O que é singeli music? Entenda o gênero eletrônico da Tanzânia


Por:

Daniela de Jesus

Fotos: Don Salvatore; Pichamali Studio/Divulgação

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As batidas entre 150 e 300 BPM e a expressão corporal intensa são algumas das principais características da singeli music. O gênero tanzaniano é uma vertente eletrônica que incorpora elementos do taarab, mchiriku e bongo flava, estilos musicais da cidade de Dar es Salaam. Ali, o foco é no ritmo frenético que serve de acompanhamento para as letras dos MCs, que versam sobre o cotidiano.

O jornalista, DJ e etnomusicólogo Felipe Maia ressalta que a combinação entre o experimental e o tradicional é o que o torna singular:

"O singeli quebra as expectativas de canção, harmonia, tempo e performance. Ao mesmo tempo, mantém elementos do hip-hop."

Ele continua: "No caso da Tanzânia, vem muita coisa do bongo flava, que é o rap produzido ali, e que acabou energizando a parte vocal do singeli. É mais uma vez a música pulsando por meio de ferramentas eletrônicas e digitais, num contexto extremamente popular".

Nos anos 2000, o gênero se desenvolveu como expressão das periferias urbanas. O ritmo foi desenvolvido a partir da interpretação eletrônica da música nativa e da tecnologia dos softwares de produção musical. Foi nas ruas de bairros operários que o gênero ganhou popularidade. Makaveli, um dos MCs pioneiros, aponta como as festas foram essenciais para o desenvolvimento do gênero.

“Eu trabalhava como MC de festas de casamento. Foram esses eventos, em que estava cercado por essa música de ritmo acelerado, e por performances cheias de energia, que mais tarde ajudaram a evoluir o singeli. Essa experiência me inspirou a fazer parte desse movimento. As festas de rua tiveram um papel enorme no seu crescimento. Elas foram as primeiras plataformas em que essa música se conectou com as pessoas. Esses eventos deram aos artistas a oportunidade de se apresentar, testar músicas novas e construir uma base de fãs”.

Sisso, DJ e produtor musical, rememora como realizou as primeiras gravações: “Eu trabalhava em uma locadora de CDs e tinha contato com diversos ritmos. Com um pouco de criatividade, consegui tirar o microfone do celular e transformá-lo em uma caixa de som. Meus amigos disseram: 'Sisso, dá para gravar músicas usando o microfone desse celular'. E foi exatamente isso que fizemos. Naquele tempo, o singeli já tocava nas ruas, mesmo sem gravações profissionais". 

Anatomia do ritmo

O estilo cria uma espécie de transe com o tempo rápido e os padrões rítmicos intensos. A melodia repetitiva deixa espaço para as performances dinâmicas dos MCs, cantadas em suaíli, e o compasso gera uma levada energética. “O singeli tem diferentes ritmos e atmosferas, e é justamente isso que faz dele um gênero tão singular”, ressalta Sisso. 

A cantora Kadilida, uma das principais vozes femininas, reforça como essas características o tornam único: “Há uma sonoridade diferente de qualquer outro gênero musical no mundo. Essa combinação de diversidade cultural, velocidade e energia bruta cria uma identidade própria”.

O ritmo chegou à Bahia. Makaveli e Jay Mitta participam de “Nauliza”, do álbum OXEAXEEXU (2021). “O Russo estava interessado em nos conectar com a África de uma maneira direta e não óbvia, como o Afrobeats. O que a gente viu nos eventos de singeli remetia ao que acontece no Carnaval. Era algo muito catártico e grandioso”, conta o guitarrista Beto Barreto.

Em 2026, o rapper e Kadilida se apresentaram com o BaianaSystem no C6 Fest, em São Paulo: “Mandamos as bases de ‘Calamatraca’ e ‘Capim Guiné’ e abrimos espaço para eles fazerem uma base deles. Hoje, quando tocamos essas músicas, colocamos elementos que foram incluídos por eles. É justamente nesse lugar que fazem sentido essas trocas", disse. 

O músico se aprofunda nas conexões entre eles: “A dança, a expressão corporal e a música se complementam. Tem essa coisa frenética, que permite que eles entrem num transe pela energia. O suaíli tem influência da língua árabe, e isso leva a música para outro tipo de métrica. Tudo isso traz um outro sabor”. 

A dança do singeli tem contornos próprios, a chamada chura se caracteriza pelas mulheres rebolando intensamente no ritmo da música com movimentos dinâmicos no chão. DJ Travella, um dos novos nomes do gênero, reforça a importância da expressão corporal para o singeli:

“A música e a dança criaram uma à outra. Quando as pessoas dançam chura, a batida precisa responder a esse movimento. Ela representa expressão, humor, liberdade e confiança. E mostra que isso vem de pessoas reais, não de um laboratório esterilizado. A dança dá atitude à música. Sem o corpo, o singeli não está completo”.

Atravessando continentes

A expansão para além das fronteiras tem o dedo do Nyege Nyege: o festival acontece anualmente em Jinja, Uganda, às margens do rio Nilo, e celebra a música eletrônica da África Oriental. Já o selo se baseia em Kampala e é responsável por destacar a música da região.

A conexão entre países surgiu em meados de 2016, quando o greco-armeno Arlen Dilsizian, etnomusicólogo e fundador do coletivo, viajou para Dar es Salaam. Durante uma corrida de táxi, ele conheceu Abbas Jazza, que, além de motorista, era um dos agitadores culturais da região. 

Dessa parceria, o primeiro lançado pelo Nyege Nyege Tapes foi a coletânea Sounds of Sisso (2017). A partir disso, os artistas já estiveram nos palcos dos festivais Primavera Sound e Rewire, além de gravarem o Boiler Room. 

Apesar do sucesso internacional, o estilo ainda sofre com repressão de autoridades. A popularidade fez com que uma parcela da população associasse o ritmo à violência. As festas na rua já foram intensamente interrompidas pela polícia. Kadilida divide como isso teve impacto no começo de sua carreira: “O singeli não era amplamente aceito. Dizer à minha família que eu queria me tornar artista era difícil, já que muitas pessoas menosprezavam essa música e não a enxergavam como uma carreira promissora". 

Com o intuito de apoiar outras mulheres, Kadilida fundou o Singeli Queens para que outras mulheres seguissem no gênero. “Eu acreditava que seria melhor reunir artistas para que pudéssemos apoiar umas às outras, crescer juntas e construir um senso de união.”

Em 2025, o Ministério da Cultura da Tanzânia submeteu o singeli como Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO, processo que está em avaliação. “Essa aceitação precisa vir acompanhada de respeito", diz  Travella, que se apresentou na Virada Cultural paulistana neste ano. “O singeli não deve ser aceito apenas quando é suavizado ou limpo demais. A parte crua é importante. A parte das ruas é importante. A dança, a velocidade, o humor, a liberdade – isso é o verdadeiro singeli. Eu recebo esse apoio com satisfação, mas quero que a cultura continue viva e autêntica”. 

* Esta matéria foi publicada originalmente na Revista Noize 175, que acompanhou o disco de vinil de “O Mundo Dá Voltas”, lançado pelo Noize Record Club em 2026.

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Daniela de Jesus

Fotos: Don Salvatore; Pichamali Studio/Divulgação

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