
A música eletrônica, às vezes, parece um nicho à parte da indústria musical: apesar de sua presença estar por todo lado – nas produções do pop e hip-hop, por exemplo – o termo "música eletrônica" geralmente desencadeia uma imagem muito específica no imaginário popular. A de um DJ tocando um som 4x4, num grande clube fechado ou um festival especializado.
No palco Perry's by Fiat, onde se concentraram as apresentações de música eletrônica do Lollapalooza Brasil 2026, certamente houve espaço para esse tipo de som mais comercial e popular. O DJ norueguês Kygo, que fechou o palco na sexta à noite, certamente se encaixa nessa descrição, com seus beats de house e disco de muita inclinação ao pop que o tornaram um dos maiores DJs do mundo no fim dos anos 2010, quando ele garantiu um lugar na famosa lista de Top 100 DJs da revista inglesa DJ Mag.

Quem ocupa atualmente um lugar altíssimo (12º) nessa lista é a sul-coreana Peggy Gou, também chegada num house – principalmente um com um pianinho e um gosto mais vintage, como é o caso em seu hit de 2023, "It Goes Like (Nanana)". Na noite de domingo, a DJ apresentou um set afiadíssimo que fechou o palco com uma energia do que se conhece por "Big Room": beats minimalistas, grandes drops, fogos e chuva de papel.
Mas a curadoria do Perry's by Fiat não se limitou a esses grandes nomes, e nem às formas mais conhecidas do som de pista. Entre os 28 nomes que se apresentaram no palco, não faltaram representantes de todos os lados da música eletrônica: rappers modernos, DJs de funk, grupos com inclinação experimental e artistas saídos do underground brasileiro deram as caras na programação, deixando claro que a curadoria se preocupou em representar a pluralidade de linguagens e estéticas do som eletrônico.
Um bom exemplo é a DJ alemã Horsegiirl, que fez um set dinâmico e intenso em plena tarde de sexta-feira, para o público que conseguiu ficar debaixo do sol escaldante que bateu no Autódromo de Interlagos o fim de semana todo. Seu som tão delicado quanto pesado, com BPM altíssimo, foi um dos mais memoráveis.
Vale também destacar foi a estreia do DJ japonês Yousuke Yukimatsu no Brasil, no domingo. O artista, que ganhou popularidade após uma apresentação icônica no Boiler Room em Tóquio, mostrou que suas referências e sua técnica vão longe – a homenagem ao Brasil veio em forma da track "Roots Bloody Roots", do Sepultura, que Yukimatsu mixou sem nenhuma dificuldade a um techno intenso, som que formou a maior parte de seu set. Coisa de gênio.
DJ Diesel, o Shaquille O'Neal, e o britânico Hamdi se apoiaram mais em ritmos que se encontram debaixo do guarda-chuva do bass, tocando dubstep e drum and bass que também deu as caras no set do Skrillex no palco principal, no sábado à noite.
No funk, Marcelin o Brabo e Mu540 representaram a nossa típica música eletrônica brasileira – Marcelin tocou clássicos do Rio, como "Boladona" e "Cerol na Mão"; já Mu540 intensificou sua sonoridade de funk mandelão e bruxaria, aumentando o BPM e hipnotizando o público com misturas de house.
O hip hop também foi contemplado em sua pluralidade: na tarde de sábado, os shows de Crizin da Z.O., N.I.N.A, Febre 90s e 2Hollis mostraram que pode se fazer rap de vários jeitos. Crizin levou sua sonoridade mais experimental, por vezes ruidosa e cacofônica, enquanto N.I.N.A e Febre 90s representaram facetas diferentes do rap mais popular: um trap enérgico e um boom-bap descontraído. Já o americano 2Hollis mostrou muito do que rolou no underground americano nos últimos anos: um rap puxado pro agressivo "rage", com toques de hyperpop.

O underground das festas eletrônicas brasileiras também se viu representado: Alírio, Idlibra e Entropia, que se apresentaram no domingo, são figurinhas carimbadas de rolês icônicos de São Paulo, como Mamba Negra, ODD e Chernobyl. A variedade de sons e estéticas mostrou que o Lollapalooza Brasil se esforça para entender o presente da música eletrônica, que não se confina a uma ideia simplista. É um prato cheio para trazer ainda mais cenas contemporâneas de música ao festival – eventos que, muitas vezes, abrem mão de uma curadoria complexa em favor do sucesso garantido.
Lollapalooza Brasil 2027
Datas: 19, 20 e 21 de março
Onde: Autódromo de Interlagos
Ingressos: Ticketmaster
Conteúdo apresentado por Fiat Brasil.






