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Samuel Rosa comenta inspirações de cada faixa do primeiro álbum solo


Por:

Revista NOIZE

Fotos: Rafa Rocha

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O cantor e compositor Samuel Rosa completa 60 anos de idade em plena fase de reinvenção. Arquiteto do pop rock nacional, o músico celebra a nova idade e também a nova fase pós-primeiro álbum solo, Rosa (2024) que marca sua assinatura estética após a dissolução do Skank, em 2023. Em um mercado fonográfico pautado pela pressa e pelo consumo efêmero de singles, o artista mineiro dribla as previsões do algoritmo ao propor um convite à sensibilidade e à audição atenta.

Neste faixa faixa para à Noize, o músico destrincha a as canções do disco — gravado em Belo Horizonte ao lado de uma nova banda de apoio —, analisa as transformações de seu próprio DNA criativo e crava sua visão definitiva sobre o real significado de um clássico popular. Confira:

“Me dê Você”: A mais Jamaica do álbum, mas é uma Jamaica abrasileirada tanto na letra quanto no arranjo, é um pouco acelerada e tem a percussão do Daniel Guedes. Buscava um disco bem brasileiro, ainda que flerte com a minha essência no indie rock, Clube da Esquina e brit pop. Tem o violão de nylon e uma letra apaixonada do Carlos Rennó, que é pródigo de produzir esse tipo de canção. Essa foi uma das primeiras músicas a ficar pronta, então abro o disco e o show com ela. 

“Ciranda Seca (Dinorah)": É uma música inspirada na Dinorah, personagem da Alice Carvalho, na série Cangaço Novo, mas também fala de um arquétipo feminino. Confesso que estava na dúvida até entrar a segunda parte, que o Pedro Kremer me ajudou a fazer os acordes. Pensei na levada de bateria meio diferentosa, meio reggae, mais puxada pro rock. Fiz a melodia da segunda parte, mandei para o Rodrigo [Leão] e ele colocou as palavras. Ficou lindo! É uma das minhas músicas preferidas, ela levou um tempo até ser formatada, não saiu de cara desse jeito. 

“Não Tenha Dó": Uma bossa pop, assim como “Segue o Jogo". Fui beber na fonte do filão que o Skank experimentou em “Balada do Amor Inabalável", que tem referências de Sérgio Mendes, Marcos Valle, Azymuth, da música dos anos 1960/1970. Falei para o Renato [Cipriano] que ela era meio The Last Shadow Puppets tropical, e ele foi atrás do Owen Pallett, que é o cara que fez os arranjos para eles. O Owen colaborou nos arranjos de cordas para essa e mais duas do disco. 

“Aquela Hora”: Muita gente acha que é a história de um casal, mas não é, fala da condição paterna. Essa letra nasceu de uma conversa que tive com o Rodrigo sobre a hora do filhote sair do ninho. Ele está passando por isso, algo parecido comigo porque o meu filho tem 25 anos, então estamos vivendo esse momento. Quão paradoxal é viver esse momento? Das distâncias e percalços, que são saudáveis. Como propiciar isso para uma pessoa dessa idade? Alguém que gozou de muito conforto na infância, teve uma estrutura e formação, mas agora precisa sair do ninho. E o quanto isso dói e como essas decisões são difíceis. 

“Tudo Agora”: Uma música com levada 3x4, tem uma divisão de ritmo um pouco diferente, é mais inclinada ao indie rock, e leva uma coisa dos discos do Lô Borges. O Rodrigo [Leão] mandou a letra, mas a princípio, era um reggae. Apresentei para a banda no estúdio, mas a princípio, pensei que remetia ao Skank de 1995, então tivemos uma reviravolta. O Marcelo [Dai] pensou na levada meio hip hop, e o Pedro fez o teclado, então ela ganhou o clima moderno, mais puxado para a soul music.  

“Flores da Rua": Fiz essa com João Ferreira, ela é mais festa, tem um bumbo forte ganharia as pistas em um remix. Lembrei do Lulu Santos – e até falei isso para ele. Gosto da metáfora de que as flores na rua ficam tristes. Compus três músicas com o João, mas essa era a melhor. Ela está na trilha sonora da novela Mania de Você, da Globo. O estúdio ficou tomado por uma certa euforia quando ela saiu, acho que ela carrega esse simbolismo. 

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“Rio Dentro do Mar": Uma letra que fiz quando comecei a entender as correntes do mar, achei que era uma linda metáfora. Me explicaram que a navegação nem sempre se dá pelo vento, mas também pelas correntes. Como bom mineiro, sou ignorante dessas questões, então achei tudo isso tão bonito. Fiquei pensando no encontro do rio dentro do mar e em como ele vira essa corrente. 

“Segue o Jogo": Tentei normatizar aquilo que é traumático para todo mundo: os finais de relação, sejam trabalho, amigos e namorados. Os fins são cotidianos, corriqueiros, mas a gente nunca quer olhar para eles. Falo de uma maneira cicatrizada, quase com ironia. Tenho muito orgulho de ter feito essa música porque ela é quase um brainstorm de terapia. Para produzir algo legítimo, você precisa ser muito honesto. Acho que ela é universal, traz a magia da música popular, algo que o Paul McCartney sabiamente falou: quando uma pessoa escuta, ela pode ser sobre mim ou sobre qualquer pessoa. Vivi términos de banda e relacionamento, mas também vi pessoas passarem por isso, quero mostrar o quão normais são esses finais. 

“Bela Amiga": Outra letra do Carlos Rennó, ela fala de uma extrema paixão, e conjuga esteticamente a parte musical, um lado mais bossa nova pop, com uma letra explícita. Tinha uma parte que me incomodava – “seus pais foram muito fodas na sua concepção”. Falei com ele, que eu não me sentia à vontade em cantar, mas depois vi que era o meu lado careta falando mais alto. 

“Palma da Mão": Essa é irmã de “Rio Dentro do Mar", ela trata da distância de um casal. A Laura [Sarkovas], minha esposa, desenhava no espelho quando tinha que voltar para São Paulo. A letra conta o barulho da porta fechando e o silêncio chegando. Outra letra minha, exercendo algo que sei fazer – modéstia à parte –, algo que o meu público me reconhece. Acho que ela comprova que não quis romper com o que fui no Skank. 

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