
Como muitos adolescentes que viveram a virada do milênio, Larissa Luz ouvia rock. Sendo uma adolescente que cresceu pelas casas de shows em Salvador, o gosto ganha contornos locais: ouvia de Slipknot a Inkoma (que tinha Pitty como vocalista), mas também Gonzaguinha e Djavan, tudo permeado pela percussão que marca a musicalidade baiana.
Em entrevista à Noize, as palavras como "curiosidade" e "intensidade", que ressaltam na personalidade da cantora e não deixam de explicar essa mistura sonora, também estão presentes em Desmonte, seu quarto álbum — com destaque pro exemplo literal da faixa "Intensa" ou no verso: "o que me atravessa não é nem a falta de intensidade, é a falta do básico", em "D.R" ou na hardcore "Acorda".
Produzido pela própria com Danillo Panda e Ícaro Motta, o álbum trabalha o hardcore ligado a outros estilos também afrodiaspóricos, como o samba-reggae e o ijexá. "Essa mistura acabou formando quem eu sou. Quando digo que esse disco me reconecta com aquela Larissa, é porque ele recupera uma coragem criativa que existia antes de qualquer expectativa de carreira. É uma conversa entre quem eu fui e quem me tornei", conta ela.
Para dar ainda mais liga, contou com a parceria de Ícaro Motta, que chegou com referências certeiras e um jeito particular de tocar guitarra, e Danillo Panda, que trouxe uma bagagem eletrônica e afrodiaspórica. "Foi massa, rendeu muita troca e pouco ego", resume. "Desmonte fala de excesso de informação, excesso de estímulo, excesso de tensão. E eles conseguiram transformar essa complexidade em linguagem sonora", conta.
Trajetória multidisciplinar
Larissa Luz começou a estudar canto e teclado aos dez anos antes de se tornar vocalista de bandas locais e, em 2007, assumir o microfone do Ara Ketu — posição que ocupou por cinco anos e que a revelou ao Brasil. Na carreira solo, lançou os álbuns Mudança, Território Conquistado e Trovão, além do EP Deusa Dulov. Território Conquistado foi indicado ao Grammy Latino de 2016 na categoria de Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa. Pelo reconhecimento do trabalho como cantora - e atriz! - venceu o Prêmio Bibi Ferreira de Melhor Atriz em 2018, na pele de Elza Soares em Elza — O Musical.

Confira a entrevista completa com a artista:
“Desmonte” é rico em referências musicais, mas é um álbum calcado no peso do rock. Por que lançar um disco de rock agora?
Porque o rock sempre esteve comigo. Antes de ser artista profissional, antes de entender o mercado, eu já era uma adolescente fascinada por guitarras, distorção e pela potência que existe numa música que parece querer mover alguma coisa de lugar. Também existe uma questão histórica que me interessa muito. O rock é uma linguagem profundamente atravessada pela cultura negra, embora essa memória tenha sido apagada em muitos momentos. Então fazer um disco de rock agora também é uma forma de reivindicar pertencimento, de ocupar um território que sempre foi nosso.
Além disso, sinto que estamos vivendo um tempo que pede menos anestesia e mais reação. Desmonte nasce desse desejo de produzir movimento. É um disco que questiona estruturas, provoca e convida à ação, e poucas linguagens me parecem tão adequadas para isso quanto o rock.
Você disse que esse álbum te conecta com a Larissa Luz da adolescência. Como era essa juventude em Salvador? Para onde você gostava de ir, o que gostava de escutar?
Eu era muito curiosa, intensa e meio inquieta com o mundo. Circulava bastante pelas casas de show underground do Rio Vermelho. Tinha algumas clássicas, como o Idearium e o Café Calypso, que eu frequentava e onde também cheguei a tocar. Vivia bisbilhotando estúdios, ficava vendo bandas ensaiarem, tentando entender como aquelas coisas aconteciam.
E tinha aquele programa clássico da juventude: sentar nas balaustradas, tocar violão e passar horas conversando sobre arte, comportamento e política sem necessariamente chamar aquilo de política. Musicalmente eu ouvia muita coisa. De Cazuza a Slipknot, passando por System of a Down e bandas locais como Inkoma e Catapulta. Mas também ouvia muita MPB: Djavan, Gil, Gonzaguinha. Acho que essa mistura acabou formando quem eu sou. Quando digo que esse disco me reconecta com aquela Larissa, é porque ele recupera uma coragem criativa que existia antes de qualquer expectativa sobre carreira ou posicionamento. É uma conversa entre quem eu fui e quem me tornei.

Desmonte vai do hardcore ao pagodão, passando pelo samba e rap. Podemos dizer que ele é uma somatória de tudo o que você é e dos encontros que teve durante o processo?
Completamente.
Eu nunca consegui me enxergar dentro de uma única prateleira musical. Sou fruto de muitos mundos ao mesmo tempo. Sou uma mulher negra de Salvador que cresceu ouvindo samba-reggae, pagodão, música afro-baiana, mas também rock, rap, blues e MPB. Então, Desmonte não foi um exercício de mistura. Ele já nasceu misturado porque eu sou misturada.
E os encontros foram fundamentais. Áurea Semiseria e Zé Atumbi não estão no disco apenas como participações. Eles representam uma atitude diante da arte. São artistas que admiro porque fazem seus caminhos de maneira muito própria, sem pedir autorização. Isso conversa profundamente com o espírito do álbum.
O que você ouviu, leu ou viveu nesse período que te inspirou na composição de “Desmonte”?
Ouvi muita coisa diferente. Voltei para discos que marcaram minha adolescência, ouvi artistas contemporâneos, ouvi música baiana, ouvi rap, ouvi rock e ouvi silêncio também. Mas acho que as maiores inspirações vieram da vida.
Eu estava observando as relações ao meu redor, os conflitos políticos, as redes sociais, a forma como a gente tem aprendido a performar felicidade enquanto carrega exaustões profundas.
O disco nasce de uma pergunta que me acompanha há algum tempo: o que a gente precisaria desmontar para voltar a existir de maneira mais inteira? Então as músicas falam de amor, mas também falam de mercado. Falam de comportamento, de desejo, de liberdade, de raiva e de coragem. Falam de estruturas externas e internas.
Essa intensidade transborda para a sua vida pessoal? Ela te ajuda a criar?
Acho que a resposta curta é: sim. Sou uma pessoa intensa. Sempre fui. Durante muito tempo enxerguei isso como um defeito, porque a intensidade costuma ser tratada como excesso, especialmente quando aparece em mulheres.Mas hoje vejo de outro jeito.
A intensidade me faz mergulhar profundamente nas coisas. Quando amo, amo muito. Quando estudo um assunto, vou até o fim. Quando crio, crio com o corpo inteiro.
Claro que existe um preço. Às vezes cansa. Às vezes dói. Às vezes me faz viver emoções de forma muito amplificada.Mas também é exatamente daí que nasce grande parte da minha criação artística. “Intensa”, por exemplo, não é uma defesa cega da intensidade. É quase uma negociação com ela. Uma tentativa de entender que aquilo que muitas vezes me disseram para diminuir talvez seja justamente uma das minhas maiores fontes de potência.




