
O escritor de novelas Benedito Ruy Barbosa morreu nesta terça (7/7), aos 95 anos, em São Paulo. Um dos maiores autores da teledramaturgia brasileira — que, de tão popular, todo brasileiro sabe seu nome — Benedito dedicou seu trabalho a pintar um retrato do país pouco explorado na TV até os anos 1980: o Brasil rural, dos interiores, longe das praias do Leblon, e por vezes próximo dos imigrantes (especialmente os italianos, visto que também era sua própria origem).
Foram as novelas de Benedito Ruy Barbosa, como Pantanal (1990) e Rei do Gado (1996), que levaram a música sertaneja para a telinha da TV. Inclusive, cantores como Almir Sater e Sérgio Reis estrearam na dramaturgia na novela da Manchete. O caso do Rei do Gado é ainda mais emblemático, pois a TV Globo ainda começava a se abrir para a música sertaneja, enquanto suas concorrentes, como a própria Manchete ou o SBT, já entendiam a popularidade que o estilo musical estava ganhando.
Mas o autor foi além, e trabalhou com artistas de outros estilos musicais em suas novelas. O arranjador Marcos Viana, advindo do trabalho em orquestras e com o Sagrado Coração da Terra, assinou a imponente trilha de Pantanal, enquanto Meu Pedacinho de Chão trouxe um clima lúdico, com influências do folk da banda norte-americana DeVotchKa. Maria Bethânia também foi uma queridinha das trilhas sonoras do autor, tendo cantado o tema de abertura do remake de Pantanal (2022). Ruy Barbosa costumava dizer que a trilha sonora era a alma da novela. Confira abaixo 6 exemplos embematicos que comprovam isso:
Pantanal (1990 e remake de 2022)
Antes de virar novela, Pantanal foi recusada pela Globo, que alegou não ver viabilidade em um projeto filmado na região fora do eixo Rio-SP. A trama acabou sendo realizada pela Rede Manchete em 1990, tornando-se um dos maiores fenômenos de audiência da TV brasileira, ameaçando inclusive a liderança da concorrente.
A trama acompanhava o retorno de Jove à fazenda do pai, José Leôncio, e o despertar de sua paixão por Juma, criada solitária em meio à natureza pantaneira. A trilha, com a canção-tema composta por Marcus Viana, foi um sucesso tão grande que ganhou um segundo disco no mesmo ano. Foi ali que Almir Sater estreou como ator, interpretando o violeiro Trindade, e viu sua canção "Um Violeiro Toca" entrar para a trilha sonora. Décadas depois, o remake da Globo, em 2022, prestou reverência a essa história: a música "Pantanal" foi regravada por Maria Bethânia e pelo próprio Almir Sater, que voltou à trama agora como o chalaneiro Eugênio, contracenando com o filho Gabriel Sater, escalado para viver Trindade. A nova trilha somou clássicos regravados — como "Chalana" e "Amor de Índio".
O Rei do Gado (1996)
Exibida entre 1996 e 1997, O Rei do Gado narrava o conflito entre duas famílias rivais unidas pelo amor de Bruno Mezenga e Luana Berdinazzi, em meio a discussões sobre reforma agrária e concentração de terras no Brasil. Sua trilha sonora tornou-se, até hoje, a mais vendida da história das novelas brasileiras, somando mais de três milhões de cópias entre os dois volumes lançados. O disco reuniu praticamente todas as grandes duplas sertanejas em ascensão nos anos 1990 — Chitãozinho & Xororó, com "Coração Sertanejo"; Zezé Di Camargo & Luciano, com "Sem Medo de Ser Feliz"; e Leandro & Leonardo, com "Doce Mistério" — além do clássico "Admirável Gado Novo", de Zé Ramalho, usado para o núcleo dos sem-terra. A trama também deu à música sertaneja um símbolo curioso: a dupla fictícia Pirilampo & Saracura, formada especialmente para a novela por Almir Sater e Sérgio Reis, que sozinha emplacou sete das doze faixas do segundo volume.
Renascer (original de 1993 e remake de 2024)
Renascer contava a saga de José Inocêncio, um homem que reconstrói sua vida e sua família após perder tudo com a crise do cacau na Bahia. A versão original, exibida em 1993, abria com "Confins", enquanto "Lua Soberana" — hoje o grande símbolo sonoro da trama — tocava em outros momentos da história, na voz de Sérgio Mendes.
31 anos depois, o remake de 2024 trouxe de volta justamente "Lua Soberana" para abrir os capítulos, agora interpretada pelas baianas Luedji Luna e Xênia França.
Cabocla (remake, 2004)
Escrita originalmente em 1979 e pelo próprio Benedito Ruy Barbosa em 2004, Cabocla acompanhava a trajetória de uma jovem criada na roça que se envolve em uma trama de amor proibido e preconceito de classe na fictícia Vila da Mata. A versão de 2004 foi estrelada por Vanessa Giácomo em seu primeiro trabalho de destaque na TV, e Daniel de Oliveira (os dois formariam um casal na vida real). A trilha sonora, desta vez, inteiramente nacional, incluía clássicos sertanejos e modas de viola, incluindo Roberta Miranda e Rick & Renner.
A abertura ficou por conta de "Madrigal", composição dos ex-integrantes do RPM Luiz Schiavon e Fernando Deluqui, enquanto "Nosso Amor É Ouro", de Zezé Di Camargo & Luciano, embalava o par romântico Belinha e Neco. O disco ainda reuniu Milton Nascimento, Ivan Lins, Caetano Veloso e Flávio Venturini.
Meu Pedacinho de Chão (2014)
Diferente das demais sagas rurais de Benedito, o remake de 2014 de Meu Pedacinho de Chão — pensado sob o olhar de uma criança — apostou em uma trilha praticamente sinfônica, fugindo do sertanejo que marcava boa parte da obra do autor. A trama, ambientada na fictícia Vila de Santa Fé, seguia a professora Juliana e o autoritário coronel Epaminondas.
A abertura e as faixas instrumentais inéditas foram compostas pelo maestro Tim Rescala e gravadas pela Orquestra Sinfônica Heliópolis com o Coral da Gente, enquanto as canções cantadas da trilha vieram quase todas da banda americana DeVotchKa, conhecida pela trilha do filme Pequena Miss Sunshine. Foi uma escolha estética ousada, quase de fábula, que mostrou a versatilidade do universo sonoro que se podia construir a partir dos roteiros do autor.
Velho Chico (2016)
Última novela de Benedito Ruy Barbosa, exibida em 2016, Velho Chico usava o Rio São Francisco como fio condutor da história de amor entre Santo e Maria Bonita, dividida por rivalidades entre famílias ribeirinhas. Sai de cena o sertanejo e entra a música nordestina e a MPB, reunindo nomes como Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai na "Suíte Correnteza", um dos pontos altos do repertório. A abertura ficou por conta de uma versão orquestrada de "Tropicália", regravada pelo próprio Caetano Veloso com arranjo de cordas junto à Orquestra Sinfônica de Heliópolis. Completavam o time de estrelas Gal Costa, Alceu Valença, Ná Ozzetti e Tom Zé.




