fernanda takai (banner)

Mulheres recebem apenas 10% dos direitos autorais na música, apontam pesquisas


Por:

Vitória Prates

Fotos: Divulgação

COMPARTILHE:

A participação feminina na música vem crescendo, mas a renda segue desigual. Entre os 100 artistas com maior rendimento em 2025, apenas 11 são mulheres, aponta a pesquisa Por Elas Que Fazem a Música, da União Brasileira dos Compositores (UBC). Dados do relatório Mulheres na Música, do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD) vão num caminho semelhante. Ambas as pesquisas mostram que elas representam apenas 10% das pessoas físicas que recebem direitos autorais no país.

Assim, evidenciando a persistência da desigualdade na indústria. E quem são essas mulheres que trabalham com música? Entre as associadas da UBC, as compositoras continuam no topo da categoria, concentrando 73% do total recebido. Em contrapartida, as versionistas e produtoras fonográficas registram a menor participação, com apenas 1%. As intérpretes aparecem em segundo lugar, com 23%. 

Em termos de região, o Sudeste segue em liderança, com 60%; seguido pelo Nordeste (17%), Sul (11%), Centro-Oeste (8%) e Norte (3%). O recorte regional evidencia a concentração histórica da indústria musical nos grandes centros, o que dificulta o acesso e a visibilidade de profissionais de outras regiões.

Resistência delas

Apesar das barreiras estruturais, os dados indicam crescimento da presença feminina. Em 2025, o número de fonogramas registrados por produtoras fonográficas aumentou 13%, enquanto as obras cadastradas por autoras cresceram 12%. Também há iniciativas de songcamps 100% femininos, o que ajuda a incentivar a parceria entre compositoras, aponta a UBC.

O Ecad também registrou uma expansão significativa no número de mulheres cadastradas na gestão coletiva de direitos autorais: mais de 54 mil novas inscrições em 2025, cinco vezes mais do que em 2024. Mesmo com esse avanço, a desigualdade permanece evidente na distribuição da renda.

Dos mais de R$ 1 bilhão distribuídos em direitos autorais no Brasil em 2025, cerca de R$ 100 milhões foram destinados a mulheres. Entre os 100 autores com maior rendimento no país, apenas 2% são mulheres, segundo o levantamento do Ecad. A presença feminina também é reduzida entre as músicas mais executadas: entre as 100 canções mais tocadas em shows no ano passado, apenas 11 contam com participação feminina na autoria.

Mercado opressor

O levantamento da UBC ainda traz relatos de 280 profissionais do setor sobre assédio. 65% relatam já ter passado por uma situação de assédio no contexto profissional; sendo sexual (74%), verbal (63%) e moral (56%) os principais, em 96% dos casos, homens foram os autores. 

Entre as mulheres ouvidas pela pesquisa, 35% afirmaram já ter enfrentado algum tipo de violência no ambiente profissional, principalmente psicológica (72%), seguida por toque físico sem consentimento (58%) e violência verbal (38%). Os impactos dessas experiências são significativos: 75% das respondentes apontaram consequências emocionais e metade (50%) relatou ter se afastado de pessoas ou ambientes de trabalho. 

No recorte de discriminação, 63% disseram já ter sido ignoradas ou interrompidas em contextos profissionais, 59% receberam comentários que desqualificaram sua competência, 57% sentiram uma cobrança maior para provar sua capacidade e 52% tiveram créditos omitidos ou minimizados. Situações desse tipo aparecem com mais frequência em reuniões de negócio (45%), bastidores de shows (31%), e seleção de equipe (26%).

Os dados reunidos pelos dois levantamentos reforçam que, embora cada vez mais presentes na criação e na performance, as mulheres ainda enfrentam barreiras para transformar participação em reconhecimento, remuneração e segurança dentro da indústria musical.

A pesquisa Por Elas Que Fazem a Música pode ser acessada na íntegra aqui. Para Fernanda Takai, cantora, compositora e diretora da UBC, ainda há muito a avançar: "Abrimos 2026 mirando um futuro que espelhe nossa cultura interna, onde as mulheres ocupem maioria absoluta nos cargos de liderança. A indústria da música precisa ser mais representativa e não vamos perder esse foco".

Isabel Amorim, superintendente executiva do Ecad, afirma: "A música é um reflexo da diversidade cultural de um país, de um povo — e, cada vez mais, também da força, do talento e da criatividade das mulheres que a constroem diariamente". Acesse a íntegra do estudo aqui.

As duas pesquisas foram divulgadas neste mês de março, chamando a atenção para o retrato desigual da música no mês da mulher.

Por:

Vitória Prates

Fotos: Divulgação

COMPARTILHE:

RECEBA NOVIDADES POR E-MAIL!

Inscreva-se na nossa newsletter.