
No final de março, Flea lançou seu primeiro álbum solo, Honora (2026). O expoente baixista dos Red Hot Chili Peppers já havia dado um gostinho de sua musicalidade fora da banda no EP Helen Burns (2012) e em projetos como o Atoms For Peace, para além das diversas colaborações com outros artistas — mas, nem de longe, essas empreitadas representam a inovação deste novo projeto solo.
Em Honora, Flea toca trompete, baixo e ainda canta — indo contra suas próprias convicções, sendo ele mesmo alguém que se diz desprovido de afinação. Pois ele solta o gogó já na segunda faixa, "A Plea" — num canto que está mais para o spoken word, é verdade. Entre o flow do baixo e o andamento do jazz, ele brada versos como: "I don't care about your fucking politics", um protesto contra a ganância travestida de política e as guerras civis, uma temática, infelizmente, atemporal.
O disco, gestado pela vontade de retomar contato com o trompete, primeiro instrumento da vida de Flea, foi idealizado quando o artista estava prestes a completar 60 anos. Quando decidiu se dedicar à prática, levou a atividade a sério: aproveitou até os momentos de pausa durante a tour dos Red Hot Chili Peppers para tocar. O resultado aparece neste álbum, com produção assinada pelo próprio e Josh Johnson, acompanhado pela banda formada por Johnson (saxofone), Jeff Parker (guitarra), Anna Butterss (baixo), Deantoni Parks (bateria), Mauro Refosco e Nate Walcott, Bright Eyes. Os velhos parceiros de RHCP, Chad Smith e John Frusciante, ainda dão uma palinha em "Golden Wingship" e "Frailed", respectivamente (com direito a Frusciante também tocando trompete).
Honora é um disco de jazz moderno, mas tem o flow do funk, uma levada ambient, uma pitada de soul e o peso do rock em passagens estratégicas, mostrando que é difícil categorizá-lo em uma só prateleira.
Nós ouvimos o disco e contamos 5 curiosidades sobre ele. Confira abaixo:
1. Trompete lover
Flea conta que descobriu o jazz nas sessions que o padrasto fazia em casa. Aquela música o inebriava, mas ele era uma criança, ainda não sabia o que era jazz. Mais tarde, leu o livro de uma história pictográfica do estilo e descobriu o nome de seus futuros ídolos — Charles Mingus,Bud Powell. Com o trompete, ele se sentia descolado. Com o baixo, podia dar voz ao animal que tinha dentro dele. "Quando consegui tirar um som bonito do trompete, todo o caos dentro de mim foi acalmado", escreveu ele, em sua autobiografia Acid For the Children (2019).
"Essa máquina louca, com seus tubos curvados, válvulas e campana. Um quebra-cabeças frio, mas quando colocado na boca de um ser humano, o amor é soprado pra dentro dele. É um porta-voz do divino"
2. Feats e inspirações
Honora conta com feats de Thom Yorke e Nick Cave. Coescrita com Thom Yorke, “Traffic Lights” tematiza a distopia da pós-verdade e a necessidade de escolher um caminho diante de tanta informação. Já a releitura de Nick Cave para "Wichita Lineman", de Jimmy Webb e Glen Campbell, poderia perfeitamente integrar a discografia de Cave, como se Flea cedesse um espacinho em seu disco para o artista brilhar com sua voz grave.
3. Raio X da capa
Flea escolheu uma foto emblemática para estampar a capa: uma imagem da sogra do artista, Shanin Badiyan, no Irã dos anos 1960.
"Uma mulher forte, cujo espírito de um Irã livre vive em seu coração", diz ele. Pode-se dizer que é um disco dedicado à memória das matriarcas de sua família, já que Honora é o nome de sua trisavó irlandesa.
4. Instrumentista brasileiro
Mauro Refosco é catarinense e gravou as percussões de Honora. As faixas "A Plea" e "Traffic Light" destacam o groove de Refosco, que também integra o Atoms For Peace com Flea e Thom Yorke. O instrumentista começou a carreira na banda Forro In The Dark, experimentando o estilo brasileiro com jazz fusion. Chegou a tocar com David Byrne e com os próprios RHCP.
5. Fã de Frank Ocean
Flea é um grande fã de Channel Orange (2012). "Esse disco me tocou, tive uma conexão muito forte com as músicas. Ouvi milhares de vezes", disse ele à NME em 2016.
Por isso, não é de surpreender que sua estreia conte com uma versão de "Think About You", uma das faixas favoritas dele. E não é qualquer versão, mas uma releitura jazzística no trompete, uma das bonitas do disco.
O disco ainda conta com versões de Ann Ronnell ("Willow Weep for Me") e do Parliament Funkadelic ("Maggot Brain").







