Exposição anexa ao Formosa Hi-Fi lança vinil a partir de obras em domínio público


Por:

Raissa Lima

Fotos: Dandara Bettino/Divulgação

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Obras que geram novas obras. Essa é a ideia por trás de Formosa, da Nuvem ao Chão, vinil que a Galeria Domínio Público lançará em agosto. O disco reúne 20 faixas inspiradas em videoartes em domínio público exibidas no espaço de arte digital localizado sob o Viaduto do Chá, em São Paulo, idealizado pela Casa NUA em parceria com a Formosa Hi-Fi.

O disco reúne releituras para piano de trilhas sonoras de vídeoartes do projeto 6529, assinadas pelo compositor taiwanês radicado em Berlim, Eric Pan. Quem explica a iniciativa é o curador e artista Hugo Faz, em entrevista à Noize.

A galeria

Dedicada à exposição de artes digitais contemporâneas, a galeria Domínio Público se propõe a construir um ambiente de reflexão sobre descentralização, propriedade e democratização do acesso à arte em tempos de internet. Por isso, as obras presentes na galeria estão em domínio público, como sugere o nome do projeto, e podem ser compartilhadas, reutilizadas e exploradas comercialmente.

Segundo Hugo Faz, o projeto busca investigar novas formas de circulação e financiamento da produção artística. Para isso, tenta se opor à lógica atual da relação entre artista e público que acontece nos ambientes controlados por grandes corporações tecnológicas. 

Inaugurado no segundo trimestre de 2026 com a exposição Formosa, da Nuvem ao Chão, o espaço apresenta mostras renovadas periodicamente. Atualmente, está em cartaz a exposição 6529 memes, que explora a cultura dos memes como linguagem artística e aborda temas ligados à cultura digital, à descentralização da internet e aos ideais cypherpunk associados ao universo cripto.

Arte digital e blockchain

As obras da galeria são disponibilizadas sob licenças na licença Creative Commons Zero e registradas em blockchain. Embora o mercado de NFTs (tokens não fungíveis) tenha perdido a força inicial após o auge especulativo de 2021 e continue distante do grande público, iniciativas como essas seguem explorando usos do blockchain, um registro digital imutável que permite documentar transações em rede como possibilidade de garantir autoria e rastreabilidade para artes e outros bens no meio digital. 

Abaixo, o curador Hugo Faz conta um pouco sobre a ideia que fundamenta a proposta e o processo de concepção do disco.

Vocês trazem blockchain e NFTs, linguagens acessíveis majoritariamente a uma elite cultural, financeira e tecnológica, associados a uma intelectualização da arte. O que seria essa democratização da arte que você propõe? 

Quando a gente fala de internet descentralizada, a gente fala da web 3, que é a web que roda no blockchain. A web 1, a gente fala que é ler; a web 2,  ler e escrever; e a web 3, ler, escrever e possuir. A democratização que a Web3 propõe justamente tentar unir duas coisas: acesso livre à arte e novas formas de vínculo direto entre artista e público. Hoje, com o streaming, a gente ganhou facilidade de acesso, mas também criou uma internet extremamente centralizada, dominada por poucas plataformas que controlam distribuição, algoritmo e remuneração.

O blockchain e os NFTs surgem como uma tentativa de devolver parte desse poder aos artistas e às comunidades. Diferente do modelo tradicional, em que a plataforma intermedeia tudo, a arte descentralizada permite que o artista tenha uma relação mais direta com quem acompanha e apoia seu trabalho, inclusive criando formas de pertencimento e colecionismo digital.

Claro que ainda existe uma barreira tecnológica e cultural importante e esse é um desafio real do movimento hoje. Mas a proposta de democratização não está em tornar todo mundo especialista em blockchain, e sim em criar uma infraestrutura mais aberta, transparente e menos dependente das grandes corporações da internet. A ideia é que qualquer pessoa continue podendo acessar e consumir arte livremente, mas que também existam novas possibilidades de participação, apoio e comunidade em torno dessas obras.

E como foi a concepção do disco de vinil?

A concepção do disco surgiu a partir das obras reunidas na campanha de financiamento da Galeria Domínio Público. Inicialmente, a ideia era produzir um vinil que reunisse trilhas sonoras de videoartes lançadas em domínio público pelo projeto 6529, criando uma experiência de escuta conectada a esse universo artístico.

Mas, durante as conversas com o Eric, a proposta evoluiu. Em vez de apenas compilar as trilhas originais, ele sugeriu reinterpretá-las ao piano, criando novas composições inspiradas nessas obras.

Assim, o disco passou a funcionar não só como uma trilha sonora do projeto, mas também como uma demonstração prática do potencial do domínio público: obras gerando novas obras, livres para circulação, reutilização e transformação.

A relação com as obras é direta, porque cada faixa nasce da interpretação de peças visuais e sonoras criadas por artistas do ecossistema 6529. O disco traduz essas obras para uma nova linguagem, mantendo o espírito colaborativo e aberto que orienta tanto a galeria quanto o próprio projeto.

A City Upon a Cloud still cover
A City Upon a Cloud

Como vocês pensaram a comercialização do disco? Ele vai ser vendido da mesma forma que as obras, para os colecionadores de NFTs?

A ideia da tiragem inicial do disco é fazer 300 cópias, porque 300 é um número um pouco mágico dentro do projeto 6529. Essa é a tiragem mínima de qualquer obra oficialmente lançada no projeto. Dentro dessas 300 cópias, algumas serão distribuídas, por exemplo, para os próprios artistas que produziram as 30 obras que vão compor as 30 capas diferentes.

Os colecionadores de NFT que compraram essas 30 obras também vão receber exemplares. A gente também vai separar algumas unidades para parceiros e para a coleção permanente do Formosa. Outra parte será comercializada, servindo também para continuar financiando o bem público que é a existência da galeria, inteiramente sustentada pela venda de obras em domínio público, os NFTs do projeto, como acontece desde o começo.

Quando você fala desses termos, da linguagem do cripto, referências dessa cultura da web 3, você acredita que tudo isso aproxima novos públicos ou fecha ainda mais o projeto em uma bolha específica?

Eu não acho que fecha, porque não existe nada fechado. O que existe é que muita gente ainda não está familiarizada com essa linguagem, não sabe exatamente do que se trata. Mas isso não precisa ser uma barreira. A Galeria Domínio Público é um bom exemplo disso.

Mesmo que as obras ali tenham sido emitidas como NFTs, quem está consumindo não precisa ter contato com isso. No fundo, continuam sendo obras de arte digital, e arte digital já existe muito antes do blockchain. E o conceito de domínio público as pessoas entendem perfeitamente.

Por isso a gente nem coloca isso como “criptoarte”. A gente fala de arte digital mesmo, porque é um conceito mais direto, mais acessível. Quando você explica o que é domínio público, as pessoas já reagem de forma muito natural, sem precisar de conhecimento técnico.

Então eu não vejo isso como uma bolha. A música, por exemplo, já é uma linguagem universal. E a ideia é justamente não restringir o acesso, pelo contrário, é tornar tudo o mais livre possível, sem que a tecnologia vire uma barreira para o público.

A galeria fica sob o Viaduto do Chá (Rua Coronel Xavier de Toledo), junto à Formosa Hi-Fi, em frente ao Theatro Municipal de São Paulo.

Domínio Público l Arte Contemporânea em Creative Commons Zero

Funcionamento regular: de quarta-feira a sábado, das 10h às 17h.

Local: Formosa Hi-Fi (subsolo do Viaduto do Chá com entrada pela escadaria em frente ao Shopping Light), Centro Histórico de São Paulo – SP

Entrada gratuita. Ingressos : dominiopublico.nua.casa





Por:

Raissa Lima

Fotos: Dandara Bettino/Divulgação

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