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Bruna Lucchesi ressignifica a figura de “bandoleira” em disco que mistura folk e canção brasileira


Por:

Revista NOIZE

Fotos: Divulgação/Camilla Loreta

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“Bandoleiro”, segundo o dicionário Michaelis, é aquele que “não tem paradeiro, errante”. O verbete ainda se expande para adjetivos como “ocioso, vadio”. É diferente do flâneur francês, que caminha pelas ruas com lenço, documento e cep próprio para voltar. Mais diferente ainda é quando se inverte o substantivo para o feminino: ao homem, era permitido flanar e bandolear, para a mulher, é sempre mais difícil. 

Talvez, para experimentar e comprovar a própria liberdade, a cantora Bruna Lucchesi escolheu este termo para dar título ao terceiro álbum, Bandoleira (2026). A cantora transita — ou bandoleia — entre o folk e o rock mais rasgado, sempre acompanhada de seu violão. A primeira faixa, “Sei Voar”, já mostra para o que veio: “Sigo arisca, levando pedaços de mim”, ela canta.

De fato, o disco foi criado na estrada: passa pelo interior do Paraná, reflete passeios a cavalo e andanças que vão de São Paulo a West Virginia. Sonoramente, ecoa Bob Dylan, Paul Simon e um tanto de música brasileira como Gal Costa, tudo amarrado com a voz e o violão inconfundíveis de Bruna. Topam caminhar com ela Helio Flanders, do Vanguart, que influencia diretamente a sonoridade deste disco, além de Mariko Reid e Sissy Dinkle, que assinam feats.

Bandoleira mostra uma cantora ainda mais amadurecida nas letras e arranjos do que o também interessante Quem Faz Amor Faz Barulho (2023), diretamente inspirado por Paulo Leminski e indicado ao Prêmio APCA. Com forte apego literário, neste trabalho, Bruna se inspira em outros autores, como o japonês Nanao Sakaki (cujos versos aparecem traduzidos em “Fade Away”) e o poeta brasileiro Fabrício Corsaletti, que assina com ela a faixa “No Lombo de Um Cavalo”.

O foco do disco, para ela, é ressaltar a arte feita por gente de verdade em tempos de inteligência artificial. “Em toda a produção do álbum, enaltecer a música pensada por pessoas foi um dos nossos focos”, conta.

Leia e ouça Bandoleira faixa a faixa:

 

“Sei Voar”: Para mim, essa canção representa o próprio salto que é lançar esse meu primeiro trabalho autoral. Compus essa melodia num momento em que os caminhos pareciam travados, eu estava numa noite frustrada e desmarquei um encontro de composição com a amiga Lia Biserra, por conta justamente dessa angústia. Na época eu estava mergulhada num álbum da compositora folk Hazel Dickens (“Hard Hitting Songs For Hard Hit People”), cujo jeito de cantar reverberava fortemente dentro de mim. Estudando as suas quebras vocais, bem típicas desse folk dos apalaches, me propus então a compor algo para minha amiga naquela mesma noite, já que eu tinha melado nosso encontro.

Enviei uma melodia doída para ela e recebi, na manhã seguinte, o primeiro verso pronto: “sei voar além do mar, sopro solto a me sustentar”. Ela me abriu todo um outro universo de possibilidades pra música e pra vida. Depois, juntas, terminamos de compor a canção.

“Sono dos Peixes”: Poema de Arruda musicado por Alzira E, ambos grandes referências no universo da canção como suporte para a poesia. Enquanto montávamos o repertório, Ivan Gomes, meu produtor musical, sugeriu que fizéssemos uma releitura desta canção — que foi gravada originalmente no projeto dos amigos Arruda e Peri Pane “Canções Velhas Para Embalar Peixes”—no meu álbum. Lembro de olhar o poema no papel,depois  cantá-lo algumas vezes e me surpreender por achá-lo tão curto para uma canção que soa tão grande.

Na versão que fizemos em Bandoleira,  os dois momentos da melodia cantada — primeiro bem grave, depois agudo — demarcam as profundas águas que eu ouço na canção. A imagem do sono dos peixes me faz imaginá-los no âmago mais escuro e macio das caldas azuis do universo. Enquanto isso, uma terceira voz é cantada pela guitarra, uma voz que não para de falar, revelando segredos mesmo que sem palavras.

Gravar “Alzira e Arruda” é também uma forma de homenagear meus queridos mestres na arte de transportar poemas do papel para a voz.

“Fundo”:  Me senti muito lida pela Alice Coutinho no nosso processo de composição dessa canção. A gente mal se conhecia quando Alice me provocou, perguntando se eu não tinha algo que ela pudesse letrar para o meu disco. Eu respondi imediatamente que sim, e enviei logo uma gravação experimentando algumas ideias melódicas em cima desse ostinato do violão (o padrãozinho que se repete). Quando Alice me enviou a letra, fiquei surpresa com a precisão das palavras que ela tinha escrito para minha voz; não só pelo contorno da melodia, mas porque ela leu e transcreveu aquilo que eu ainda não tinha palavras pra dizer.

Feita toda a primeira parte, concordamos que a canção merecia um B que saísse do buraco, que viesse para cima, que viesse além. Então fomos, bem bandoleiras, deixamos pra trás o “não”, o “sei”, fomos além da lei, num crescendo com a banda inteira, como um bando. 

“Cavalo 21”: Essa canção é um trecho da carta revolucionária 21 da Diane di Prima traduzido por Gustavo Galo e musicado por Peri Pane —ambos queridos amigos e parceiros de sons. Um presente que recebi para integrar o repertório deste disco. A introdução de bateria é uma ideia emprestada de Paul Simon em “50 Ways to Leave Your Lover”, canção do disco que,com certeza, foi o que mais ouvi nos últimos 3 anos. 

A imagem do cavalo vem aparecendo desde o meu trabalho anterior, Quem Faz Amor Faz Barulho, em cuja capa apareço montada num cavalo azul no centro de São Paulo. Os cavalos continuam aparecendo como símbolos de movimento e de viagem, são personagens afetivos que se relacionam com a minha história, mas que também contam a história do mundo, das disputas por poder e propriedade.

No ambiente rural, esses corpos passam a carregar outras camadas: atravessam territórios, cercas, caminhos antigos e futuros possíveis. Ao olhar para essas paisagens, me interessa pensar quem pode se mover, quem pode permanecer, e quais histórias ficam impressas em terra herdadas, ocupadas ou que ainda sonhamos transformar.

“No Lombo de um Cavalo”: Parece que a música mais “crua” do trabalho é a mais carregada de encontros e símbolos. Essa letra foi um presente que recebi do Fabricio Corsaletti depois de um café na padaria e um papo sobre livros, planos para o verão, família e as crises existenciais de sempre.

Musiquei o texto alguns meses depois, durante uma travessia a cavalo no interior do Paraná. Passei uma semana lá trabalhando no que viria a ser Bandoleira, e ao longo daqueles dias me propus a me deslocar apenas a cavalo. Foi em uma das minhas idas ao Distrito Maravilha, influenciada por “Blood On The Tracks” (Bob Dylan), que eu descobri a melodia que daria vida aos versos do Fabricio.

Foi num trabalho em homenagem ao Bob Dylan que eu tive a chance de conhecer tanto o Fabricio quanto Helio Flanders, meus amigos da estrada. O Gustavo Galo, citado na canção, também estava nessa turnê.

O encontro com o Helio foi um desses grandes, com muita identificação, apesar de sermos tão diferentes. A sensação é de reencontro. Ele esteve muito perto ao longo de todo o processo de Bandoleira e a sua participação nessa faixa (que eu fiz muita questão de gravar da forma mais crua possível) é um resumo de uma parceria que atravessa o trabalho inteiro.

A escolha por fazer essa faixa sem banda foi justamente para sublinhar que o trabalho todo foi gravado ao vivo, com performances reais e com muito espaço para espontaneidade — um risco bonito que topamos assumir. A presença do Helio também puxa a música para uma linguagem folk muito própria, atravessada por influências das nossas trajetórias, sem compromisso com um rigor importado lá do outro lado: é um folk feito à nossa maneira.



“Reforma”: Um dos primeiros eventos que eu fui logo que me mudei pra São Paulo foi um show do Minchoni, acompanhado da saudosa banda Meia-Dúzia de 3 ou 4. Ele vestia um colete com pedaços de tijolo que despencavam dramaticamente ao longo da apresentação no então Centro Cultural Rio Verde. Uma cena que me marcou muito. 

Desde que lancei meu trabalho cantando Leminski, Minchoni me conta que quer ser compositor. Altos papos nas internets e ele me mandou esse poema já com um esboço da melodia. Como qualquer reforma, os versos são um convite à confusão, mas com um objetivo muito específico: uma janela com quintal para todo mundo. A partir da gravação dele, selecionei os versos (as combinações possíveis são tantas!) e arrematei a melodia. Nossa primeira parceria. 

“Distrito Maravilha”: Distrito Maravilha é um subdistrito da cidade de Londrina, no interior do Paraná, onde a terra é vermelha e que eu tenho a alegria de frequentar desde muito pequena. O Felipe Blanco me enviou um texto fantasiando sobre os cavalos reais e imaginários do Distrito Maravilha e atritos que esse ambiente rural pode proporcionar. 

Eu preciso encarnar uma certa bandidagem pra entoar esse texto com a ousadia que ele pede. Percebo que sai da minha boca com um gostinho da Gal Costa de 1969 que eu tanto ouvi, amei e imitei. Nessa gravação, fomos ao extremo do que é uma banda tocando junto. Propus a eles que improvisassem esse texto comigo e nos arriscássemos juntos. 

“Cavalinhos”: É minha tradução livre para a cantiga folk “Pretty Little Horses”, que conheci durante uma viagem ao estado de West Virginia alguns anos atrás, bem na mesma época em que começou a nascer uma bela leva de crianças muito próximas a mim.

Como outras desse trabalho, nasceu na estrada. 

“Aurora”: A única canção que fiz durante a pandemia. Na época, recém-chegada a São Paulo, vivia num apartamento na Rua Aurora, na altura da praça da República. Em casa há muitas semanas, com a noção de tempo já um tanto confusa, me apeguei ao ciclo do sol para demarcar os meus dias. Dormia propositalmente com a veneziana aberta pra que um raio de sol me acordasse. Raio esse que não batia diretamente na minha janela, mas era um reflexo do sol que batia num prédio espelhado do outro lado da praça e então era refletido na minha janela.

Na gravação, quis gravar um coro de várias vozes minhas, explorando inclusive a região grave da voz.

“Desaparecer”: Composta nos primeiros dias do ano, com os pés mergulhados no Rio Paraná, esse é um poema de Nanao Sakaki, traduzido pelo amigo Felipe Melhado e musicado por mim junto com o Vitor Wutzki.

Wutzki, junto com o restante da banda, fez parte de todo o processo de criação do álbum. Ele gravou todas as guitarras de “Bandoleira” e também integrou toda a trajetória do meu projeto tocando Paulo Leminski. Ele tem uma relação íntima com a poesia e foi alguém que me influenciou e incentivou a musicar poemas.

Curiosamente, musicamos o poema enquanto estávamos em um passeio por uma ilha fluvial do Rio Paraná, onde as águas são barradas durante o dia para que as pessoas aproveitem as faixas de areia que formam pequenas e belas praias fluviais. Lá, ao final de cada dia, precisamente às 18h30, as barragens são abertas para escoar a água, e as ilhas desaparecem, ficando submersas durante a noite.

“On The Very Day I’m Gone”: Uma saudação às compositoras que abriram caminhos para mim e tantas outras mulheres escreverem suas próprias histórias. Uma canção que não exatamente se despede, mas anuncia a iminência da partida. Sua beleza me atravessou de primeira e fiquei cantando sem parar.

Essa é minha versão da cantiga de Addie Graham, compositora da tradição folk cuja vida e obra espelham, ao mesmo tempo, uma tradição cultural profunda e um período de transformações sociais. As vozes que cercam a minha são de Mariko Reid (PA) e Sissy Dinkle (TN), amigas queridas que conheci em 2014 no curso de mestrado da Berklee Valencia e convidei para cantar comigo à distância.

Num álbum com tantos deslocamentos, essa despedida faz muito sentido para mim. Também me emociona a singeleza e a proximidade que a canção traz diante da larga distância entre nós (Mariko, Sissy e eu) e do alto volume de treta no ar do mundo neste momento.

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