias da vida real são a maior inspiração.
“Apesar de tudo o que posso citar, da literatura, da música e do cinema, o que nos alimenta realmente são as pessoas com as quais a gente vive. As histórias, as dores, os amores. Os sorrisos e as lágrimas, tanto de felicidade quanto de tristeza. No final, na ponta da caneta, o que vai sair é a arte na sua forma natural mesmo.”














