Lucia Vulcano com foto de Francielle Cota (@caderninhoazul), styling de Camila Duarte (@mulherdodemo) e maquiagem, cabelo, iluminação e apoio emocional por Poliana Marques (@pollyterror) (1)

Lucia Vulcano mistura punk, emo e Marília Mendonça em novo disco


Por:

Revista NOIZE

Fotos: Francielle Cotta/Divulgação

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Quando lançou sua estreia solo, vim, vi e me fodi, em 2024, Lucia Vulcano achava que estava se despedindo da carreira musical. A mineira, mestre em Música pela UFMG, tinha passado anos como guitarrista e vocalista do power trio pata, atravessado uma pandemia que obrigou todo mundo a parar e repensar a vida, e já não queria (ou não conseguia mais) carregar o peso de ter uma banda. “Fiz o disco pensando: pelo menos vou lançar isso aqui e boa”, lembra.

Mas, como tudo nessa vida, o que aconteceu depois escapou dos seus planos. O corte do clipe de “ninguém manda em mim” deu uma viralizada no Instagram e TikTok, graças à caneta nervosa e debochada de Lucia, que canta: "Quando eu for veia/ eu quero ser uma veia barriguda, cachaceira, bafo de maconha, com os peito lá no chão. Com o suvaco cabeludo e grisalho, toda linda e enrugada, perigosa e gostosa, com uma faca no meião".

A autenticidade da faixa, embebida pelo hardcore e cantada de forma escrachada por Lucia, foi compartilhada por gente como Lucas Silveira (Fresno) e Alice Caymmi. Ali, ela viu uma nova perspectiva para seguir em frente. “Mudou bastante a minha visão. Vi que tinha gente querendo me escutar”, conta.

chucra & sensível, seu mais recente disco, já nasce de outro lugar. Se o primeiro reunia o que ela tinha em mãos na época, agora Lucia pôde pensar com calma na sonoridade que queria para o trabalho. Ficou tudo “mais amarradinho”, nas palavras dela.

“Há uma beleza em ser sentimentalmente chucra e brutalmente sensível”, comenta ela, que escolheu como primeiro single "animal", faixa que também abre o disco, num desabafo sobre a realidade capitalista e a vontade de voltar a tempos mais simples (ou até primitivos).

Ao dar play, o ouvinte pode se lembrar de bandas como Hole, Alice in Chains ou L7, mas a inspiração punk e hardcore da artista traz uma criatividade sonora que ajuda a alimentar uma nova e interessante cena de mulheres brasileiras fazendo rock, incluindo o funk-nu metal de Mc Taya ou a pegada punk do The Mönic.

Mas uma das referências que mais chamam a atenção no disco é a de Marília Mendonça. Fã declarada da cantora, Lucia regravou um de seus sucessos, "Eu Sei de Cor", num rock que lembra o hardcore melódico brasileiro dos anos 2000. “Ela ocupa dentro de mim um lugar de muita familiaridade, de conexão mesmo”, diz a artista.

O amigo Thiago Machado (Porquinho) assina o instrumental dessa faixa e de “hábito”, e o resto da turma é igualmente de casa. O disco foi gravado no Acústico Motor, em Belo Horizonte, com produção de Rafael Dutra, parceiro de Lucia desde os tempos do pata. “Todo mundo que participou é meu amigo. Esse disco veio desse lugar de afeto — apesar dessa palavra estar meio cringe hoje em dia", brinca ela. Para conhecer o trabalho de Lucia Vulcano, leia (e ouça) chucra e sensível faixa a faixa:

“animal”: É sobre o desejo de abandonar a civilidade e suas imposições ridículas e viver de maneira mais simples e livre, como um animal. Tem um riff divertido que contrasta com um verso bem melódico, construído apenas com acordes maiores.

“garota problema”: Tem riffs com tempos quebrados e mudanças de compasso, como uma mulher bêbada à procura de confusão — apesar dela dizer que é vítima da confusão. A ideia de ser livre e fazer o que bem entende ofende o status quo, que prefere uma mulher comportada e controlável.

“um dia eu crio juízo”: É sábado à noite: você já bebeu tudo o que tinha que beber, tudo já aconteceu e você já se entregou aos perigos e prazeres da noite. É uma música punk e rápida, com um refrão mais melódico.

“o demônio de minas gerais”: É sobre o estranhamento da própria imagem, a dissociação da realidade e a perda do “eu”, à mercê de um demônio que não sabe que é um demônio. É uma música mais pesada, com versos pesados e um refrão mais melódico. Também tem mudanças de compasso e tempos inusitados.

“tudo que existe nessa terra é maldito”: Sempre odiei a frase “você sofreu para aprender”. Às vezes você sofre e não aprende nada. É só o sofrimento por ele mesmo, a tragédia como um fim em si mesma, que não traz nenhum benefício — somente te estraga por dentro. É a música mais lenta e limpa do disco, o expoente da parte “sensível”. Quase uma valsa em 3/4 para embalar a tristeza.

“monstro”: Um monstro tenta te convencer de que a vida é assim mesmo, onde amor e ódio são as mesmas coisas e você não tem para onde fugir. A bateria é quase um riff, acompanhada por um baixo cromático que emula o caminhar do monstro. Com explosões de “humor” nos refrões, ele vai crescendo até se mostrar inteiro em uma ponte etérea, com muitas camadas de vozes e instrumentos se envolvendo numa crescente até o fim da música.

“hábito”: Pedi para meu amigo Thiago Machado, o Porquinho, fazer uma música para o meu disco novo. Aí nasceu “hábito”: o instrumental é todo dele e a letra e a melodia são minhas. Se você vai morrer, é melhor morrer na mão de algo conhecido, criando um hábito. A música tem um riff metaleiro muito foda no meio e um refrão chiclete.

“eu sei de cor”: É uma versão emo BR dos anos 2000 para a música que ficou famosa na voz da finada Marília Mendonça.

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Revista NOIZE

Fotos: Francielle Cotta/Divulgação

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