Alice Caymmi por Rodrigo Sombra 3

Alice Caymmi fala sobre atualizar o repertório do avô: “me sinto mais completa”


Por:

Damy Coelho

Fotos: Divulgacão/Rodrigo Sombra

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O sobrenome não nega: Alice Caymmi nasceu para a musa música. Filha de Danilo Caymmi, neta de Dorival Caymmi e sobrinha de Nana, Alice poderia ter seguido pelo caminho mais fácil — mas preferiu dar um rumo novo à própria trajetória. Carregou o sobrenome com respeito à própria ancestralidade, mas, no fim, conseguiu ser, reconhecidamente, Alice: a Alice dos experimentalismos, da música pop, da performance intensa, ora teatral, ora romântica.

Sob essa alcunha própria, lançou cinco álbuns: Alice Caymmi (2012), Rainha dos Raios (2014), Alice (2018), ELECTRA (2019), Imaculada (2021). Rainha dos Raios, por exemplo, hoje ganha status cult e contou com espetáculo em homenagem aos 10 anos de lançamento.

Essa espécie de ruptura com o repertório familiar já chegou a causar algumas farpas lançadas publicamente, mas Alice se manteve firme em seu propósito. E, por se manter firme, soube quando era a hora de voltar para casa. Às vésperas do centenário do avô, em abril, lançou Caymmi, álbum de releituras do repertório clássico de Dorival. O disco tem produção assinada por Iuri Rio Branco (Marina Sena, Jean Tassi) e reúne clássicos como "Maracangalha", "Dois de Fevereiro", "Dora", "Canto de Obá", "Canção da Partida (Suíte do Pescador)", "Morena do Mar" e "O que é que a baiana tem?".

O primeiro single, "Modinha Para Gabriela", já mostrou o propósito do disco: dar um refresh no cancioneiro clássico brasileiro misturando-o a estilos como o reggae, a salsa e o R&B. Esse toque cosmopolita não deixa o álbum menos calcado na baianidade — pelo contrário: atualiza essa identidade. Afinal, são estilos musicais que Alice considera eternos, que influenciaram o mundo e também a Bahia como ela é hoje. "A Bahia de hoje é diferente da Bahia que o meu avô viu e testemunhou. É uma outra Bahia", explica, em entrevista à Noize.

Eu nasci assim, eu cresci assim

Se nós, como brasileiros, crescemos ouvindo essas canções, para Alice, que as ouviu direto da fonte, a escolha do repertório foi ainda mais especial — e trabalhosa. Pedimos a ela a difícil missão de eleger suas favoritas. O grande xodó, ela diz, é "Canto de Obá", uma oração em homenagem e proteção à família. "Mas, com o tempo, eu fui ficando cada vez mais encantada e apaixonada por 'O que é que a baiana tem?'", conta.

Alice Caymmi por Rodrigo Sombra 4

O lançamento vem simultaneamente ao espetáculo Para Minha Tia Nana, que ela apresenta desde 2018 revisitando as canções da tia à sua maneira. Mexer nesse baú de memórias musicais tão logo após a morte de Nana, em 2025, vem sendo uma montanha-russa emocional. "A cada hora, eu tô sintonizando uma energia diferente da minha ancestralidade, e são energias muito distintas. Uma hora eu tô feliz, outra hora eu tô triste", conta. "É engraçado, porque tristeza e decepção amorosa eram temas muito presentes no trabalho da Tia Nana, enquanto meu avô tinha mais essa coisa da celebração, mais solar. Então eu preciso mudar muito de energia."

À medida que foi lapidando as canções, Alice percebia que elas também eram um pouco suas — talvez um movimento necessário para fazer as pazes com suas próprias raízes e mostrar que, além da Alice pop-experimental que construiu a carreira pautada na singularidade, ela também é um pouco (ou muito) Caymmi. "Agora que essas canções também se tornam minhas através da minha releitura, eu me sinto mais eu, mais completa", diz ela. "Porque eu trouxe pra dentro de mim o entendimento do porquê de eu estar aqui, de onde eu vim. Essa é a minha raiz, esse é o centro de tudo pra mim. Então, quando eu me aproprio disso, eu me sinto muito mais potente, ganho mais luz com isso."

Por:

Damy Coelho

Fotos: Divulgacão/Rodrigo Sombra

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