
Marco da música brasileira contemporânea, o álbum de estreia de Céu fundiu a sofisticação do samba, do bolero e das cantorias populares às melodias cosmopolitas do trip-hop, reggae e hip-hop. Embalado por clássicos como "Malemolência" e "Lenda", o trabalho ganha agora uma perspectiva intimista e guiada pela própria artista, aproveitando o embalo do lançamento em vinil pelo Noize Record Club, que saiu este ano.
A seguir, a cantora e compositora revisita faixa a faixa as memórias de estúdio, as provocações feministas e as referências afetivas — de Dorival Caymmi a Fela Kuti — que moldaram a identidade do seu primeiro disco.
Lado A
1. Vinheta Quebrante: Sempre coloquei vinhetas na minha discografia, muito inspirada pelo rap – essa coisa das mixtapes de juntar, colar, não deixar o som parar. Elas também eram ótimas pra colocar no show, porque eu não precisava ficar falando, não sou boa disso [risos]. O Marco fez esse scratch que amei e foi assim que começamos.
2. Lenda: Essa traz uma coisa bem soul. Tem também uma visão feminista, bem atual. Eu canto tipo: “amor, preste atenção, senão, você vai virar sapo!” [risos]. O príncipe volta a ser sapo rapidinho! Acho bem linda a letra, já é um extrato do que eu buscava na música.
3. Malemolência: Sempre tive uma obsessão por aquelas músicas do folclore brasileiro em formato de canto e resposta, com aquele tararará [cantando mais grave] tararará [cantando mais agudo], algo bem de roda popular. Sempre gostei desse universo. Então inventei uma música a partir disso, mas de um jeito meu, e ela acabou virando o que é hoje.“Malemolência” nasceu de uma ideia simples, uma canção curtinha, mas que entrega um balanço.
4. Roda: Foi uma das músicas que a gente fez quando o disco já estava bem encaminhado. Eu morava na Pompéia [bairro da zona Oeste de São Paulo] com minhas amigas, por isso o cito na música. Sempre fui muito ligada à natureza, então, trago essas referências, mas da perspectiva de uma menina vivendo naquele bairro. Para quem não conhece, o bairro é cheio de morros, ruas recortadas, aquela paisagem meio feia, meio bonita, que é super São Paulo. Acabei fazendo uma música densa sobre como sobreviver nessa experiência tão paulistana.
Por isso escrevo “se eu quero uma floresta, eu ouço Villa-Lobos”, abrindo já com a ideia de que consciência é a maior arma. Tem também uma intervenção importantíssima do DJ, trazendo aquele ruído e aquela atmosfera que é muito São Paulo.
5. Rainha: Ela veio de um pensamento sobre mestiçagem, racialidade, porque não existe nada que não tenha partido da África como matriz. E também sobre a injustiça que segue o extrativismo do mundo com esse lugar, sobre o quanto isso é injusto, horroroso, uma podridão humana. Eu fazia essas reflexões e já gostava de afrobeat. Hoje, quando se fala em afrobeat, os jovens entendem outra coisa, mas, na época, era o de Fela Kuti. Acabamos fazendo uma espécie de “afrobeat em São Paulo”.
6. 10 Contados: Mais uma de amor. Era bem resolvida, uma música que saiu bem naturalmente. Foi inspirada no meu primeiro namoro, que foi importante pra mim. Dai, saiu essa canção bonitinha, muito resolvida. Acabou virando um trip-hopzão forte.
7. Samba na Sola: É um sambinha… Foi uma das primeiras composições da minha vida. Eu era muito menina, acho que tinha uns 18 anos. É bonitinha porque eu vejo um monte de referências do que eu conhecia de samba... O primeiro disco traz todas as suas referências, né? No show, a gente chama essa de sambete [risos], tocamos antes do bis. Eu acho muito bonitinho esse momento, de trazer uma leveza, uma juventude, tem uma certa ingenuidade – e também é Brasil, sabe? Eu gosto disso.
Lado B
1. Vinheta Dorival: Sou apaixonada pelo Dorival Caymmi. Era o meu jeito de dizer isso: a partir das vinhetas, vou contextualizando o disco. O Beto (Villares) também compartilhava essa paixão, porque o Caymmi é um violão que leva uma orquestra inteira.
2. Mais um Lamento: Essa acabou virando um bolerão. Acho que toda a minha obra é baseada em samba, reggae e bolero [risos]. No fundo, não foge muito disso. As embalagens vão para outros lugares: viram trip-hop, viram outras coisas, mas a raiz é sempre essa: samba, reggae e bolero.
3. Concrete Jungle: É essa coisa caribenha porque sempre quis passear pela América, não só daqui, mas subir um pouquinho. Aí vai pra Jamaica. Sou apaixonada por todas as vertentes do reggae. Com essa versão do Marley, quis fazer esse recorte em São Paulo com “Concrete Jungle”. De maneira geral, trago muito do reggae na minha discografia.
4. Véu da Noite: Eu tinha esse tema, que achava muito bonito. Sempre gostei, principalmente naquela época, de fazer canções pequenas, como mini-haikais. Sempre curti jazz e fiz essa melodia que se abria como se fosse uma lua cheia. Quando cantei para o Beto no estúdio, ele disse para desenvolver, chamar os caras para tocar. Gostei muito do resultado. É aquele lugar que, comercialmente, você fala: "Meu Deus, ela tá fritando" [risos]. Mas eu gosto. E aí a gente quis trazer esse lado dessa fritaçãozinha dos caras tocando, dessa melodia bonita.
5. Valsa pra Biu Roque: Essa história é bonitinha: no disco do Siba, o Fuloresta do Samba (2002), tem uma faixa do Biu Roque, chamada “Maria, Minha Maria”. Quando ouvi essa canção, eu chorei na hora. Pensei: “meu Deus, é a coisa mais linda do planeta”. Então escrevi uma resposta para a música dele. Virou uma valsa para o Biu Roque – como se ele tivesse feito a música para mim, que também sou Maria [risos] e eu respondesse de volta. E o mais legal é que depois o Siba ainda me chamou para cantar com ele. Foi muito emblemático.
6. Ave Cruz: É essa coisa do coro da raiz, da música folclórica do Brasil [cantando na entonação: “ave cruz virge crispim, não tem dó de mim”]. Veio das pesquisas de música brasileira que Beto trazia, e eu escrevi. Essa foi a única faixa produzida pelo Antonio Pinto, que foi figura-chave na minha carreira. Ele foi o primeiro a dizer que eu era compositora: Foi pra ele que eu mostrei uma música, ele ouviu, avaliou e disse: “É, amor… você é compositora. Te fode aí” [risos]. Por isso, tenho um carinho especial por esse track.
7. O Ronco Da Cuíca: Essa situa as referências da época, e eu sempre achei bonito gravar coisas de outras pessoas. É um movimento de reverenciar quem vem antes. Sempre falo isso nos meus shows.
8. Bobagem: Essa é outra com um jeito de pensar o feminismo. De falar: poxa, não precisa objetificar meu corpo para eu ter relevância. Eu posso ser o que eu sou. Eu sou bonita do jeito que eu sou. A gente é bonita. Não precisa tá na banca de jornal – hoje nem existe isso, né? [risos] – mas tinha essa coisa na época, de passar na banca, ver todos com a mesma cara nas capas de revista, e pensar: “e aí? Será que não podemos ir além disso?”. E aí o Beto trouxe para essa coisa bem minimal, que eu acho bonita. É quase uma poesia. Tanto é que eu canto praticamente a capella.











