João Carvalho reflete sobre a terra e a finitude em “Uma Festa no Centro do Vazio”


Por:

Giulia Cardoso

Fotos: Pedro Hamdan/Divulgação

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João Carvalho, que ganhou destaque como vocalista da banda de indie rock El Toro Fuerte e explorou o experimentalismo eletrônico em faixas instrumentais nos projetos Sentidor e Rio Sem Nome, propõe agora um novo mergulho em Uma Festa no Centro do Vazio (2026). Com uma sonoridade que encontra o equilíbrio entre a psicodelia folk — lembrando nomes como Fleet Foxes e Radiohead — e a tradição brasileira de Tom Jobim e do Clube da Esquina, o artista constrói uma obra densa e introspectiva. 

Inspirado pela vivência no trabalho  em comunidades ribeirinhas atingidas pela mineração em Minas Gerais e no Espírito Santo, João busca na música um ensaio místico sobre espiritualidade, morte, pertencimento e o eterno retorno. Entre faixas e parcerias com figuras conhecidas da cena indie belo-horizontina, como Clara Bicho e Fernando Motta, João Carvalho expande seu leque de referências ao olhar para a própria terra.

O artista busca conectar sua música à crítica ambiental: ecoando o pensamento de Davi Kopenawa sobre a mineração como uma força que perfura montanhas e libera espíritos adoecedores, João traz para o álbum o peso simbólico da montanha para Minas Gerais. Essa jornada percorre a Serra do Caraça — palco da Missa dos Quilombos, de Milton Nascimento — e traça um paralelo entre suas ruínas e as de Itaúnas, costurando, em um só fluxo, a bacia do Rio Doce à sua foz no Espírito Santo. Essa temática fica clara especialmente em “Serra do Caraça/Itaúnas (Para Milton)”, faixa que encerra o disco.

Coproduzido por Bernardo Bauer e Felipe D’Angelo no Estúdio Cais de Belo Horizonte, o disco se desenha como uma paisagem sonora atmosférica, onde o silêncio e o instrumental ganham protagonismo, convidando o ouvinte a um estado de reflexão sobre a finitude da vida.

Leia o faixa a faixa Uma Festa no Centro do Vazio:

“Cabana”: Para mim, é a faixa mais solar do disco. Soa como uma cachoeira iluminada pelo sol no começo da manhã. É uma das canções em que esse tema de uma “espiritualidade natural” — essa relação sagrada com as plantas, com a floresta e as montanhas — aparece mais forte, quase como uma reza à terra e um chamado à viagem. Escrevi em uma cabana em Itaúnas, e no fundo dá para ouvir gravações de campo reprocessadas com cantos de alguns pássaros da região onde eu estava quando gravei as primeiras demos. Acho que daí vem o nome: a cabana é esse abrigo da mata que não se desliga totalmente dela, essa zona de transição entre o dentro e o fora. O arranjo de guitarras e violão conversa com essa psicodelia lenta e brasileira, assim como esses trompetes meio desengonçados que vieram desde as primeiras demos, criando uma sensação de raízes se espalhando. Foi a primeira música que toquei com o Fábio na bateria.

“Canção da Madrugada”: Se a maioria do disco fala de uma fuga da cidade, acho que “Canção da Madrugada” é uma dança bêbada pelas ruas de um centro vazio à noite, uma tentativa de se encontrar. "Dentro da cidade faz frio / e eu vejo a dor do inverno chegar". Nesses últimos anos, inclusive no processo de gravação, eu vivia essa dualidade entre o campo e a cidade; viajava quase todo fim de semana e voltava para o interior para trabalhar. A gravação foi atravessada por essa sensação de sazonalidade e mudança. Gosto de como ela tropeça entre a lentidão e a velocidade num arranjo bem complexo, levado para o jazz, com tempos quebrados; um labirinto caleidoscópico que é, ao mesmo tempo, bastante vazio. Ela prepara essa questão do vazio em um dos meus versos favoritos: “madrugada estelar / terra dorme no vazio / todo nome vem de lá / toda água volta ao rio”. É uma das músicas mais difíceis de tocar e que mais nos deu trabalho na produção. Foi um dos momentos em que eu e o Bernardo dançamos, com trocas rápidas de posições; as guitarras se completam de um jeito bonito, mas difícil de chegar no lugar certo. A concentração que o instrumental pedia funcionou quase como um processo meditativo.

“Astronauta”: É uma canção que escrevi aos 18 anos. A ideia era que entrasse para o repertório da El Toro Fuerte em algum momento, mas foi crescendo de um jeito diferente e finalmente fez sentido que nascesse aqui, depois de vários rearranjos. Ela tem uma energia inocente, quase infantil, e para mim soa como algo entre uma canção de ninar e uma lenda. Os arranjos de violino da Jovana Trifunovic me fazem lacrimejar quase todas as vezes que escuto. Imagino como uma conversa entre uma criança e seus pais. Sempre tive muito gosto pelo espaço, galáxias e planetas, e uma das minhas primeiras lembranças é de querer ser astronauta; tem algo sobre a solidão do espaço que é bonita demais. O arranjo tem esse jazz lento que o Fábio soube guiar muito bem, com uma influência clara do Sigur Rós, uma das bandas que mais ouvi ao longo da vida. Os vocais do Felipe me emocionam demais também; até o último momento eu queria eles um pouco mais altos, quase em dueto com a minha voz. Por mim, teria ficado mais alto ainda.

“Uma Festa no Centro do Vazio”: É uma música sobre aprender a dançar no Vazio, símbolo que significa morte, possibilidades infinitas, espaço e questões profundas dentro de diferentes tradições espirituais. Durante a gravação, li muito sobre filosofia da religião — budismo, shaivismo, hinduísmo e técnicas de êxtase —, e acho que há um clima hipnótico aqui. É sobre aprender a conviver com o luto e com essa busca infinita pelo desejo; a vontade do sagrado e o medo da morte se misturam e fazem o mundo girar. A participação da Clara deu um clima muito especial ao arranjo, uma parceria que ensaiávamos há mais de um ano. Quando estávamos gravando, eu podia ouvir a voz dela cantando na minha cabeça. Acho que tem muito de Radiohead nesse som, mas com um desenho de violões e harmonias de vozes mais próximo de uma bossa torta, principalmente no refrão. Sou apaixonado pela linha de baixo do Felipe e pela bateria fincada do Fábio. O nome é baseado num poema curtíssimo de Roberto Juarroz: “Às vezes parece que estamos no centro da festa. No entanto, no centro da festa não há ninguém. No centro da festa está o vazio. Mas no centro do vazio há outra festa”.

“Filho Único”: Acredito que funciona como uma vinheta de transição, reforçando as temáticas da música anterior. Gosto muito dos arranjos de guitarras e da bateria torta, que eu compus no tempo em que fiquei em Itaúnas. Aliás, é a música em que mais comandei o processo de mixagem, assinando junto com o Felipe D’Angelo. Talvez por isso traga mais elementos eletrônicos, uma construção das vozes — principalmente nos falsetes — com uma dança de reverberações e delays com feedback longo, o que me lembra a forma como eu costumava construir os arranjos do Sentidor, meu projeto experimental. A segunda parte é literalmente um sample acelerado da primeira, reforçando essa sensação sintética e estranha. A letra é um fluxo de consciência baseado na percepção de como a solidão e o vazio — temáticas centrais do disco — parecem ser uma tendência para quem é filho único; a dificuldade de abertura para o mundo, o isolamento e o espaço. É uma das minhas faixas favoritas.

“Quarta de Cinzas”: Acho que é uma das gravações mais esquisitas e divertidas do disco. Brincamos muito no Cais, acelerando e desacelerando, alterando o pitch das notas, buscando a sensação de um circo ambulante passando pela cidade, um sonho-pesadelo de verão, com aquela sensação bonita e amarga que é o final do Carnaval. Me parece uma música antiga, quase uma marchinha misturada com folia de reis — uma festa que se divide entre o cristianismo e o paganismo, um baile de máscaras surreal que acompanhei várias vezes quando morei no interior, em Felixlândia. É um acúmulo de desabafos universais sobre envelhecer, perder amores e conhecer a morte.

“Tartaruga”: Como eu disse antes, tem algo de lenda inventada, assim como “Astronauta”, mas aqui é uma história sobre a criação do mundo. Vários povos originários — como os Lenape, na América do Norte, e mitos na China e na Índia — têm histórias que envolvem a figura da tartaruga. Quando eu tinha 3 anos, meu tio me presenteou com uma. Aquilo me marcou muito: a lentidão e a força da tartaruga, a longevidade ancestral e a dinâmica anfíbia entre terra e água, o casco rachado como placas tectônicas. É uma doideira muito bonita. Também circula pelo disco essa relação da terra, das montanhas e do corpo do mundo com a memória. Do ponto de vista instrumental, eu buscava esse violão mais percussivo, ouvindo muito Rastilho, do Kiko Dinucci, e a obra de Baden Powell — uma mistura de ritmos afro-brasileiros que vira algo completamente diferente na segunda parte, com esse piano lindo do Felipe, que para mim é puro Clube da Esquina. A bateria foi uma invenção do Ciro Trevisan, e acho muito bonito como ele imprimiu uma assinatura nova e complexificou a levada.

“Espumas”: Composta em Itaúnas. A história do vilarejo, que foi soterrado pela areia entre as décadas de 70 e 80 — com ruínas de azulejos e a ponta da torre da igreja surgindo nas dunas em certas épocas —, me parece um símbolo de amores que se esquecem no tempo, que se reencontram em outros lugares ou formações químicas, o mistério da transformação sem fim da matéria. "Cavalo solto a trovejar / desenho de todas as coisas / sob uma forma temporal / o amor se reconhece em outras / as dunas mudam sem parar / divina imensidão do tempo" são alguns dos meus versos favoritos. O arranjo de violão e violoncelo é simples, mas me emociona muito; bebi muito de Dorival Caymmi e de Rodrigo Amarante, um virginiano que me influenciou demais e faz aniversário no mesmo dia que eu.

“Serra do Caraça/Itaúnas (Para Milton)”: Foi a música perfeita para encerrar o disco e, curiosamente, a primeira que gravamos. Ela capta abertamente esse movimento de fuga das cidades — um sonho ancestral pelo fim da opressão e da nossa separação da natureza, temas que se tornam políticos se pensarmos numa vertente ecossocialista. Fui muito influenciado por isso ao viver perto de comunidades atingidas pela mineração. Como diz Davi Kopenawa, a mineração é essa entidade que perfura as montanhas e solta espíritos adoecedores. A montanha é simbólica em Minas Gerais e, consequentemente, no Clube da Esquina e em Milton Nascimento. A Serra do Caraça, onde o Milton gravou a Missa dos Quilombos, abriga ruínas assim como Itaúnas, conectando a bacia do Rio Doce à foz no Espírito Santo. Sobre a música, o arranjo flui entre um folk de bateria acelerada, com Fernando Motta, Bernardo e Felipe, e um segundo trecho que é uma homenagem direta à obra do Milton. A bateria vira um ijexá, o violino da Jovana dá o toque final, e minha contribuição foi pintar essa sobreposição arqueológica de camadas temporais.

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Giulia Cardoso

Fotos: Pedro Hamdan/Divulgação

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