
Coloquei os discos de vinil no balcão da loja. O vendedor, com uma longa barba branca e um boné surrado e confortável, olhou os seis exemplares selecionados. A especialidade dessa loja, chamada Antone's Record Shop, são os discos de rock, folk e blues. Senti que ele me olhou com certa curiosidade e soltou a frase: "Você toca gaita, né?" Confirmei, com uma pequena ponta de orgulho pelo reconhecimento.
Acabei de retornar de Austin, cidade que sedia o festival SXSW. E como eu faço em qualquer viagem, organizei as prioridades antes do embarque. O que isso significa na prática? Saber se vai rolar um show bacana e procurar pelas melhores lojas de vinil daquele lugar. E, se possível, ainda pesquisar os mercados de pulga. O resultado é frustrante muitas vezes, mas garimpar é catar pedra até achar ouro.
Na primeira ida à cidade, a cultura do vinil estava em declínio. Era 1997. O meu foco estava concentrado nos CDs. Fui para lá em uma jornada solitária pelas cidades de blues dos Estados Unidos. Austin é a terra do Stevie Ray Vaughan e tinha, até então, a maior quantidade de bares de música ao vivo em uma mesma rua. Não podia sair do roteiro. Vi muita coisa boa, mas fico pensando no tanto de vinil que eu deixei de olhar.
Em tempos em que o buscador sugere ocorrências por IA, eu desconfio de tudo. Fui procurar a etimologia de "garimpo" e escolhi a mais plausível encontrada: a palavra deriva de grimpa, que era como se chamava o cume de uma serra. Os exploradores que buscavam pedras preciosas nesses lugares de difícil acesso eram chamados grimpeiros.

Bom, de grimpeiro para garimpeiro, foi um pulo. O dicionário Michaelis define a linguagem figurada de garimpar como "procurar e selecionar minuciosamente coisas, objetos, palavras, expressões, etc.".
Toda pessoa que ama vinil entende garimpar como esse campo da busca de algo precioso em lugares remotos, empoeirados e, às vezes, desordenados.
Procurar por discos de blues no Brasil é uma tarefa inglória. Não são muitos os exemplares lançados aqui. E os importados que chegam são raros. Então, você acaba encontrando os mesmos títulos quase sempre, com poucas surpresas. A loja Big Papa Records, na Galeria Nova Barão, em São Paulo, era uma exceção mais recente.
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Na minha memória reside a finada Satisfaction Discos, em Copacabana, a loja que me apresentou ao Stevie Ray Vaughan. Então, quando tenho a chance de sair do Brasil, busco sempre títulos de blues e soul. O que me leva de volta a Antone's e ao camarada barbudo.
De fato, só tinha escolhido levar gaitistas: Jr. Wells, Paul Butterfield, James Cotton, Little Walter. O vendedor ter reconhecido essa peculiaridade na minha escolha foi mais uma garantia do atendimento.

A Antone's Record Shop não é apenas uma loja de discos. A sua história nasce com uma casa de shows aberta em 1975 por Clifford Antone. No palco do Antone's passaram nomes como Muddy Waters, Jimmy Reed, Buddy Guy e muitas outras lendas. Em 1987, o dono resolveu abrir a Antone's Record Shop. Logo depois, lançou um selo de blues. Com uma vida inteira dedicada à música, Clifford Antone ajudou a fazer da cidade um destino musical.
Quando entrei no recinto, havia uma banda tocando exatamente na seção onde queria olhar os discos. Lembrei que o garimpo tem surpresas no caminho. Esperei. E, ao fazer isso, honrei a história dali. Na Antone's, o show chegou antes dos discos.
*André Kassu é publicitário, canhoto, daltônico e gaitista nas horas vagas. Música é uma parte fundamental da sua vida. É a coisa mais perto do divino que ele conhece.





