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Maria Luiza Jobim fala sobre “Rosa no Céu”, a vivência em Lisboa e parceria com Marcelo Camelo


Por:

Damy Coelho

Fotos: Marina Guimarães/Divulgação

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A música de Maria Luiza Jobim não especula fronteiras ou convenções prévias. Isso se reflete tanto em sua vida pessoal, com a mudança do Rio de Janeiro para Lisboa, quanto em sua carreira. Solo, lançou os sinestésicos Casa Branca (2019), Azul (2023) e Rosa no Céu, ainda que não tenha planejado dedicar os títulos dos discos a diferentes cores. "Tudo em mim é muito feito de forma intuitiva, e só depois eu consigo explicar melhor. É meio terapia, você vai vivendo e depois entende", disse ela, em um bate-papo com a Noize por videochamada.

Antes da guinada solo, Maria Luiza Jobim já tinha sido vocalista da banda de indie rock Baleia, já integrou o duo eletrônico Opala e hoje navega (também) pelas águas familiares de um som bossa-novístico, cantando em português, inglês e francês, em uma versão de Serge Gainsbourg.

Ao se mudar para Lisboa, disse que a cidade, para ela, seria uma tela em branco. Ali, se deixou influenciar pela paisagem — especialmente pela cor do pôr do sol que dá nome ao novo trabalho, "Rosa no Céu" — e pela amizade que se estreitou com o casal Mallu Magalhães e Marcelo Camelo. O músico assina a produção do álbum, que ainda conta com participações de Chico Chico e Jacques Morelenbaum.

Na entrevista, Maria Luiza Jobim fala sobre o novo disco, a vida em Lisboa e, claro, Tom Jobim. A caçula do mestre da bossa nova perdeu o pai ainda criança e, como não poderia deixar de ser, sua vida é sombreada por esse legado, em todos os sentidos —inclusive na facilidade que tem em compor melodias, assim como o pai.

Mais velha, hoje ela sabe como dosar tanta influência e referência em sua própria arte. "Sou agraciada por ter esse pai tão presente mesmo não estando mais aqui, de um jeito muito louco", conta ela. "Eu escolhi o mesmo ofício que ele. E acho que isso é meio que dizer pra mim mesma que ele está vivo, que vai continuar vivo, que vai continuar cantando — e que eu posso fazer a minha parte, a minha vocação também. Hoje consigo encostar na obra dele de um jeito muito mais natural e seguro, sem medo de que ela me engula, entendendo que aquilo também é meu, porque passa pela minha infância, pela minha vivência como brasileira, como filha", conta ela.

Confira o papo abaixo.

Você fez esse disco inteiramente em Lisboa. Queria entender como é a sua vida por aí, sua rotina, o dia a dia, e como a cidade te inspira, te conecta com uma outra forma de fazer música.

Bom, para começar, o nome do disco já vem de uma experiência aqui em Lisboa, mais especificamente na Costa da Caparica, uma praia aqui perto. Foi uma tarde muito linda, dessas tardes de verão que na verdade são noites, porque o sol fica até quase 10 da noite. Eu estava com a Mallu [Magalhães] e o Marcelo [Camelo], e a gente viu o céu completamente rosa. Aqui tem essa coisa da luz, do céu de Lisboa, que é muito especial. Eu falei: "Amo rosa no céu, é tão lindo." Isso virou uma brincadeira minha e da Mallu: sempre que o céu ficava rosa, em qualquer lugar do mundo, a gente tirava foto e mandava uma pra outra — virou nossa linguagem do amor.

Acho que meu processo criativo passa muito por uma coisa sinestésica, de cores e texturas... e na hora de escolher o título, foi bem imediato, porque esse rosa no céu traduz, antes de tudo, o céu daqui — o céu de onde eu estou agora, esse novo momento. E tem essa coisa da transição: eu estar vindo para cá, de cantar em três línguas.

Tudo em mim é muito feito de forma intuitiva, e só depois eu consigo explicar melhor. É meio terapia, você vai vivendo e depois entende aquilo. Fui vendo que o disco se criou naturalmente: fiz várias músicas em inglês, já tinha canções em português, e no fim, resolvi botar a do [Serge] Gainsbourg ["La Javainase"] em francês.

Então, é um disco sem fronteiras, e eu gosto disso porque é uma característica forte minha, a de ser estrangeira. Acho que é um disco estrangeiro para qualquer um — tanto para o brasileiro quanto para o português, quanto para o francês.

Eu sempre me senti um pouco estrangeira nos lugares, por ter me mudado muito. Até no Brasil, às vezes, eu me sentia estrangeira, apesar de ser minha casa — meu coração é do Brasil, eu nasci lá, minha família é brasileira.

Falando nisso, no disco tem a faixa "Portugal", que curiosamente é em inglês…  As coisas não estão conectadas a um significado só, né?

É, tem um pouco dessa brincadeira, de exaltar essa característica do estrangeiro, do olhar de fora. Acho que às vezes a gente precisa sair de onde tá pra reconhecer quem a gente é, e o que a gente vive. Morando fora, eu entro muito mais em contato com o meu lado latino-americano, com a minha brasilidade — só que de uma outra maneira.

Você já lançou um disco chamado Azul, e agora esse se chama Rosa no Céu — a gente logo pensa numa antítese, um completando o outro. Mas você diz que não necessariamente, que a coisa aconteceu no processo. Você vê algum diálogo entre os dois discos, ou é mais uma coisa de ruptura, de um outro momento, que reflete uma vida com outras musicalidades e referências? Foi só uma coincidência?

Acho que o que eles têm em comum é a sinestesia mesmo. E não foi de propósito, é engraçado isso.... Quando coloquei o nome Rosa no Céu, liguei pra Mallu e pro Camelo pra perguntar se eu podia usar, porque era uma brincadeira nossa, pessoal. Só depois que eu me toquei que era uma cor — pensei, gente, todos os meus discos têm nome de cor [risos]. Agora, o quarto disco vai ter que ter nome de cor [risos]. Mas não foi uma coisa pensada, tipo "vou fazer uma sequência de cores".

O Marcelo Camelo produz esse disco, e tem essa parceria criativa com a Malu também. Como essa aproximação de morarem na mesma cidade influenciou a produção? Você acha que esse disco teria nascido assim se você não estivesse em Lisboa, perto deles?

Acho que seria completamente diferente — é tudo junto e misturado. Conheci o Marcelo através da Mallu.

Acho que eu e a Mallu já tínhamos muita vontade de nos conhecer e virar amigas. Sempre admirei muito a abordagem dela, tanto pra música quanto pra vida, pra arte, pra tudo — sempre me identifiquei muito, me via no jeito dela. E o Marcelo eu sempre fui fã, imensa. O trabalho dele... eu sou da geração dos Los Hermanos, e costumo falar que ele é o meu Beatle favorito [risos]. Acompanhei muito o trabalho solo dele depois, então ele norteou muito toda a minha criação — eu bebi muito da fonte do Marcelo.

Quando a gente começou a trabalhar, eu estava no processo de querer vir pra cá, e aí abriu um portal, porque foi um casamento perfeito: minhas composições carregam muito dele, de eu ter escutado tanto, ele está muito dentro de mim. Então, quando ele encontra o meu trabalho, ele também se vê naquilo, consegue elevar da maior forma.

Na primeira vez que ele me mandou um rascunho da primeira música que eu mandei pra ele, eu chorei, porque é aquela coisa de alguém te dar uma coisa que você nem sabia que precisava. O olhar dele realmente elevou e potencializou tudo que eu fiz. Eu me sinto muito agraciada com esse encontro — não teria Rosa no Céu se não fosse essa parceria.

"Go Go Go" é uma música sua, a letra é sua — uma das minhas favoritas, junto com "Portugal". Como é esse processo de composição? Você tem um caderninho de letras, acessa letras antigas para mesclar? Como é a escrita, o que te influencia?

Eu sou muito mais da música do que da escrita na hora de compor. Tenho até dificuldade de decorar letra — desde pequena tenho essa brincadeira de, quando toca uma música, já saber qual é só pelo primeiro acorde, pelo primeiro pitch. Sou muito obcecada com melodia — sei um solo inteiro, conheço a primeira nota — mas às vezes tenho dificuldade de decorar minhas próprias letras. Preciso de apoio na hora do show.

Mas tenho algumas canções que fiz integralmente, e o que me ajuda é quando a canção vem mais pronta. Nunca vai vir pra mim uma letra sozinha — tipo "escrevi uma poesia, quero musicar isso" — isso nunca aconteceu comigo.

O que aconteceu com "Go Go Go" foi que eu fiz muito rápido, numa noite, sozinha. Durante o dia eu tinha tocado uns acordes, gostei da sequência, e já tinha uma melodia. Fui botar a Antônia [filha da cantora] pra dormir e voltei pensando "isso é meio bom, o refrão tem que ter uma coisa que seduz, que repete". Aí lembrei de uma história que eu tinha vivido e escrevi a letra sobre ela — saiu de chumbo, prontinha. Saiu em inglês porque era uma história que eu tinha vivido que começou em Nova York — já foi pensada instantaneamente naquele universo, em inglês.

Pensando na sua trajetória solo, você vai cada vez mais se permitindo deixar aflorar sua influência bossa-novística, que tem a ver com o universo do seu pai. Queria entender como é para você, hoje, ressignificar a memória dele e carregar o nome Jobim. Essa elaboração do luto é meio que eterna, ne…

Nossa, esse é tópico de sessão de terapia! [risos].

Sou agraciada por ter esse pai tão presente mesmo não estando mais aqui, de um jeito muito louco — e poder aproveitar isso de alguma forma. Minha terapeuta fala uma coisa que ficou na minha cabeça: quando você perde uma pessoa, você faz um luto, e esse luto tem um certo começo, meio e fim. Só que no meu caso, o mundo não deixa ele descansar — então eu vivo um luto eterno, digamos, pelo ofício da filha.

Achei isso interessante, porque tem esse lado de quem perdeu o pai muito cedo, mas por outro lado eu escolhi o mesmo ofício que ele. E acho que isso é meio que dizer pra mim mesma que ele está vivo, que vai continuar vivo, que vai continuar cantando — e que eu posso fazer a minha parte, a minha vocação também.

Com o tempo fui resolvendo isso.

Hoje consigo encostar na obra dele de um jeito muito mais natural e seguro, sem medo de que ela me engula, entendendo que aquilo também é meu — que passa por mim, pela minha infância, pela minha vivência como brasileira, como filha, como tudo.

Nesse disco eu não gravei nenhuma música dele — no primeiro disco gravei, no segundo gravei uma música do meu irmão, que era do tipo dele e ainda evocava ele. Mas tem umas músicas bem brasileiras, e tem uma bossa que é "Sofá Vermelho", que foi engraçado, porque eu pessoalmente não me vejo fazendo bossa. Nunca sentei pra pensar "vou fazer uma bossa".

Quando mostrei "Sofá Vermelho" pro Marcelo, não falei nada, e ele fez um arranjo, fez uma bossa nova. Eu estranhei — na verdade eu estava fazendo uma música pensando no Jorge Aragão, um sambão bem pra trás, quase um pagode, uma melodia que eu imaginava o Jorge Aragão cantando. Aí falei: "Marcelo, isso era pra ser um pagode!" Mas ficou lindo, então combinamos: virou uma bossa nova de amém. Hoje deixo essa bossa nova entrar com muito mais tranquilidade — tanto gravar as músicas dele quanto tocar bossa, sem medo de ser rotulada como a filha que mimetiza.

Pra fechar, você tem alguma memória de algum disco físico que tinha em casa, que gostava?. Como é sua relação com a forma analógica de ouvir música?

Adoro discos de vinil, passear em lojas... Meus vinis estão no Rio — vim pra cá numa tela em branco, não fiz uma mudança, e disco é trabalhoso de carregar, ainda mais em fronteira. Mas eu sou totalmente da geração do CD, da fita. Lembro de um disco dos Gipsy Kings que eu cantava — é engraçado, porque eu achava que aquela música era pra gente. Eu dançava com meu pai. E lembro também da Tábua de Esmeralda, um dos meus discos favoritos — esse eu ainda tenho em casa.

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Damy Coelho

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