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Vanguart conta as histórias que inspiraram cada faixa do disco de estreia


Por:

Thaís Ferreira

Fotos: Divulgação

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Quando entrou no estúdio pela primeira vez, Vanguart conhecia de cor as músicas do seu trabalho de estreia, Vanguart (2007). Isso porque as canções já tinham visto a luz do dia – e da noite – muito antes de serem gravadas. “O que ajudou esse disco a ter força é que a gente já tinha tocado essas músicas ao vivo tantas vezes nos últimos anos, que elas estavam muito bem resolvidas”, diz o vocalista Helio Flanders, revisitando as memórias do começo dos anos 2000.

“Basicamente ninguém precisava de uma trilha-guia. Se o Douglas [Godoy, baterista] começasse a tocar a música, ele tinha a letra na cabeça e seguia tocando, não precisava que ninguém entrasse para tocar junto. Estávamos nesse nível, tocando há mais de um ano essas canções, quando a gente gravou o álbum”, o baixista Reginaldo Lincoln, que também faz segunda voz, comenta. 

Duas delas ganharam clipes que foram parar na MTV: “Cachaça” e “Semáforo”, hit que até hoje está nos setlists da banda. Mas na história da banda, as músicas em português chegaram um pouco mais tarde, porque a banda primeiro encontrou a sua fagulha criativa em outras línguas.

“Até existiu a possibilidade de fazer esse disco apenas em português”, Lincoln divide. “Mas a gente sabia do peso das outras canções, das outras histórias que a gente queria contar em inglês e em espanhol. No fim, pensamos: ‘vai ser assim e vamos embora’”. 

“A coisa do espanhol mesmo, quando eu tinha uns 18 anos, passei quase um ano na Bolívia”, Helio fala. “Cuiabá [onde a banda foi criada] é muito mais perto, por exemplo, da fronteira da Bolívia do que de Campo Grande, de Goiânia… Então foi algo natural para a gente.”

Ao longo do autorretrato desse primeiro disco, a banda deixa pistas do que está no negativo da fotografia. Bob Dylan, Tom Jobim, The Beatles e Raul Seixas são algumas das influências por trás das composições, que têm ares de uma história contada a um amigo – aos moldes das letras de Dylan e de Belle & Sebastian, outra referência importante para o grupo.

O recado que chegava, regado a folk, blues e psicodelia, também refletia a mesma experimentação dos sons. Não existiam respostas erradas. “Essa fase foi muito importante também para a gente saber que tudo valia. Nessa época, tudo era uma ideia boa, tudo podia ser dito, tudo podia ser cantado, todas as histórias dos nossos amigos poderiam fazer parte das canções”, afirma Reginaldo.

Leia o faixa a faixa do disco, por Flanders e Lincoln:

Semáforo”

RL: “Semáforo” com certeza é a canção mais emblemática da história do Vanguart. Existia essa cobrança por uma canção em português, para a banda cantar em português, porque naquela época a gente só cantava em inglês, e aí o Helio compôs essa canção… De primeira, no estúdio, já fizemos o arranjo, que é o arranjo definitivo dela. Foi em poucos minutos, realmente um momento de simbiose, de encontro, de osmose, de tudo mais que acontece ali, uma química muito legal. A gente chegou num resultado muito rápido e muito direto. Todo mundo sabia muito bem o que queria fazer. E assim nasceu essa canção que faz parte da nossa história por ter sido a primeira e por ainda, 20 anos depois, ressoar tanto no público e na gente mesmo.

HF: Eu comecei a compor para o que seria o Vanguart em 2002. E não passava pela minha cabeça fazer canções em português, por vários motivos. O primeiro é porque a gente estava em Cuiabá, não tinha qualquer pretensão de chegar em qualquer tipo de público, a não ser naqueles 20 amigos que estavam sempre nas festas de rock e tal. Isso me dava uma liberdade como compositor também de fazer qualquer coisa, inclusive cantar em inglês. Naquele momento, eu tinha saído de uma fase super glam rock e tinha entrado de cabeça no folk de uma maneira obsessiva. Então, estava ouvindo noite e dia Neil Young, Bob Dylan, Joni Mitchell. Eu imprimia as letras para ficar lendo e traduzindo no ônibus, em todos os lugares que eu ia. Eles foram os meus professores de inglês. Até 2005, até agosto de 2005, eu só compunha inglês, não tinha pretensão de escrever em português. E também porque eu não conseguia, achava que ficava um pouco ridículo cantar folk em português, porque sempre parece uma tradução mal feita, parece um karaokê que você canta quase como piada.

Até que um dia, duas da manhã,  eu estava tão chateado com essa coisa de as pessoas ficarem me provocando e me enchendo o saco pra compor em português que eu, sei lá, comecei a fazer essa canção em dois acordes ali, um pouco com ódio e tal, meio para provar pras pessoas que não ficava bom, que não tinha melodia. E eu descobri uma, parece que um novo jeito de cantar melodias. “Semáforo” não tem uma melodia de folk, ela tem um refrão que muda. “Semáforo” veio assim, de um jeito que eu componho até hoje, que é botar para gravar – na época, era um gravadorzinho portátil, muito tosco que eu tinha. E eu saiu praticamente a letra inteira, acho que eu mudei duas palavras dela, saiu assim de take 1.

Acho que tem essa coisa mágica, da despretensão de escrever uma música e as coisas virem de forma natural. Acho que o último verso é bem simbólico para esse álbum também.  “Todos os meus amigos querem morrer”, porque era o que a gente vivia na época. Isso inclui morrer literal e não literalmente, que era muito sobre o abuso de substâncias, mas mais do que isso, sobre viver tudo full throttle, viver tudo de uma maneira totalmente intensa. Com 18, 19 anos numa cidade pequena, onde você tinha que inventar um mundo para viver, você não tinha muitos lugares pra ir, então às vezes um posto de gasolina e três amigos eram suficientes para você viver, morrer e sonhar coisas que você jamais sonharia.

“Just to See Your Blue Eyes”

RL: Ela tem essa coisa clássica do Vanguart: blues meio folk, rock. E a gente sempre soube disso,  que o Vanguart em inglês era um outro tipo de banda. Tinha um estilo mais clássico,  mais folk mesmo, blues. E quando a gente cantava em português, isso mudava. Aqui é uma clássica dessas nesse auge, desse encontro massa de folk, de energia. 

HF: “Just to See Your Blue Eyes” é mais uma canção que fiz colocando para tocar e cantando ela inteira. Acho que tem progressões de acorde ali, quando sobe um tom, modula um tom para cima, que é claramente de alguém que está tocando no fluxo. Ela toda é assim, letra e música, tudo muito espontâneo. Ela também tem essa colagem de momentos, muito inspirada em Rimbaud, nessa coisa de estrofes que não necessariamente estão ligadas uma com a outra, mas que no fim acabam montando uma paisagem. Acho que é o nosso folk mais rock.

“Hey Yo Silver”

RL: Uma das primeiras que a gente fez junto, arranjando como banda. Também traz essa coisa folk, cavalgada, rapidinha. Uma canção muito divertida também, algo que é raro no nosso repertório, uma canção que se destaca por essas coisas diferentes.  

HF: “Hey Yo Silver” é a nossa canção mais country, um country rock bem doido, com os clichês todos de bar, de cavalo, de New Orleans. E eu gosto muito da letra dela, todo mundo fica muito preso no “hey yo silver”, mas eu acho que ela tem uma letra muito boa. “Yesterday was fine, but today is living hell / Every day that comes, I feel an urgent youth that burns”. E tem uma homenagem ao The Velvet Underground, com o “All Tomorrow's Parties”, que é uma canção deles que eu tocava muito com a minha banda anterior. É uma canção super festiva, mas que a letra fala, “somos nós, mas existe uma mágoa que não vai te deixar dormir”.  Então a gente estava sempre flertando com versos dolorosos, que a gente depois iriam ser assumidamente parte da banda do segundo álbum.

“Cachaça”

RL: A segunda canção que a gente fez em português. Nessa época, é nítido como a gente misturava vários universos, de várias referências musicais que a gente tinha e também de várias tentativas de tocar coisas diferentes. Nós viemos de bandas muito diferentes umas das outras, e quando a gente se juntou, cada um queria imprimir um pouco dessas coisas diversas que a gente gostava. Então esse arranjo de “Cachaça” imprime um pouco de tudo: tem psicodelia, tem loucura, tem um misto de reggae no começo ali, com uma coisa mais enérgica também, uma letra mais doidona: isso é muito Vanguart. 

HF: “Cachaça” tem uma história engraçada, porque eu tinha um violão de nylon que estava só com as três cordas de baixo mais agudinhas. Aí eu peguei e fiz “clã, clã, clã”, aquela introduçãozinha dela. Comecei a cantar uma melodia qualquer. Abri meu caderno da faculdade na época, eu estudava Letras, estava no primeiro ano. Tinha essa letra, “só me vem quando não há certeza”... Comecei a cantar e fiz ela inteira nesse violão. Aí eu levei para o estúdio, e lembro que foi uma das primeiras músicas que a gente realmente fez um trabalho de banda. Ela é quase um folk progressivo, tem uma música com várias partes, vários andamentos. Acho que ela corrobora com a ideia de “Semáforo”, de sair um pouco do folk clássico e ir para umas coisas mais loucas,  mais livres mesmo dentro da música que se faz geralmente com violão, geralmente. 

A letra tem essa coisa muito psicodélica,  muito junk também, da madrugada, da boemia, muito inspirada por uma questão glam também, para o mais andrógino. A gente nunca deixou de beber dessa fonte. 

E nesse começo, acho que estava mais latente, mais gritante no que a gente fazia.

“Miss Universe”

RL: Uma dessas loucuras. Eu comecei a compor essa canção no violão. Estávamos todos na mesma sala, eu, o Helio tocando e cantando coisas, improvisando em inglês. E a gente foi escrevendo. O Helio foi escrevendo a letra, a gente foi escrevendo outras partes também. Uma canção super diferente, no seu formato, no seu arranjo, no seu estilo.  Ela é toda doidinha também. A gente gostava muito desse tipo de coisa, fazer vocais, todo mundo cantando, era algo que a gente já queria imprimir nesse começo, desde o começo da banda.

HF: “Miss Universe” é uma canção única, que assinamos eu, Reginaldo e o David Dafré. A gente compôs em Porto Velho, numa casa super bucólica, assim, com bichos amazônicos, com pássaros. A letra não tem muito a ver com isso, mas acho que inspirou a gente a compor essa juntos. Eu lembro que o Reginaldo tava com o violão. Eu cantei uma parte, ele cantou uma parte, David cantou uma parte, eu fiz a parte final. É uma canção bem doida também no sentido de harmonia, de colagem, de letra, uma letra bem subversiva, inclusive. Acho que reflete muito a vida que a gente tinha na época, um pouco. Ao vivo ela era bem legal de tocar assim também, a galera gostava muito.

“Christmas Crack”

RL: Uma dessas canções clássicas folk que o Helio fazia na época. Inclusive, veio pra rechear o disco. Também um arranjo super fácil de fazer, que a gente só começou a tocar e já saiu tudo pronto. Tudo fluía muito rápido. Uma canção que tem uma letra muito legal, que conta uma história verídica, muito importante também nas histórias do Vanguart. 

HF: “Christmas Crack” foi a canção mais folk dessa época. Já estava há muitos anos compondo canções folks tradicionais, digamos assim, com acordes, uma coisa mais Woody Guthrie e Bob Dylan. E “Christmas Crack” tem uma letra bem psicodélica, que é uma característica desse álbum.

“Los Chicos de Ayer”

RL: A primeira canção que eu e o Helio compusemos juntos foi essa, numa manhã de ressaca.  Eu dormi na casa dele nesse dia. A gente acordou e eu peguei o violão, comecei a tocar os acordes de improviso, e ele já começou a cantar “South America, South America”. Ficamos: “uau, que legal”. Já começamos ali os dois a entender que estava nascendo uma canção.

Ela brinca um pouco com essa coisa do espanhol nas letras. O arranjo tem um ritmo mais latino, tem referências diretas, não ao rock da América do Sul, mas a música regional mesmo, latina, pela qual a gente realmente sempre foi apaixonado. Então a gente trouxe um pouquinho disso nessa canção do Vanguart, muito especial, um arranjo muito rico, assim, acho que tem umas coisas muito interessantes também, vocais, todo mundo cantando junto, coisas que a gente queria muito fazer na época.

HF: Essa é a primeira canção que eu compus com o Reginaldo, essa parceria que se estende até hoje. Lembro que a gente tomou uma cana forte em casa, ele acabou dormindo por lá. Quando ele acordou, a gente tomou um café, ficamos tocando violão, ele puxou esses dois acordes, esse fá e o sol maior, no violão, e eu já saí cantando, peguei o mesmo caderno em que estava a letra de “Cachaça” e tinha esses rabiscos também, em espanhol. Comecei a cantar, gravando também no gravadorzinho a letra. É esse mix de espanhol com inglês, fazendo essa brincadeira de Panamá com Cuiabá. É uma canção que eu gosto muito.

“Enquanto Isso na Lanchonete

RL: Aqui já é o Helio começando a contar histórias em português, como ele fazia em inglês. É uma canção muito simples, direta, que conta a história realmente do que acontece com essas duas pessoas na lanchonete. Lembro muito de ouvir essa e falar: “nossa, que legal, uma história contada assim, desse jeito, em português, com tudo dito na cara”. Porque as outras eram mais metafóricas, “Semáforo” e “Cachaça” eram mais louconas. E essa não, essa realmente tinha uma leveza, uma história a ser contada ali.

HF: Acho que “Enquanto Isso na Lanchonete” nasceu dois dias depois de “Semáforo”, quando depois de ter visto a canção pronta, estava tirando para todos os lados enquanto linguagem de composição. Lembro que foram quatro dias seguidos, e cada noite eu fiz uma canção. Acho que ela até flerta com uma bossa nova for babies, quatro acordes e tudo mais, mas usa esses acordes que são mais conhecidos como acordes de bossa nova, com sétima maior, e uma letra muito simples, uma letra muito pequena e tudo, com esse flerte que eu consigo ver hoje sobre muitos amores ao mesmo tempo, muitos encontros e desencontros dentro das relações.

“Antes Que Eu Me Esqueça”

RL: É uma loucura psicodélica,  super vanguartiana, também. Guitarras, slides, alta para caramba, e a gente tentando fazer a canção existir, dar o suporte para a canção existir, uma canção super diferente também.

No meio, já tem vocais, tem uma parte instrumental, coisas que também sempre fizeram parte dos arranjos do Vanguart enquanto beatlemaníacos que sempre fomos, dava essa roubadinha nas coisas do A Day in the Life (1967), ou de “She's Leaving Home”, que têm uma atmosfera parecida.

HF: Essa eu escrevi no violão e levei para o estúdio. O David puxou essa coisa da guitarra mais chapadona, e a gente fez uma música bem longa, bem arrastada. Estávamos tentando emular um pouco dos vocais dos anos 60, meio Beatles, Beach Boys.

É também uma música muito soturna, que acabaria direcionando a gente para o que viria no futuro. Não tem como você cantar “Cachaça”, “Just to See Your Blue Eyes”, “Para Abrir Os Olhos”, com uma temática super boêmia, de noite, e você não ter esse rebote no outro dia. 

“Cosmonauta”

RL: O Helio trouxe “Cosmonauta”, uma canção super diferente, já que trazia um pouquinho de um Jorge Ben, algo um pouco mais brasileiro. E aí, de repente, ela vai para um Belle & Sebastian. Também tem uma coisa coletiva de arranjo, de banda tocando junto ao vivo. Isso era muito, muito importante nessa época para a gente. A gente passava horas e horas, praticamente todos os dias, ensaiando para poder bolar esses arranjos e tocava exaustivamente, não só nos shows, mas também ensaiava muito essas canções para realmente ter certeza de que era aquilo mesmo.

HF: Essa tem duas partes muito claras. A primeira, muito inspirada no Jorge Ben, pós-69 ali, com aquela coisa meio Solta o Pavão (1975), que a gente sempre gostou muito. E aí, depois, ela vai para uma coisa mais Belle & Sebastian. A gente estava experimentando tanto nessa época que às vezes a gente experimentava duas canções em uma só.

Ela já teve muitas letras também, uma delas era: “ela segue perseguindo as medalhas do verão”. Me lembro de o pessoal olhar para mim e falar: “what the fuck?”. Aí eu falava: “eu também não sei”. Acabou ficando “ela segue costurando as cicatrizes do verão”, que é um pouco mais palatável, mas hoje talvez eu me arrependa de não ter cantado a anterior. Bom, fica aí para ao vivo. 

“Beloved”

RL: Uma curva, eu diria, nesse álbum, já que é uma canção minha cantada por mim. Já nessa época, eu e o Helio sempre falávamos sobre isso, sobre as bandas que tinham vários vocalistas. Claro que os Beatles sempre foram uma influência, mas tinha o Belle & Sebastian também, que era um pouco diferente, tinha vozes diferentes no álbum, tinha uma cantora. Então isso é uma coisa que a gente sempre gostou e que sempre queremos valorizar dentro da banda. Quando as canções funcionam com uma voz, é muito simples, a gente deixa essa voz na canção. 

“Eu não estava pronto para ser amado por você”, ela fala desse desencontro. Era uma canção sobre uma história recente na época, falava um pouco dessa amizade nossa mesmo, dos desencontros da banda, de cada um ir para um lado em alguns momentos, e depois a gente se reencontrar. 

HF: Reginaldo passou em casa e me mostrou essa canção um dia, eu fiquei arrebatado, achei muito, muito bonita. Embora ela escapasse um pouco da linguagem do disco inicialmente,  acho que naquele momento o Vanguart era isso também. Eu estava experimentando muito nas composições, então acho que cabia e cabe muito nesse universo, porque é uma canção muito bonita. Gosto muito da letra, especialmente.

“Dream About Your Love”

HF: A “Dream About Your Love” é um folk rock clássico muito inspirado em Neil Young, uma coisa mais hippie, falando tipo “veja nossos cães e gatos na grama, eles fumam o mesmo charuto”. Então é uma canção muito doce, que acaba mostrando como a gente também estava muito feliz nessa época de estar produzindo junto, a banda estava num grande momento, criativo, especialmente,  então tinha uma beleza de estar junto, de falar de amor. Ao mesmo tempo em que existiam os excessos e as loucuras, tinha muita ternura também

RL: Junto com “Christmas Crack” e “Just To See Your Blue Eyes”, “Dream About Your Love” tem mais essa coisa do folk americano, das canções do trovador solitário. A gente era uma banda completamente diferente em inglês, como dá para perceber. É uma canção muito importante, muito bonita, uma canção fluida que faz bem para o álbum. Ao vivo, sempre foi muito bonitinha também, a gente sempre gostou muito dessa.

“The Last Time I Saw You”

HF: Foi muito natural essa canção entrar pro disco, porque o disco anterior do Vanguart, quando ainda era eu sozinho, tinha essas canções de 12 minutos, contando histórias, muito inspiradas no Dylan clássico mesmo. Essa é a canção dylanesca do disco, que conta sobre oito, nove vezes que uma pessoa viu a outra. É uma canção de violão e gaita solo. No meio tem uns vocais também, mas é uma canção que precisava estar no disco porque ela explica o Vanguart, de certa forma, inclusive o que ele era antes desse álbum e o que se mantém, a influência do Bob Dylan, com essas letras, essas histórias.

RL: Um momento do Hélio também, nesse esquema Bob Dylan, de trovador, contando história, violão e voz. A gente chegou a fazer arranjos com a banda dessa canção, mas fez bem para o álbum ter esse momento, e fazia bem para o show também. No disco ao vivo, tem participação da Mallu Magalhães. É uma música queridinha entre os fãs também, muito especial.

“Para abrir os olhos”

HF: Eu fiquei umas três horas trabalhando numa música meio épica, super pretensiosa, chamada “Para Um Marinheiro Grego”. Depois de um tempo, pensei: “caramba, que coisa chata” [risos]. Nem era pretensiosa no sentido de querer ser inteligente, mas era uma música longa que mudava de ritmo, que mudava de tom várias vezes. Aí puxei essa música, “Para Abrir Os Olhos”, no mesmo modo das outras e cantei ela praticamente inteira sobre o que é esse jeito sobre os meus amigos que só aparecem quando eu bebo. E tem uma coisa que era importante para nós na época, que é essa despersonalização: “Quem sou eu? / Já não importa / Nunca importou.” A mensagem, a ideia, o grupo, esse entourage que a gente tinha, ele era muito mais importante do que o cantor. Essa canção traz isso, e acaba fechando um ciclo que abre em “Semáforo”, sobre esses amigos – quem são esses amigos que voam, que querem morrer, que só aparecem quando eu bebo, que só aparecem quando eu não sou eu. Ela fecha bem esse universo de realismo narco-fantástico.

RL: É uma canção muito simples também e direta, mas dessas mais louconas. Mais uma canção que fala dos amigos, ou seja, era um universo que a gente vivia plenamente nessa época. 

A gente se encontrava todo dia, fosse para fumar, para beber, para tocar, pra namorar, tudo. A gente estava junto o tempo todo. Se não era todo mundo, eram dois, eram três, e isso era realmente algo muito bonito. É algo que a gente provavelmente não vai viver de novo, um encontro desses, dessas cinco almas ali que se encontraram naquele momento pra fazer essas canções. 

“Para Abrir Os Olhos” fala muito sobre isso. E o arranjo é muito fluido, muito solto. Começamos a tocar com esse arranjo, que ficou pra sempre. Um momento muito inspirado e também muito transpirado, de muito trabalho, porque a gente realmente ensaiava muito, tocava muito essas músicas e não é à toa que tudo fluía fácil, é porque a gente realmente estava vivendo muito aquilo, então quando gente pegava o instrumento pra tocar, a gente já meio que sabia o que fazer. Era muito orgânico isso.

Por:

Thaís Ferreira

Fotos: Divulgação

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