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Lilia Cabral transmite faceta singela de Rita Lee em “Balada da Louca”, peça sobre os últimos anos da artista


Por:

Damy Coelho

Fotos: Miro; Guilherme Samora/Divulgação

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As cortinas se abrem, e Lilia Cabral aparece com um conjuntinho azul e cabelos cor da lua, à la Rita Lee, cantando “Luxo Nem Lixo”, enquanto o público ouve o inconfundível piano de Roberto de Carvalho. Assim tem início o monólogo Balada da Louca, em cartaz no Teatro Faap, em São Paulo, até o dia 8 de agosto.

O cenário é simples: uma cadeira, os astros pendurados e outros objetos que fazem sentido no universo da artista. E Lilia, que vai transitando entre esses objetos enquanto narra, sob a persona de Rita Lee, o difícil processo da descoberta do câncer de pulmão, ainda durante a pandemia. A obra é inspirada no livro Rita Lee: Outra Autobiografia (2023), que narra justamente esse período da vida da artista. 

Se a primeira Uma Autobiografia, best-seller de 2016, era solar e recheada de curiosidades de bastidores musicais, nessa, vemos uma artista mais reclusa, já fora dos palcos, na companhia de seus “meninos” e seus bichos, levando a vida calma e feliz que escolheu para sua aposentadoria. 

Até que vem o diagnóstico, que ela só descobre após ir ao médico para checar os efeitos da vacina contra a Covid. O texto é denso por narrar o sofrimento da doença, mas ainda dosado com bom humor, características da escrita de Rita — um exemplo é o nome que ela dá ao tumor: "Jair".

“A temática dos últimos cinco anos e o câncer é bem delicada”, pontua Guilherme Samora, em entrevista à Noize. “Mas ela o trata com humor, ironia e autodeboche. Esse foi o nosso principal foco na hora de adaptar o texto para o monólogo”, diz ele.

Talvez ainda faça um monte de gente feliz

O espetáculo dirigido por Beatriz Barros (O Avesso da Pele) é uma das homenagens em forma de projetos que Rita vem recebendo desde sua partida, em 2023. Foram dois documentários em 2025, Mania de Você (Prime Video) e Ritas (Globoplay), além do espetáculo Rita Lee, uma Autobiografia Musical, estrelado por Mel Lisboa que contou com temporadas esgotadas. Mas, ao contrário da celebração e do grande elenco de outrora, dessa vez, no palco, temos uma personagem solitária, interpretada com singeleza por Lilia. 

Mas Guilherme Samora, autor e idealizador do projeto, não teve dúvidas de que a atriz era a escolha certa para viver Rita Lee nesse momento delicado. “Tive certeza de que seria a Lilia”, conta ele, em entrevista à Noize.

Samora lembra-se de quando viu pela primeira vez o encontro de Lilia e Rita, nos bastidores do programa Altas Horas, em 2012 — sabendo que Lilia era fã confessa da cantora. “Eu estava no elevador com a Rita e presenciei o encontro de olhares entre as duas. Lembro dos olhos da Lilia traduzindo toda a emoção que sentiu ao vê-la”.

Anos depois, Lilia se encontraria com Guilherme e Roberto de Carvalho, durante o processo criativo da peça. O músico e eterno parceiro de Rita Lee gravou os pianos que aparecem tanto nos interlúdios do monólogo quanto em ápices como “Luxo Nem Lixo” e "Caso Sério”, cantados pela própria atriz. 

Samora conta que, se não fosse pela benção do Roberto, não teria levado o projeto adiante. “Ter ele deu ainda mais força a tudo. A gravação foi impressionante. Conversávamos sobre as cenas, e aquele piano simplesmente ‘descia’”, conta Guilherme. 

Guilherme Samora - Lilia Cabral - Roberto de Carvalho

Duas obras, duas personas 

O monólogo estreou no dia 22 de maio, um domingo, dia que Rita Lee escolheu para ser seu novo aniversário — era o dia de sua xará, Santa Rita de Cássia, muito mais legal que o 31 de dezembro, véspera de réveillon, em que ela disputava espaço com as esperanças advindas do feriado universal. 

Essas passagens estão em Rita Lee: Outra Autobiografia (2023) e podem ser reconhecidas pelo leitor mais atento. “Uma vez, a Rita me disse que Uma Autobiografia é sobre a Rita Lee, e Outra Autobiografia é sobre a Rita. Acho que isso define bem o quanto essa obra humaniza a Rita. É um olhar muito pessoal para o mundo”, diz o autor.

Com o teatro cheio, noto que algumas pessoas se surpreenderam com o teor do monólogo, que, mesmo com um texto que recai para o bom humor, emociona justamente pela falta que Rita Lee faz. Ao sair do espetáculo, noto a quantidade de senhorinhas emocionadas com a peça, mas não só. Há um pai com a filha adolescente, duas garotas com aparência de calouras universitárias e muitas famílias reunidas. 

O monólogo acaba sendo mais uma  prova de que a obra de Rita Lee segue quente e atemporal. “A Rita é tão genuína, tão verdadeira, que todo mundo se sente íntimo dela”, conta Guilherme. “Suas músicas contam segredos da vida. Sem falar que ela é a padroeira das ovelhas negras. E sua turma é enorme! Sempre será”.

Rita Lee: Balada da Louca

Local: Teatro Faap

Endereço: Rua Alagoas, 903, Higienópolis, São Paulo - SP

Temporada: 22 de maio a 9 de agosto; sextas e sábados, às 20h; domingo, às 17h.

Ingressos no site do teatro. Bilheteria física: de quartas a sábados, das 14h às 20h e domingos, das 14h às 17h.

Por:

Damy Coelho

Fotos: Miro; Guilherme Samora/Divulgação

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