
Samuel Rosa acha graça quando descrevem o Skank como uma das bandas mais bem-sucedidas do pop rock nacional. “Parece um termo empresarial, algo usado para descrever um outro ramo", explica o compositor. Não que a afirmação não tenha veracidade: o grupo formado no início da década de 1990 por Samuel, Henrique Portugal, Lelo Zaneti e Haroldo Ferretti, alcançou a casa dos milhares de discos vendidos a partir de Calango (1994).
Com dez álbuns de estúdio, fora os registros ao vivo, o quarteto dividiu os louros e os desafios. No entanto, após mais de 30 anos juntos, os sinais de esgotamento começaram a aparecer, levando à dissolução do grupo em 2023. “Muita gente não compreendeu a ruptura. Por que mexer em time que está ganhando? Era uma banda muito bem resolvida, mas os meus anseios não cabiam no roteiro mais plausível", reflete o compositor. Para além da estafa criativa, ele havia perdido o frio na barriga, mas ainda se sentia inquieto artisticamente. Então, aos 58 anos, decidiu alçar voo solo.
O resultado da busca por novos horizontes se materializou em Rosa, que aterrissou no streaming e ganhou edição em vnil pelo NRC+. “Esse projeto me deixa feliz porque me deixa respirar de novo", afirma. “Está errado se você se sente muito seguro no seu trabalho. O contrário da mudança é a morte, então ela é imprescindível, mesmo quando as coisas não estão ruins, até para preservar aquilo que é muito precioso, como o Skank é para mim.”
Em poucos meses, Rosa foi selecionado na lista da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e indicado ao Álbum do Ano no Prêmio Multishow. A boa recepção da crítica e do público diluiu o medo da reestreia: “As pessoas poderiam dizer que o Samuel trocou os pés pelas mãos, mas não foi essa a reação.”
O caminho até as gravações nos primeiros meses de 2024 foi traçado com a banda formada por Doca Rolim, Alexandre Mourão, Pedro Kremer e Marcelo Dai. Como ele tinha uma demanda de shows, os músicos pegaram entrosamento no palco antes das gravações em Belo Horizonte. “Aproveitei para azeitar a banda. O indício de que a gente estava no caminho certo é quando você vê que não precisa se esforçar para as coisas acontecerem", lembra.
Durante dois meses, o quinteto operou na rotina dedicada ao refinamento das composições e na elaboração dos arranjos. Desse processo saíram cerca de 20 músicas, mas apenas metade chegou na edição final. Além destes novos parceiros, dois novos letristas entraram em cena: Carlos Rennó e João Ferreira, colega do filho Juliano, na Daparte. Para completar o time, Rodrigo Leão na composição, e Rodrigo Cipriani na produção musical.
No entanto, vale ressaltar que o disco não propõe uma negação do passado, pelo contrário, ele carrega os elementos que tornaram Samuel Rosa conhecido de norte a sul do país. Nele, há o aceno ao reggae, indie rock e bossa nova, mas carrega em si o frescor do novo momento. “Está longe de ser uma ruptura. Eu queria ditar as regras porque tenho direito a isso.”
Rosa carrega o estilo pelo qual você se tornou famoso, mas propõe acenos a outras linguagens, caso de “Tudo Agora", que traz o som do sintetizador e da bateria eletrônica. Como equilibrar a bagagem e a busca pela novidade?
Me considero um artista híbrido, não sou filiado a nenhum segmento, apesar de reconhecer – e achar justificável – ser associado ao pop rock. Não me incomoda, acho natural porém sempre transitei entre turmas. O disco traz um compositor acompanhado de uma nova banda encarregada das nuances para não parecer ao pé da letra com o Skank. Apesar de ser o mesmo letrista e produtor, reconheço que as músicas não possuem diferenças gritantes, aquelas que saltam aos ouvidos logo de cara, mas existem nuances e detalhes que se diferenciam.
Você costuma brincar que os Beatles tem álbum branco, o Metallica tem o preto, e você seguiu esse legado. Seria possível enxergá-lo como uma reafirmação da sua identidade?
Não quero me comparar com Metallica e Beatles, o meu é pelo nome, por ser uma autoafirmação do que eu precisava para o agora. Preciso fazer com que as pessoas tenham uma leitura para o meu processo. Isso pode demorar um pouco, mas não tenho pressa. Um amigo me disse que eu tinha zerado o game. Não, eu ainda tenho ambições na música. Fiz um disco raiz, com banda, e foi indicado ao Prêmio Multishow. Algo que fiz da minha maneira porque era hora disso, responder pelos erros e acertos. Acho que é um disco a ser descoberto, tem música na rádio, outras cantadas no show, mas não estamos mais em 1994 e eu tenho que saber que não sou o bola da vez. Tenho o meu lugar, sou lembrado pela minha geração, mas também pela nova.
Quais foram os critérios para a seleção das dez faixas do álbum?
Não consigo compor durante a turnê, preciso virar a chave, trabalho no modo estrada e estúdio separadamente. Brinco que componho de duas formas: a induzida e a espontânea. A espontânea é aquela que todo mundo adora acreditar que acontece, que vem uma ideia do nada e você tem uma música pronta na cabeça. Algo que até pode acontecer, mas funciona melhor quando você cria um clima. Tenho uma rotina quando preparo um álbum, o meu foco está nisso. Manhãs para compor e ensaios à tarde. Peguei algumas coisas dos últimos anos de Skank, mas na medida que novas coisas surgiam, elas ganharam prioridade pelo critério temporal. Sou uma outra pessoa da época que as fiz, tudo mudou, é uma banda nova. Deixei o resto guardado, não por serem ruins ou piores, mas perderam a preferência. Não sou um cara de ficar compondo 40 músicas, prefiro ter ideias e melhorá-las porque o trabalho pode ficar prolixo. Vou trabalhar dentro de uma certa estética, então há um parentesco entre as músicas, elas combinam como duplas.
Como essas mudanças impactaram no seu processo de composição?
Esse álbum é diferente porque musiquei muitas letras. Geralmente, nos últimos tempos, fazia melodias e mandava para os letristas. Cerca de 40% do disco tem letras minhas, algo que não era usual, mas não é algo inédito. Mesmo nas parcerias com Nando (Reis) ou Rodrigo (Leão), colocava pedaços de letras. Escrevia mais no início do Skank, depois encontrei parceiros geniais e vi que não era tão bom quanto eles. Agora estou atrevido, fiquei mais confiante depois do êxito de “Algo Parecido”, que foi a última coisa que gravamos e virou hit obrigatório nos shows.
De que formas a boa recepção trouxe confiança?
Isso tem dado certo. A música que abre o disco nas rádios é “Segue o Jogo", uma letra minha. Acho que há uma relação diferente como compositor integral de letra e música. Fico mais convicto na hora de cantar. É louco isso, agora é diferente, não lembrava dessa sensação. Então isso está alinhado com o momento: ser um disco meu, ter as rédeas nas mãos, de querer falar sobre mim nas letras, de buscar algo auto-referente. Nunca tinha feito música tão rápido. A minha filha Ava estava prestes a nascer, a gente tinha dois meses até o final de março. Planejava fazer metade antes e retomar depois. Mas para minha surpresa, a gente tinha dez músicas prontas. As coisas fluíram.
Você não se sentia vontade de propor algo dessa natureza na banda?
Esse é um dos motivos que achei que era hora de parar. Não queria ser um artista solo dentro do Skank. Uma banda justifica a sua existência quando ela tem participação mínima – nem precisa ser igualitária – de todo mundo. Como queria ter as rédeas, achei conveniente ter o trabalho solo.
Quais são as heranças do grupo?
Sem querer soar pretensioso, mas quando o Skank apareceu na década de 1990, junto de outras bandas, ajudou a renascer o interesse mercadológico no pop rock, que tinha sido a bola da vez nos anos 1980 porém vivia em crise. Havia um ceticismo. Era muita lambada com Beto Barbosa e Kaoma, axé de Luiz Caldas. A gente foi ponta de lança e puxou outras bandas. Haroldo produziu o primeiro do Pato Fu (Rotomusic de Liquidificapum, 1993). A gente dividia escritório e empresário no início do Jota Quest. E também no que virou um viés importante do mercado, o reggae rock, do Natiruts. Me permitindo, sem modéstia, o Skank foi referência para essas bandas, algo pouco lembrado na literatura da música brasileira.

Como as novas canções se aproximam e distanciam da discografia da banda?
Eu persigo a música cantada nos shows. Acredito que seja um respaldo verdadeiro no meio de likes, plays, ouvintes mensais, adoradores e haters das redes sociais, O que me interessa é a bilheteria no final de semana. Isso ninguém camufla, então existe uma diferença entre um hit e uma música com milhões de plays. O hit é aquilo que perdura, que ultrapasse qualquer classe, segmento, a música de todo mundo. Tive a felicidade de ter isso com o Skank, e continuo buscando isso. Sou um artista desse viés, faço músicas para a pessoa cantar, tenho no meu DNA. O Rosa tem isso. Coincidentemente, gravado 30 anos depois do Calango com “Jackie Tequila", “Pacato Cidadão", músicas que nos lançaram para o Brasil. O disco tem algo semelhante no quesito música palatável, que pode entrar no rádio e show.
“Ciranda Seca (Dinorah)” foi inspirada na personagem da Alice Carvalho, na série Cangaço Novo, e fala da força das mulheres. De que maneiras a maturidade possibilitou aflorar o seu lado feminino?
É o disco mais feminino que eu fiz, pelo nome, cor, ser pai de outra filha. Essa chave virou quando a Ana, minha primeira filha, nasceu em 2004. Descobri o universo feminino de outra forma, porque eu sou desse mundo do rock e futebol, mas vivemos uma outra época. Deixo aflorar o que associamos ao universo femino, como a sensibilidade, leveza e delicadeza, que o homem também pode ter. Talvez até teríamos um mundo melhor. Rosa traz essa busca, que sempre reconheci mas não deixava aflorar.
Como a paternidade e o segundo casamento impulsionaram outras formas de ver a vida?
Nessa altura do campeonato, não esperava viver uma inquietação tão grande como ser humano, artista e pai. Poder incorporar isso é de uma riqueza enorme, quase como se eu descobrisse um outro mundo. Ou seja, vivo o contrário daquilo que a sociedade propôs: ser aquele senhor de rodinha de clube aos domingos, brincando com o netinho, conservador pra caramba, com aversão a toda e qualquer mudança. Ainda carrego muito disso em mim, claro. Mas por ser pai de novo nesse momento, ter uma parceira que não é da minha geração, me vejo distante desse mundo em várias questões. E compro a briga de questionar o mundo conservador do qual eu vim. Gosto de me ver nesse processo, mas vou com ressalvas, não pulo de cabeça porque não quero ser confundido com o partido de adesão, aquela gente do centrão. Faço essas ressalvas em mim, do quanto ainda tenho de conservador e machista na minha formação. Fui criança nos anos 1970.
Como desconstruir as ideias pré-concebidas?
Você imagina o que era o Brasil vivendo sob a ditadura? Sou fruto disso, mas que bom que ainda dá tempo para me questionar, para olhar para esses aspectos. Não estou passando por aquela depressão dos 50 anos, onde um cara de meia idade olha para trás e acha que já fez de tudo. A maioria fica deprimido. Só não vou falar para todo mundo ter filho nessa altura porque acho perigoso (risos). A Ava foi uma filha muito desejada e planejada, estou com a Laura há oito anos, ela poderia até ter nascido antes.
Quais são as diferenças entre uma estreia nos anos 1990 e em 2024?
Nesse momento, o artista tem que ser um pouco didático. No final dos anos 1990, quando o Skank disse que não tocaria mais reggae, fez um ato didático, pedagógico e arriscado. Fizemos o Maquinarama (2000), sem reggae ou metais. No auge do reggae pop radiofônico. Não foi um disco vendedor, de quem vinha dos milhões, 300 mil não era tanto assim. No primeiro momento, chocou por ser diferente do reggae pulsante de “Garota Nacional”, era outra proposta e resultou naquilo que é, para a crítica, o melhor momento: Cosmotron (2003). Bom, agora faço outro convite. De certa forma, é preciso sinalizar para o público o que o trabalho representa para você.
Como expor o sentido do disco ao público?
Tratando ele bem, o colocando à prova de resenhas, porque a crítica não é só bajulação ou rancor. O papel fundamental da crítica é posicionar a obra dentro do seu cenário. Então, a resenha é importante por dar outra dimensão ao álbum. Somado a isso, é como o artista trata o próprio álbum. Fazer o vinil do Rosa traz a leitura que eu quero: ele é um álbum muito importante para mim. Ele marca o início de algo e o fim de outro processo. Estou propondo uma nova maneira de você degustá-lo. Indo na contramão da indústria fonográfica imediatista e mercenária. Quem manda hoje tem cargos efêmeros. O presidente de uma gravadora pode não estar lá amanhã, então ele quer saber do sucesso de agora. O imperativo é que você lance singles, um atrás do outro, o que acaba sabotando a assimilação do disco enquanto uma obra. O vinil, para mim, traz essa bandeira pois simboliza a contramão da indústria predatória e imediatista.
Quais são as possíveis leituras do ritual do vinil?
Como se eu falasse: “escuta o meu disco com calma". Um convite para apreciar a capa, degustar e ouvir com mais acuidade. Claro, o Rosa está nas plataformas, também quero ter ouvintes mensais, mas o público pode aprender a tratar uma obra a partir da forma que o seu criador a trata. Vem daí a minha gana de ter o vinil. O álbum está sendo lembrado pela crítica e pelo público, mas ainda tenho muito trabalho a fazer. Futuramente, vamos lançar o Rosa Sessions com vídeos da banda tocando todas as músicas. Quero trabalhar com calma, não tenho pressa, acho que ele ainda vai se abrir para muita gente, além de me ajudar a consolidar esse novo período da minha vida e na minha profissão. Esse é apenas o primeiro capítulo.






