Elis Regina 1976 - Arquivo - Roberto de Oliveira-Bandeirantes

Filho de Elis Regina fala sobre o processo de restauração das gravações da cantora


Por:

Isabela Yu

Fotos: Divulgação

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João Marcello Bôscoli embarcou em um projeto especial para homenagear a mãe, Elis Regina. O produtor musical está restaurando as gravações de um especial da cantora para a TV Bandeirantes, de 1976. A primeira faixa restaurada foi lançada no Dia das Mães de 2024, com “Para Lennon e McCartney”. Na mesma ocasião deste ano, foi a vez de “Corsário", composição de João Bosco e Aldir Blanc.

As músicas vão integrar um álbum, que será lançado até o fim do ano. A próxima faixa a ser lançada será “O Mestre-Sala dos Mares", outra da dupla. A nova versão traz o violão de João Bosco. Além dela, há também “Triste", “Velho Arvoredo", “Bodas de Prata", entre outras.

O processo de restauração capitaneado pelo engenheiro de som Ricardo Camera consiste em isolar o vocal de Elis do restante dos instrumentos com ajuda de softwares e programas de inteligência artificial regenerativa.

“Esse tipo de projeto não seria possível há dez anos. A gente tem a voz que foi gravada em 1976 no microfone de show, menos sensível, mas mesmo assim tem muito vazamento", divide João Marcello Bôscoli. “Corsário” ficou em desenvolvimento durante um ano. Após limpar o som dos instrumentos do microfone da voz, novos arranjos foram elaborados para acompanhar a gravação.

O produtor musical conta que esse processo se assemelha ao reparo de obras de arte. No entanto, não há risco à matriz, que foi processada digitalmente: “Há a ideia fantasiosa de que o prompt vai fazer tudo. Para restauração não adianta. Cada segundo vai dar trabalho. Imagine você ter dez ferramentas para o reparo de um quadro; no nosso caso, cada uma delas se torna um software".

O passo seguinte foi gravar os arranjos de Marcelo Maita, executados com instrumentos e equipamentos da década de 1970, no intuito de preservar o universo da obra. A cereja do bolo foi convidar o percussionista Paulinho da Costa para colaborar na faixa. O músico queridinho de Michael Jackson e Quincy Jones não chegou a gravar com Elis em vida, mas o herdeiro garante que a cantora o admirava.

Essa não é a primeira vez que essas gravações chegam ao público. Em 1984, os arranjos da gravação foram apagados e regravados no que se tornou o disco póstumo Luz das Estrelas. A versão atual propõe uma nova leitura: “A gente se baseou na composição e melodia da Elis. A versão de 1984 trabalhou com timbres que não faziam parte do seu universo sonoro".

“Sendo um álbum da Elis, é um ponto sensível. Ela morreu em 1982; no ano seguinte, veio uma safra de sintetizadores bem diferentes da gravação original. Embora o disco tenha feito sucesso, não tinha a ver com Elis. Como sou fã, não gosto de ouvir. Então, no nosso, partimos da voz de 1976. Pegamos tudo o que ela tinha decidido, quais seriam os instrumentos, a instrumentação, para ir povoando a sua voz”.

Entusiasta das novas tecnologias, João Marcello acredita que esse tipo de restauro pode ser feito em menos tempo. “Por exemplo, um fã traz uma fita K7 de uma gravação de show da Elis e traz para cá. A gente separa os canais para tentar emular ao máximo a arquitetura do lugar, quantas pessoas cabiam ali, o tipo de superfície, o que estaria sendo ouvido”.

“Sempre ganhei da minha mãe walkman, videocassete, micro-ondas, laptop, instrumento musical e bateria eletrônica; são ferramentas. Eu só não quero que tire o ser humano da jogada. Ele não pode ser tirado da equação. Inclusive, a inteligência artificial é pouco útil para a música. Na minha opinião, a música não é um problema que precisa de solução. Música é a solução. E fazer música, esse processo é o mais legal”.O produtor musical vai apresentar “Corsário” ao vivo no espetáculo Elis e Eu nesta sexta-feira, 5/6, no Blue Note, em São Paulo. Infelizmente, os ingressos já estão esgotados.

Por:

Isabela Yu

Fotos: Divulgação

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