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São João: 11 músicas e discos que evocam o espírito junino, do baião à MPB


Por:

Giulia Cardoso

Fotos: Divulgação

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As festividades juninas carregam uma das identidades culturais mais ricas e vibrantes do Brasil. Além das fogueiras, das bandeirinhas e das comidas típicas, é a música que costura a memória afetiva desse período. Ao longo das décadas, o som do São João soube transitar entre a tradição e a modernidade pop, transformando-se em um espelho das transformações da música popular brasileira.

Abaixo, mergulhamos nos registros históricos e nos lançamentos recentes que ajudam a contar a evolução dessa trilha sonora irresistível.

Luiz Gonzaga – São João na Roça (1952)

Não há como falar de São João sem evocar a figura de Luiz Gonzaga. Composta pelo "Rei do Baião" em parceria com Humberto Teixeira, "São João na Roça" é uma obra-prima que imortalizou as tradições juninas do interior brasileiro. Ao cantar as noites iluminadas por fogueiras e balões, Gonzaga não apenas moldou as bases do cancioneiro nordestino, mas também estabeleceu toda a identidade visual e lírica que hoje associamos ao período junino na cultura popular.

Banda de Pífanos de Caruaru – Zabumba Caruaru (1972)

Produzido pelo emblemático compositor Onildo Almeida, o álbum de estreia da Banda de Pífanos de Caruaru é um monumento da música instrumental brasileira. O registro captura com perfeição a energia crua, telúrica e ancestral do São João de rua praticado no agreste pernambucano. Contando apenas com os sopros tradicionais das flautas de pífano e o ritmo marcante da percussão da zabumba, essa sonoridade peculiar e potente influenciou diretamente a vanguarda da MPB e as experimentações do rock nacional nas décadas seguintes.

Dominguinhos – Isso Aqui Tá Bom Demais (1985)

Herdeiro direto de Gonzaga, Dominguinhos trouxe uma sofisticação harmônica única para o arrasta-pé sem jamais perder o sotaque popular. A faixa-título de seu aclamado álbum de 1985, composta em parceria com Nando Cordel e gravada com a participação especial de Chico Buarque, tornou-se uma das maiores crônicas afetivas das celebrações de junho. A canção traduz em melodias o aconchego e o calor humano típicos das festas juninas.

Gal Costa – Festa do Interior (no álbum Fantasia, 1981)

Na virada para os anos 1980, a energia do interior invadiu definitivamente as rádios de todo o país na voz de uma das maiores intérpretes da MPB: Gal Costa. A composição de Moraes Moreira e Abel Silva, originalmente uma das faixas mais populares do próprio Moraes, explodiu nacionalmente ao ganhar o tratamento solar e a interpretação arrebatadora de Gal no aclamado álbum Fantasia (1981), mostrando que o ritmo junino pertencia aos grandes palcos.

Mastruz com Leite – Ao Vivo Vol. 1 (1997)

Nos anos 1990, o Nordeste promoveu uma verdadeira revolução estética com o surgimento do forró eletrônico, e a banda cearense Mastruz com Leite foi a grande pioneira desse movimento. O álbum Ao Vivo Vol. 1, lançado em 1997, tornou-se um marco histórico do gênero. Famoso por suas músicas contagiantes, o disco eternizou versões ao vivo de hinos que até hoje são obrigatórios em qualquer arraiá, como "Meu Vaqueiro, Meu Peão", "Minha Verdade" e "Olhinhos de Fogueira", capturando com fidelidade o calor e a catarse do público.

Gilberto Gil – As Canções de Eu Tu Eles (2000)

Concebido originalmente como a trilha sonora oficial do filme nacional Eu Tu Eles, este projeto de Gilberto Gil firmou-se como uma das maiores e mais elegantes homenagens modernas à cultura junina e ao legado de Luiz Gonzaga. Ao apostar em uma leitura minimalista, acústica e extremamente charmosa de faixas como "Esperando na Janela" (clássico de Targino Gondim), Gil provou a força pop, elegante e atemporal do xote e do forró pé-de-serra no novo milênio.

Alceu Valença – Forró Lunar (2001)

Dedicado integralmente às festividades de junho, Forró Lunar é um verdadeiro manifesto de amor de Alceu Valença ao forró tradicional. No álbum, o cantor pernambucano entrega uma releitura primorosa e enérgica de "Olha pro Céu" — clássico eterno do Rei do Baião que exalta as noites de São João —, envelopando a poesia ingênua e literal do interior com a sua clássica e inconfundível assinatura pop e psicodélica.

Lucy Alves – "Eu que Não Amo Você"

Uma das provas mais recentes da capacidade de absorção do São João é o projeto Nordestina Highway. Gravado em João Pessoa com produção de Marcelinho Macedo, o álbum faz uma travessia ousada: transporta o cancioneiro do gaúcho Humberto Gessinger (líder dos Engenheiros do Hawaii) para o clima de forró.

O primeiro single traz Lucy Alves misturando um forró pop romântico a "Eu Que Não Amo Você", uma das baladas mais famosas da banda.

Joyce Alane – "Idiota Raiz" (2023)

Apontada como um dos grandes nomes da nova safra da música pop nordestina, a cantora e compositora recifense Joyce Alane traz frescor ao gênero ao injetar o balanço cadenciado do xote em suas narrativas românticas. A faixa "Idiota Raiz", que ganhou tração nas plataformas de streaming (especialmente em sua versão com a participação de João Gomes), consegue preservar a essência rítmica e o caráter junino das sanfonas de uma forma leve, descontraída e moderna.

Natascha Falcão – Ave Mulher (2023)

Indicada ao Grammy Latino de Artista Revelação, a pernambucana Natascha Falcão entrega o puro suco da catarse rítmica em seu elogiado disco de estreia, Ave Mulher. Flertando de forma visceral com manifestações tradicionais como o coco, a ciranda e o maracatu, o álbum captura a energia que ferve no Nordeste no ciclo junino, provando que a tradição também pode ser vanguardista.

Duda Beat – "Agora Viu que Perdeu e Chora" (2026)

Mostrando que o ecossistema junino continua atraindo grandes nomes do pop nacional, Duda Beat abraçou de vez a temporada em um lançamento sob encomenda para o projeto especial Elas Cantam Arlindo. A artista transformou o clássico samba de Arlindo Cruz em um xote contemporâneo e altamente dançante. O resultado aproxima com perfeição o romantismo popular carioca da estética eletrônica-nordestina que consagrou a cantora.

Por:

Giulia Cardoso

Fotos: Divulgação

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