Design sem nome-55

MC Hariel mistura funk paulista com orquestra no Red Bull Symphonic


Por:

Ana Laura Pádua

Fotos: Marcelo Maragni/Fabio Piva/Felipe Gabriel Barboza

COMPARTILHE:

O que acontece quando o funk encontra uma orquestra sinfônica? Ou, talvez, a pergunta seja outra: quem está entrando no universo de quem? Embora pareçam ocupar espaços distintos, esses dois mundos mantêm uma relação mais próxima do que se imagina, como provou MC Hariel no último sábado (8/8).

Dos samples que marcaram o funk nos anos 1990 aos arranjos orquestrais das produções atuais, essa aproximação atravessa diferentes momentos da história do gênero.No Red Bull Symphonic, que rolou em São Paulo, o encontro entre MC Hariel, o maestro Xuxa Levy e a Orquestra do Fluxo, criada para o projeto, amplia essa relação e propõe uma troca: enquanto o funk ganha novas possibilidades sonoras, a música sinfônica se aproxima de uma linguagem que há décadas se fortalece no mundo. 

MM_260808__5448

O projeto busca justamente isso: unir violinos, contrabaixo e metais típicos das orquestras para comporem a paisagem sonora de músicas de funk paulista de diferentes eras, mostrando toda a potência melódica do estilo. 

Como nasce o projeto

Antes de chegar ao palco, a apresentação atravessou meses de preparações, dezenas de ensaios e uma extensa operação para colocar em sintonia arranjos, repertório, banda, orquestra, balé e equipe técnica. 

Tudo começou dentro do estúdio, muito antes de qualquer definição de palco ou cenografia. Hariel desenhou a narrativa a partir da Baixada Santista, de diferentes territórios de São Paulo e da própria trajetória.

O produtor musical NAVE atuou como ponte entre o artista, os DJs e o universo sinfônico, enquanto Xuxa Levy transformou uma escrita inédita com a Orquestra do Fluxo, desenvolvendo cerca de 1.800 partituras. Ao todo, 56 músicos entraram em cena ao lado de Hariel, além de oito arranjadores e oito integrantes responsáveis pelo coral.

Em paralelo, a equipe conduziu um extenso processo de pesquisa sobre a história do funk paulista — as origens do gênero, as influências, as diferenças entre os territórios onde ele se desenvolveu, os visuais dos bailes, da moda, da dança e dos símbolos que ajudaram a construir sua identidade ao longo de décadas. 

Mais do que referência, esse material virou a base conceitual de todo o espetáculo: foi a partir dele que Drica Lara, diretora criativa, desenvolveu o universo espetáculo, além do conceito de luz e de toda a linguagem visual do show.

MM_260808__5800

Nos bastidores, a produção ficou na ativa por cinco dias, entre montagem, preparação e os últimos ajustes no auditório. A concepção visual também ganhou uma camada extra: a Orquestra do Fluxo e os bailarinos vestiam figurinos em jeans Levi's customizados por Gui Amorim, do Estúdio Traça, com styling do Pedro DDN. Cada pessoa ali colocou o seu DNA para a construção desse espetáculo inesquecível.

Da trilha à cenografia, tudo passou por um garimpo minucioso. Em uma etapa do processo, a equipe ouviu cerca de 150 músicas até fechar a setlist final: 36 canções, distribuídas em 21 momentos. Dividida em seis atos — "O Encontro", "O Corre", "Caminhada", "Consciente", "Baile de Favela" e "Submundo 808" —, a apresentação construiu uma narrativa que partiu das origens do funk paulista e avançou por conquistas, encontros, homenagens, claro, pelo baile.

Foi justamente a partir das próprias raízes que Hariel escolheu se apresentar logo no início do espetáculo. Antes de percorrer os seis atos, reconheceu as trocas que fizeram parte de sua caminhada: "Já ajudei como também fui muito ajudado, mas que essas coisas nunca façam a gente esquecer o som que a gente realmente ecoa para o universo", afirmou. "Eu sou Hariel Denaro Ribeiro, filho de Karin Christine e Celso Ribeiro, no Red Bull Symphonic."

Tijolo por tijolo

Depois de semanas de preparação, aquela hora condensava muito mais do que um repertório rearranjado para uma formação sinfônica. Era a trajetória de Hariel ganhando outra escala, sem abandonar os elementos que ajudaram a construí-la. 

MC Hariel, vale lembrar, já tinha apresentado uma proposta tão ousada quanto no Funk Superação (2025) — que ganhou edição especial em vinil pelo NRC+. O projeto, que contava com participações de Gilberto Gil e Iza, colocava diferentes vozes em diálogo com o cenário do funk paulista, incluindo também arranjos orquestrais para músicas do estilo. 

Apesar dos méritos próprios, para o artista, contar essa história significa também reconhecer que ela faz parte de algo muito maior: "Essa é a história de um cara que é fã do funk e que o funk mudou a vida. Eu só tenho gratidão por esse movimento que me colocou aqui hoje como primeiro representante desse projeto", agradeceu durante o show. "Esse movimento é muito maior que eu. Então esse dia que a gente tá vivendo é mais um dia daqueles, maior do que nós."

A dimensão coletiva atravessou a apresentação do início ao fim. Hariel dividiu o palco com artistas de diferentes gerações, revisitou nomes fundamentais para sua formação e prestou homenagens a quem ajudou a construir a história do gênero. 

Haridade em ação

Se o espetáculo partia de sua própria caminhada, ela servia também como ponto de encontro entre quem veio antes, quem segue ao seu lado e quem começa agora a escrever novos capítulos do funk.

O espetáculo passa por fé, força, conquistas e pelas dificuldades que acompanham, literalmente, o corre. “Avisa Que É o Funk” e “Milionários” foram os destaques no primeiro ato, que também recebeu Neguinho do Kaxeta, apresentado pelo anfitrião como seu “eterno professor”. Juntos, dividiram “Exemplos” e “Louco e Sonhador”.

Se a própria trajetória conduz o espetáculo, Hariel também abre espaço para quem escreve novos capítulos do gênero. O protagonismo, então, foi das mulheres: Tasha & Tracie e Ktrine, a artista mais jovem a subir ao palco naquela noite, se juntaram a ele em “Chefe É Chefe”, “Tang” e “As Minas que os Meninos Gostam”, aproximando diferentes gerações e vivências do funk.

FG_20260808__2973

Na sequência, a atmosfera muda: o palco é tomado pelo vermelho e a orquestra inicia uma homenagem a MC Daleste com “Mina de Vermelho”, acompanhada por uma bailarina que reforça a dimensão cênica da canção. 

É nesse trecho que São Paulo ganha espaço e toma conta do palco por completo. Em “Ilusão (Cracolândia)”, Hariel divide o palco com MC Davi e, em seguida, vem “Chá de Vida”, com MC Marks. O bloco termina com uma homenagem a MC Kevin em “Cavalo de Troia”, quando o artista vai até a plateia para abraçar Valquíria Nascimento, Dona Val, mãe de seu amigo.

Na reta final, vieram os hits, “Até o Sol Raiar”, “Cupido”, “Tem Café” e “Lei do Retorno”, esta ao lado de MC Don Juan. Para encerrar, o espetáculo se transforma em baile: os DJs da SubmundoTresk, Clei, Kenan e Kel — assumem as picapes em versões mais pesadas de “Bum Bum Tam Tam” e “Baile de Favela”.

É justamente nessa continuidade que Hariel projeta o significado desta noite para além do presente: "Espero que a gente se orgulhe muito quando passar 10, 20, 30 anos. Desde o primeiro MC até o último, que nunca vai existir. Cai um e nasce mais 10, e o funk vai estar sempre de pé."

Por:

Ana Laura Pádua

Fotos: Marcelo Maragni/Fabio Piva/Felipe Gabriel Barboza

COMPARTILHE:


VER MAIS

RECEBA NOVIDADES POR E-MAIL!

Inscreva-se na nossa newsletter.